Comecei a reparar que cada vez mais pessoas partilham os comentários de ódio ou as ofensas que recebem nas suas publicações, sobretudo no Instagram, onde passo boa parte do meu tempo. Pergunto-me por que razão fazemos isso e fui procurar respostas na ciência.
Esta questão nasceu da minha experiência como criador de conteúdo e de uma observação que me preocupa. Vejo alguém a publicar uma foto, um texto ou um vídeo e, nos comentários, recebe uma ofensa. Em vez de ignorar, a pessoa tira um print, coloca-o num novo post ou num Reel e expõe a agressão a toda a sua audiência. O que me intriga é que isto já não é uma exceção, mas um padrão.
A primeira explicação que encontrei na ciência tem a ver com a necessidade humana de validação social. Quando somos atacados, sentimos uma dor real. O cérebro interpreta a agressão social de forma semelhante a uma dor física. Ao partilhar o comentário ofensivo, estamos a pedir à nossa rede que confirme que não merecemos aquilo. É um mecanismo de sobrevivência social.
A investigação mostra que a exposição de ataques online cria uma onda de mensagens de apoio. Cada comentário a dizer “não mereces isso” ou “estamos contigo” funciona como um reforço positivo. O sistema de recompensa do cérebro liberta dopamina e oxitocina ao criar uma sensação de pertença e alívio.
A segunda explicação está ligada ao próprio funcionamento das redes sociais. O Instagram é desenhado para maximizar a atenção. Conteúdo que gera emoções fortes, como a indignação ou a raiva, recebe mais visibilidade. Quando alguém partilha um comentário de ódio, está a criar um conteúdo com alto potencial de engagement. Os seguidores veem a ofensa, sentem empatia e interagem. Gostos, comentários, partilhas. O algoritmo entende que o conteúdo é relevante e mostra-o a mais pessoas. Cria-se um ciclo onde a vitimização, mesmo que involuntária, é recompensada com atenção. A atenção é a moeda das redes sociais e nós, como utilizadores, aprendemos rapidamente o que funciona.
A terceira explicação que encontro tem a ver com a necessidade de controlo. Quando somos ofendidos publicamente, sentimos que alguém retirou o controlo da nossa imagem. A narrativa sobre nós foi distorcida por um estranho. Ao partilhar o comentário ofensivo, estamos a tentar recuperar esse controlo.
Estamos a dizer à nossa audiência: “eu não sou isto. Eu sou a pessoa que está a partilhar isto, não a pessoa que o comentário tenta retratar”. É uma forma de recontextualizar a agressão, de a colocar sob a nossa própria moldura. A ciência da comunicação mostra que quem controla o enquadramento controla a perceção.
A última explicação que encontro é mais social e política. Ao expor o comentário de ódio, não estamos apenas a defender-nos. Estamos a denunciar um comportamento que consideramos errado. Estamos a criar um registo público de que a agressão existe e que não deve ser normalizada.
Para muitas pessoas, especialmente para grupos marginalizados, esta partilha é uma forma de ativismo. Mostrar o ódio que recebemos é uma forma de dizer a outras pessoas que passam pelo mesmo que não estão sozinhas. A ciência social fala de “solidariedade digital” como um fenómeno real e poderoso.
A resposta que encontro não é única. É uma combinação de validação pessoal, recompensa algorítmica, necessidade de controlo da narrativa e denúncia social. Nenhum destes motivos é necessariamente errado. Somos seres sociais que procuram proteção, pertença e justiça.
A questão que fica para mim é se este padrão nos está a servir. Se a exposição constante de agressão nos protege ou se nos torna mais vulneráveis. A ciência sugere que ambos podem ser verdade. A dor é aliviada pelo apoio, mas a atenção ao ódio pode normalizá-lo e amplificá-lo.
Enquanto criador de conteúdo e como pessoa autista, esta questão é ainda mais complexa. A minha sensibilidade sensorial e social torna a agressão mais intensa. A minha necessidade de controle da narrativa é maior. E a minha vontade de denúncia é profunda.
Continuo a procurar respostas e a observar os meus próprios comportamentos. Se tu também sentes isto, não estás sozinho. A ciência ajuda-nos a entender, mas cada um de nós tem de encontrar o seu próprio equilíbrio.
By Jonas Ferreira



