
Nem todos os psicólogos funcionam comigo e isso não significa que eu seja “difícil”, nem que a terapia falhou; significa, muitas vezes, que a relação terapêutica ainda não encontrou a forma certa de existir. A literatura mostra repetidamente que a aliança terapêutica está associada a melhores resultados, e que esse efeito pode ser importante tanto na psicoterapia presencial como nas consultas a distância.
Quando alguém diz “nem todos os psicólogos funcionam comigo”, há quase sempre uma história por trás. Às vezes é uma história de linguagem que não encaixa, de ritmo clínico que parece frio demais, de perguntas que chegam cedo demais, ou de interpretações que soam inteligentes mas não tocam nada de importante. A ciência ajuda aqui a tirar a culpa da equação: a qualidade do vínculo, a colaboração e o ajuste entre a pessoa e o terapeuta influenciam o percurso do tratamento.
Eu gosto de pensar que esta frase não é uma rejeição da psicologia, mas uma forma de honestidade. Nem todas as pessoas precisam do mesmo tipo de escuta, e nem todos os estilos clínicos servem para todas as histórias. Em crianças e jovens com autismo, por exemplo, a investigação aponta que a aliança pode ser relevante para o resultado e que uma abordagem sensível ao perfil da pessoa ajuda a promover essa ligação.
Existe uma fantasia muito comum: a de que um bom psicólogo “serve para toda a gente”. Mas a prática clínica real é menos romântica e mais concreta. O terapeuta pode ser competente, ético e experiente, e ainda assim não ser a pessoa certa para aquele momento, para aquele temperamento ou para aquela forma de sofrer. Os estudos sobre a aliança terapêutica entre o cliente e o/a psicólogo/a sugerem que a combinação entre as características do cliente, do terapeuta e das condições do tratamento pode influenciar os resultados.
Isto é especialmente importante porque muita gente entra em terapia com a expectativa de encontrar alguém que adivinhe tudo, tolere tudo e traduza tudo sem esforço. Só que a terapia não é magia, nem é uma relação de conforto automático. É um encontro humano com método, limites e trabalho, e o encaixe faz a diferença.
Nem sempre o problema é “a falta de vontade”. Às vezes a pessoa precisa de mais estrutura do que recebeu. Outras vezes, precisa de menos neutralidade e mais calor. Há quem precise de uma linguagem simples, direta, concreta; há quem precise de mais espaço para processar antes de ser confrontado. A investigação sobre aliança terapêutica mostra que o vínculo não é apenas um detalhe simpático da terapia, mas um componente ligado à mudança clínica, ainda que com variações entre as pessoas e os contextos.
No caso de pessoas autistas, essa questão ganha uma camada extra de cuidado. A relação terapêutica pode ser comprometida não por incapacidade da pessoa, mas por uma leitura clínica apressada, por expectativas normativas e por uma escuta pouco ajustada ao modo específico de comunicar, regular emoções e construir confiança. Ou seja: por vezes, o “não funcionou” quer dizer apenas “não houve tradução suficiente”.
Eu desconfio de discursos que colocam toda a responsabilidade na pessoa em terapia. “Não resultou porque resistiu”, “não avançou porque não quis”, “não criou vínculo porque não colaborou”. Estas frases podem soar técnicas, mas muitas vezes escondem preguiça clínica. O vínculo é relacional, portanto nunca pertence só a um lado. A própria literatura sugere os efeitos recíprocos entre a aliança e os sintomas: a aliança ajuda a melhorar, mas a melhoria também pode fortalecer a aliança. Ao mesmo tempo, também é importante reconhecer os limites da idealização oposta. Nem toda frustração com a terapia significa trauma relacional ou incompetência do profissional. Às vezes há desencontro genuíno, e tudo o que a maturidade clínica pede é nomear isso sem culpa nem dramatização. A ética começa quando deixamos de forçar compatibilidades que não existem.
Talvez a frase mais honesta não seja “nem todos os psicólogos funcionam comigo”, mas “nem todas as relações terapêuticas permitem-me chegar ao ponto certo de mim”. Essa diferença importa. Porque desloca o foco da pessoa como problema e coloca o olhar na qualidade do encontro, na adequação do método e na responsabilidade partilhada do processo.
No fundo, a terapia não é sobre encontrar um profissional perfeito. É sobre encontrar uma forma de trabalho suficientemente humana, suficientemente segura e suficientemente afinada para que a mudança se torne possível. E isso, sim, é uma exigência legítima.
By Jonas Ferreira











