
Na série Machos Alfa (Netflix) que já conta com 5 temporadas e dirigida por Laura Caballero, acompanha um grupo de homens que tenta reconstruir uma versão radicalizada de masculinidade, baseada nos padrões de poder, dominação e de controlo. No meio desse cenário, surge uma personagem masculina que começa a confrontar a sua própria sexualidade quando se vê atraído por outro homem, sem, porém, se identificar claramente como gay ou bissexual. Nesse momento, a personagem usa a expressão “hetero‑flexível” para descrever a sua experiência: alguém que continua, de grosso modo, dentro de uma identidade heterossexual, mas que admite espaço para o desejo ou a curiosidade por pessoas do mesmo sexo.
Do ponto de vista psicológico, esse momento é especialmente rico. A personagem não está a “trocar de equipa” entre heterossexualidade e homossexualidade, mas a atravessar um espaço limiar, onde a experiência sexual não se encaixa facilmente nos rótulos tradicionais. A série mostra, quase por acidente, que a sexualidade humana pode ser mais fluida do que a cultura de identidade rígida costuma admitir. E que sentir atração por alguém que não corresponde à própria identidade romântica principal não é um sinal de confusão, mas uma experiência possível e digna de acolhimento.
Orientação sexual e orientação romântica: dois eixos diferentes
Na psicologia, é cada vez mais comum distinguir entre orientação sexual e orientação romântica. A orientação sexual diz respeito sobretudo àquilo que desperta atração sexual (e às vezes emocional) por determinados géneros ou identidades de géneros, como nos casos de heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade ou pansexualidade. Já a orientação romântica refere‑se à forma como a pessoa se sente afetivamente ligada, isto é, com quem imagina construir vínculos de amor, intimidade, compromisso e apego, independentemente da intensidade do desejo sexual.
Esta distinção é importante porque, na prática, nem sempre aquilo que excita sexualmente coincidirá com aquilo que a pessoa deseja viver romanticamente. Por exemplo, alguém pode sentir desejo sexual por homens e, ao mesmo tempo, sentir-se mais inclinado a construir relações amorosas com mulheres. Do mesmo modo, há pessoas que sentem claramente para quem se apaixonam, ainda que o desejo sexual seja fraco, ausente ou dirigido para outro género. Em contextos de asexualidade, essa diferença entre sexual e romântico é especialmente visível e bem documentada na literatura.
Quando desejo sexual e vínculo romântico não coincidem
Estudos recentes mostram que, embora a orientação sexual e a orientação romântica sejam frequentemente concordantes, não são automaticamente iguais. Em muitos casos, a pessoa sente atração sexual e romântica pelo mesmo género, mas isso não é uma regra universal. Em amostras de pessoas asexuais, por exemplo, a concordância entre atração sexual e romântica é significativamente menor do que em pessoas alossexuais, o que indica que esses dois eixos podem seguir trajetórias distintas.
Este dado é importante para desmistificar a ideia de que, se alguém sente desejo por um género mas se apaixona por outro, isso significa “confusão” ou “falta de clareza”. Pelo contrário, a investigação sugere que o desejo sexual e o vínculo romântico são sistemas relacionais que se influenciam, mas que podem também organizar-se de forma autónoma. Em termos clínicos, isso significa que uma pessoa pode sentir-se atraída sexualmente por homens, mas experienciar atração romântica por mulheres, sem que isso implique patologia, indecisão ou “falta de consequência” na sua identidade.
“Sinto desejo por homens, mas amor por mulheres”: é válido?
Por exemplo, uma pessoa que sente desejo sexual por homens, mas um amor ou uma atração romântica por mulheres, a literatura em psicologia e diversidade sexual apoia que essa experiência é válida e coerente com os atuais modelos contemporâneos de sexualidade. A pessoa pode, por exemplo, descrever‑se como:
• sexualmente bissexual ou pansexual, se sentir desejo por homens e mulheres,
• e romanticamente hetero ou birromântica, se sentir desejo de vínculo afetivo predominantemente com mulheres ou com mais de um género.
Modelos de saúde e de orientação LGBTQIAPN+ enfatizam que a sexualidade humana deve ser compreendida pelo menos em três dimensões:
- atração (sexual e/ou emocional),
- comportamento (com quem a pessoa se relaciona sexual e romanticamente),
- identidade (como a pessoa se nomeia).
Essas dimensões não precisam de coincidir perfeitamente para que a experiência seja autêntica. A cultura, a comunicação social e a educação sexual muitas das vezes reforçam a ideia de que, se alguém sente desejo por homens, deve automaticamente se reconhecer como gay ou bissexual, ou que, ao sentir-se apaixonado por mulheres, deve ser “inteiramente hetero”. A realidade, no entanto, é mais complexa do que parece: a pessoa pode sentir desejo sexual por homens e, ao mesmo tempo, construir relações de amor profundo com mulheres, sem que isso seja contraditório ou menos legítimo.
By Jonas Ferreira


