Durante muito tempo li essa característica como uma falha. Parecia-me que existia um desvio em relação ao que socialmente é esperado nas ligações humanas. Observava nos outros uma continuidade afetiva sustentada por contacto regular, validação mútua e repetição de gestos, enquanto comigo essa continuidade assumia uma forma menos visível e menos dependente de rituais.
Com o tempo comecei a questionar se o problema residia no desapego ou no modelo usado para o interpretar.
A tradição psicológica, em particular a teoria da vinculação proposta por John Bowlby, descreve a segurança emocional como resultado de relações consistentes e previsíveis ao longo do tempo (Bowlby, 1969). Esta perspetiva foi posteriormente desenvolvida por Mary Ainsworth, que reforçou a importância da proximidade e da responsividade como indicadores de vinculação segura (Ainsworth et al., 1978). No entanto, estes modelos assentam em padrões normativos que nem sempre contemplam variações no processamento emocional e relacional.
A minha experiência não corresponde inteiramente a esse padrão.
A memória, enquanto função psicológica, não opera em mim como uma linha contínua que sustenta narrativas estáveis de ligação. Aproxima-se mais de uma estrutura episódica e sensorial, tal como descrito por Endel Tulving na distinção entre memória episódica e semântica (Tulving, 1972). Recordo momentos com intensidade, mas não necessariamente como uma sequência organizada que alimente a sensação de continuidade relacional. Esta diferença tem implicações diretas na forma como as ligações são mantidas ao longo do tempo.
Não se trata de ausência de sentimento. Trata-se de uma relação distinta com a permanência do sentir.
Este padrão encontra ressonância em algumas abordagens à neurodivergência. O conceito de monotropismo, desenvolvido por Dinah Murray, Wenn Lawson e Mike Lesser, sugere que a atenção e o investimento cognitivo se organizam em torno de interesses intensos e relativamente restritos, o que pode influenciar a forma como as relações são experienciadas e mantidas (Murray et al., 2005). A continuidade não depende necessariamente do reforço constante, mas da forma como a experiência foi inicialmente integrada.
Neste contexto, o desapego pode ser entendido como uma variação funcional e não como défice.
A dimensão filosófica desta questão torna-se inevitável. No estoicismo, autores como Epicteto defendem a distinção entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende, propondo uma relação com o mundo baseada na autonomia interna e na aceitação dos limites do controlo (Epicteto, Enchiridion). Esta perspetiva não implica indiferença emocional, mas uma forma de regulação que evita a dependência excessiva de fatores externos.
Por outro lado, no existencialismo, Jean-Paul Sartre sublinha a inevitabilidade da liberdade individual e a responsabilidade de construir significado fora de estruturas impostas (Sartre, 1943). Esta ideia implica uma tensão constante entre o indivíduo e as normas sociais, que tendem a padronizar experiências subjetivas.
Reconheço-me nessa tensão.
Não seguir determinadas regras sociais nunca foi uma decisão deliberada no sentido ideológico. Resulta antes de uma ausência de identificação com essas regras enquanto estruturas naturais de funcionamento. A expectativa de contacto frequente como prova de vínculo, ou a necessidade de expressar continuamente proximidade, não emerge de forma espontânea na minha experiência.
As ligações, ainda assim, existem.
Persistem de forma menos visível, menos dependente de validação externa, menos traduzida em comportamentos socialmente reconhecidos. Não necessito de reativar constantemente uma relação para que ela se mantenha significativa. A sua existência não está condicionada pela frequência de contacto, mas pela qualidade da experiência que a originou.
Este posicionamento tem consequências.
Num contexto social que valoriza sinais explícitos de envolvimento, a ausência desses sinais tende a ser interpretada como desinteresse ou afastamento. Essa leitura gera frequentemente desencontros, não por inexistência de ligação, mas por divergência na forma de a reconhecer.
Ainda assim, existe uma coerência interna neste modo de estar.
A recusa em aderir automaticamente a normas sociais não validadas pela experiência própria aproxima-se de uma forma de não conformismo que não é performativo, mas estrutural. Não se trata de oposição ativa, mas de um alinhamento com uma lógica interna que não coincide com o padrão dominante.
Talvez o erro esteja em assumir que a ligação só é legítima quando visível.
Se aceitarmos a possibilidade de múltiplas formas de continuidade emocional, o desapego deixa de ser interpretado como ausência e passa a ser compreendido como diferença. Uma diferença que não invalida a profundidade das relações, apenas desafia os critérios usados para as medir.
Não é que eu não me ligue.
A forma como permaneço ligado não corresponde às regras estabelecidas.
By Jonas Ferreira


