
Eu sempre tive um fascínio pelo espaço, pelos mistérios que ainda não conseguimos explicar e pela possibilidade de que, algures lá fora, existam formas de vida completamente diferentes daquela que conhecemos. Este interesse cruza‑se com outra paixão: o cinema, especialmente a ficção científica, que tenta equilibrar a imaginação e a plausibilidade científica. E é nesse cruzamento entre a curiosidade pelo cosmos, pelo que são “alienígenas” e pela forma como o cinema os retrata, que o filme Projeto Hail Mary é um dos meus filmes preferidos.
Trata‑se de um tipo de filme que vai além da simples aventura espacial. É uma história de sobrevivência, de ciência e de cooperação entre espécies com biologias e culturas radicalmente distintas. Mas que exigem precisamente o tipo de rigor científico que cativa quem gosta de pensar “e se?” em vez de simplesmente aceitar clichés. Para alguém com interesse nas ciências, especialmente por astrobiologia e como a vida pode surgir em condições diferentes, este filme funciona como um laboratório visual de ideias sobre o que pode existir no universo, muito para além do que a Terra nos ensinou até hoje. Do ponto de vista neurodivergente que sou, a relação entre Ryland Grace e o seu companheiro lembra‑me também a forma como as mentes e as comunidades diferentes podem, por vezes, parecer completamente inacessíveis. E no entanto, através da paciência, da lógica e de muita tentativa e erro, conseguimos encontrar um modo que nos compreendam.
Do espaço de ficção à ciência: Projeto Hail Mary e a vida além da água
No início de 2026, o filme Projeto Hail Mary (Project Hail Mary) estreou nos cinemas com a assinatura de Phil Lord e Christopher Miller e com Ryan Gosling no papel de Ryland Grace. Um cientista que acorda numa nave espacial a anos‑luz da Terra, sem memória e com a missão de salvar o Sol de uma substância misteriosa. Ao longo do filme, a narrativa joga com a ideia de biologias alienígenas totalmente diferentes das conhecidas na Terra e introduz criaturas e formas de vida baseadas em químicas alternativas que inclui seres que não se alimentam nem se reproduzem como nós. Não quero alongar muito mais para quem não viu e tem curiosidade de ver.
O que impressiona no Projeto Hail Mary é precisamente essa mistura: uma aventura espacial de grande escala combinada com especulações científicas realistas sobre como a vida pode existir em condições extremas. A amizade improvável entre Grace e Rocky serve como uma metáfora: a ciência moderna já começa a encarar a possibilidade de vida extraterrestre, não como uma versão “dobrada” da vida terrestre, mas como algo fundado em químicas diferentes, talvez até sem água como solvente central.
Vida extraterrestre sem água: ficção ou futuro científico?
Os estudos mais recentes mostram que certos líquidos iónicos tais como os sais líquidos formados a partir de ácidos sulfúricos e compostos orgânicos, podem existir em planetas rochosos quentes ou com pressão atmosférica muito baixa. Esses materiais criam ambientes onde os processos metabólicos simples podem ocorrer mesmo sem água líquida. Em vez de se presumir que “vida = água”, os cientistas como Rachana Agrawal (MIT) sugerem uma definição mais ampla: o que interessa é a presença de um líquido capaz de suportar reações químicas complexas e não necessariamente H₂O.
A possibilidade de a vida utilizar solventes alternativos convida-nos a repensar a zona de habitabilidade planetária. Planetas que antes eram considerados “inóspitos”, como Vénus ou certos exoplanetas quentes, poderão afinal ser menos improváveis de albergar vida do que se pensava. E, curiosamente, é aqui que o cinema de ficção científica, como o Projeto Hail Mary, acaba por antecipar o debate científico. Ao imaginar formas de vida que não se baseiam em carbono, oxigénio e água, o filme convida o público a questionar o que é, de facto, “vida” no universo.
Entre o cinema e a astrobiologia
O Projeto Hail Mary funciona como um espelho entre a fantasia e a ciência: enquanto o enredo é claramente ficção, o seu núcleo científico, isto é, os organismos alienígenas, as biologias alternativas e a possibilidade de cooperação entre espécies diferentes, estão cada vez mais alinhados com o que a astrobiologia está a discutir atualmente. A ideia de que a vida pode existir em ambientes sem água como por exemplo, os líquidos exóticos como solventes, é ainda uma hipótese em estudo, mas já é suficientemente sólida para aparecer em artigos científicos e em reportagens de divulgação.
Para quem gosta de pensar sobre a neurodiversidade, a comunicação interespécies e os modos de vida diferentes, o filme recorda‑nos de que “normal” é sempre uma construção social, seja cá na Terra ou algures lá fora no espaço. A forma como Grace e Rocky constroem uma linguagem comum, com base na lógica, na repetição e nos pequenos acertos, é uma espécie de analogia visual para o que tantas vezes acontece entre pessoas neurodivergentes e neurotípicas: a necessidade de criar novos códigos de comunicação, em vez de assumir que existe um único modo “natural” de perceber o outro.
By Jonas Ferreira





