Começou a terceira temporada de Star Trek: Strange New Worlds no SkyShowTime e sempre identifiquei com uma personagem. Desde sempre, senti uma identificação profunda com os Vulcanos de Star Trek, mesmo antes de compreender o motivo. Enquanto muitos preferem o universo aventuresco e fantasioso de Star Wars, eu fui sempre atraído pelo fascínio racional, filosófico e disciplinado dos Vulcanos. Uma espécie que valoriza a lógica acima da emoção e cuja existência é pautada por um esforço constante de controlo interno num universo de estímulos, conflitos e diferenças. Os Vulcanos não são apenas seres de orelhas pontiagudas. Surgiram de um planeta hostil, fervilhante de instintos primários, onde a intensidade emocional ameaçava a sua própria sobrevivência. Para impedir a autodestruição, transformaram a emoção desenfreada em sabedoria racional. Assim nasceu Surak, o maior filósofo Vulcano, que pregou a lógica como via de salvação coletiva.
Hoje, ao olhar para a minha história de vida marcada pela procura incessante de sentido, pelo sentimento duradouro de não pertença, pela hipersensibilidade sensorial e pela necessidade quase vital de rotinas e previsibilidade, compreendo melhor a razão dessa identificação. Encontro referências na minha vida em comparação à evolução coletiva dos Vulcanos. Cresci num ambiente por vezes caótico e incompreensivo, que obrigou-me a procurar normas, rotinas, refúgios de silêncio e rituais de controlo, tal como os Vulcanos desenvolveram a meditação, os koans lógicos e o Kal-Toh, aquele jogo quase impossível que exige precisão e paciência infindáveis. Tal como Spock, sempre senti-me o “estranho em duas culturas”. Na minha família, na escola, nos grupos. Eu era obrigado a camuflar o que sentia, a esconder traços distintos, a alinhar comportamentos para sobreviver à margem, para ser paradoxalmente menos diferente.

Os Vulcanos veem as emoções como um vulcão, um poder latente e feroz que precisa de regras claras. Não é que não sintam, pelo contrário, sentem de forma até mais intensa do que os humanos, mas aprenderam a canalizar e a domesticar esse caos interior. Do mesmo modo, a minha experiência de neurodivergência obrigou-me, desde cedo, a encontrar estratégias de sobrevivência: camuflagem social, diálogo interno bastante racional, apego a rotinas e previsibilidade, análise contínuo do ambiente e dos outros. Tal como eles, tornei-me um mestre da diplomacia e da observação. Mais confortável em papéis de mediador, de espectador ou conselheiro do que no centro da euforia coletiva.
Além disso, o planeta Vulcano, com o seu ambiente agreste, moldou os seres resilientes, tal como o meu contexto familiar, escolar e social que forçou-me a resistir, a crescer entre ambientes que ora rejeitavam-me, ora punham à prova a minha autonomia emocional. Os Vulcanos valorizam a integridade da identidade e eu, com o meu caminho de autodescoberta neurodivergente, aprendi que a máscara social tem custos e que a aceitação da diferença só é possível quando honro o que sinto e o que sou, sem vergonha. A camuflagem, ou masking, é o equivalente moderno ao autocontrolo Vulcano: um processo de sobrevivência que, tal como descobri, tem custos elevados, mas é por vezes a única forma de existir num mundo que não foi feito para pessoas como nós.

Outro ponto de aproximação é que o Spock representa o conflito entre lógica e emoção e que está dividido entre a cultura humana caótica e a tradição vulcana disciplinada. Também eu, experimentei essa tensão entre pertencer e proteger-me, entre procurar afeto e garantir a minha segurança. Ambos descobrimos que a verdadeira sabedoria não está em negar emoções, mas em reconhecê-las, integrá-las e utilizar o seu potencial sem as deixar dominar. Para os Vulcanos, o caminho do autoconhecimento é sagrada. Para mim, a descoberta da neurodivergência e a aceitação da minha multiplicidade interna são a minha própria Kolinahr, o ritual de purificação onde se abandona o supérfluo e se chega à essência.
Tal como eles, encontrei os meus rituais diários: as caminhadas, as rotinas alimentares, o estudo metódico, os diálogos internos e os momentos de introspeção silenciosa. Estas práticas não são só uma forma de sobreviver ao mundo exterior, mas também de reconciliar-me com a minha verdadeira natureza. E se a sociedade Vulcana criou estruturas seguras e inclusivas para quem pensa, sente e percebe de forma diferente, o meu apelo por ambientes adaptados, sensorialmente tranquilos, rotinados, honestos e compassivos é, na verdade, um manifesto para um mundo que celebre todas as formas de inteligência e de expressão.
No fim, tal como os Vulcanos tiveram de lutar coletivamente para transitar do caos para a convivência pacífica. E como o Spock teve de aprender a existir no limiar de dois mundos, também o meu percurso é um caminho de orgulho na singularidade. Aceitar ser diferente não é uma fraqueza, mas sim uma força. O espelho que encontrei nos Vulcanos não é só um consolo intelectual, mas também uma inspiração vital para caminhar com dignidade e lógica no tumulto das emoções humanas. Ser Vulcano é aprender a sobreviver através da lógica quando o sentir é demais, cultivar disciplinas interiores, honrar a verdade e nunca desistir de compreender quem somos, mesmo que não sejamos de lugar nenhum ou de múltiplos lugares ao mesmo tempo. Assim como Spock e tantos da sua raça, percebi que a diferença nunca foi uma fraqueza, mas uma outra forma de ser forte.
Identificar-me com os Vulcanos é reconhecer na ficção um espelho seguro e inspirador, onde a lógica e o autocontrolo são celebrados e onde o caminho para a aceitação passa pelo orgulho da singularidade. Afinal, como ensinam em Vulcano, a lógica é apenas o início da sabedoria e não o fim.
Como diria Spock:
“Cherish the difference. Logic is the beginning, not the end, of wisdom.”

By Jonas Ferreira
