Desde cedo aprendi que a minha família não era um lugar seguro para eu descobrir quem sou nem onde acabam os meus limites. Em vez da curiosidade e do acolhimento, cresci entre berros, críticas e comentários que me faziam sentir desastrado, preguiçoso, exagerado, sempre “demais” ou “de menos” para aquilo que esperavam de mim. Aos poucos, comecei a duvidar de tudo o que sentia; se eu dizia algo me incomodava e faziam pouco disso, a mensagem que ficava era simples e brutal: o problema sou eu.
Na prática, isto significou que o meu corpo aprendeu a suportar quase tudo em silêncio, porque reclamar só trazia mais conflito ou gozo. A literatura sobre o trauma e o autismo mostra que ambientes familiares críticos, imprevisíveis e pouco sensíveis às necessidades da criança aumentam o risco de baixa autoestima, dificuldade em reconhecer emoções e maior vulnerabilidade a relações abusivas mais tarde, sobretudo quando há neurodivergência não reconhecida. Quando olho para trás, vejo precisamente isso: um miúdo autista, sem diagnóstico, a tentar sobreviver num contexto manipulador, onde o amor vinha muitas vezes condicionado à obediência e à capacidade de agradar.
Também sei que houve manipulação subtil, aquela que não deixa nódoas negras, mas corrói por dentro: frases que distorciam a realidade, culpas que não eram minhas, exigências para eu “mudar de atitude” sem que ninguém parasse para tentar compreender a minha forma diferente de ser. Sempre que eu colocava um limite, vinham comentários do género “estás a fazer drama”, “és egoísta”, “pensas que és especial” e que a ciência descreve como formas de invalidação emocional e gaslighting, associadas a um maior risco de sintomas depressivos, ansiedade e dificuldade em confiar na própria percepção. Assim, em vez de aprender que limite é proteção, aprendi que limite é sinónimo de conflito, rejeição e culpa.
Quando finalmente descobri o autismo, a esperança era de que, ao explicar, a família pudesse recuar e olhar para mim com mais respeito e empatia. Em vez disso, vieram perguntas desconfiadas, comparações com “outros autistas” e um tom de descrédito que me fez desligar por dentro, como se a revelação da minha identidade tivesse sido apenas mais um dado a ser questionado. Estudos com adultos autistas mostram que esta falta de validação familiar após o diagnóstico agrava o sentimento de solidão, reforça a camuflagem e dificulta ainda mais a definição de limites, porque a mensagem implícita continua a ser “não acreditamos em ti”. Nesses momentos, sinto com clareza que a disfuncionalidade não é minha; é de um sistema familiar que prefere manter a narrativa antiga a reconhecer o impacto que tudo isto teve na minha vida.
Hoje, ao revisitar estas memórias, percebo como uma família disfuncional e manipuladora moldou a minha dificuldade em reconhecer limites, em dizer não, em confiar nos meus sinais internos. A ciência ajuda‑me a compreender que não foi “fraqueza” nem “drama”, mas uma resposta de adaptação de anos de invalidação, trauma complexo e camuflagem constante, algo que os estudos descrevem sobre os autistas adultos que viveram abuso emocional e negligência. Saber isto não apaga o passado, mas dá‑me linguagem para o nomear e, pouco a pouco, começar a construir uma nova referência interna: a de que a minha experiência é real, os meus limites são legítimos e eu não tenho de continuar a sacrificar‑me para sustentar a ilusão de uma família que nunca soube, ou nunca quis, realmente ver‑me.
Lidar com isto, para mim, tem sido aceitar que a dor é real, que não fui “sensível demais” nem “dramático”, mas uma pessoa autista exposta durante anos a invalidação e trauma relacional. A partir daí, o que faço não é tentar consertar a minha família, mas cuidar das feridas que ficaram comigo e aprender a construir, passo a passo, uma vida em que os meus limites contam.
Uma das coisas que mais me tem ajudado é reconhecer que muito do que sinto hoje é resposta ao trauma e não falha de carácter. Estudos com adultos autistas mostram que experiências repetidas de rejeição, críticas e abuso estão ligadas a sintomas de stress pós‑traumático, vergonha intensa e crenças como “não pertenço”, “há algo de errado comigo”, exatamente o que tantas vezes ressoa na minha mente. Procurar por intervenção psicológica sobre neurodivergencia e trauma, dá‑me um espaço seguro para organizar memórias, validar emoções e aprender estratégias concretas para lidar com disparadores, em vez de continuar a culpabilizar‑me.
A ciência mostra que a auto‑compaixão é um fator terapêutico importante no trauma complexo, e que ajuda a reduzir a rigidez com que falamos connosco próprios e a regular as emoções difíceis. Em vez de repetir a voz da minha família (“és fraco”, “és exagerado”), treino frases internas como “fiz o melhor que pude naquele contexto”, “não tive os pais de que precisava”, “o que sinto faz sentido”, alinhadas com abordagens de terapia focada na compaixão que têm mostrado benefício em adultos autistas marcados por vergonha e crítica crónica. Não resolve tudo de um dia para o outro, confesso, mas diminui a violência interna e abre espaço para cuidar de mim com mais respeito do que aquele que recebi.
Outra estratégia é aceitar que não preciso continuar a expor‑me aos mesmos padrões familiares para provar que “já ultrapassei” o passado. A literatura sobre trauma e relações familiares sugere que, em contextos onde a invalidação se mantém, é necessário reduzir contacto, escolher interações mais breves ou estritamente funcionais e evitar conversas que sei que poder ser gaslighting e que pode ser uma forma legítima de proteção, não de falta de perdão. Para mim, isto significa decidir quanto tempo fico em encontros de família, o que estou disposto a partilhar, e permitir‑me sair ou desligar quando sinto o corpo a entrar em alerta.
Os estudos sobre auto‑advocacia e autodeterminação em adultos autistas mostram que desenvolver voz própria, capacidade de dizer “isto não é bom para mim” e de tomar decisões alinhadas com os próprios valores está associado a melhor bem‑estar e qualidade de vida. Na prática, faço isto quando escolho amigos e contextos onde posso ser autista sem pedir desculpa, quando partilho a minha história com pessoas que realmente escutam, e quando digo “não” , mesmo a tremer e recordo me de que o meu limite não é menos válido pela minha família sem nunca o ter respeitado. Cada vez que exerço esta auto‑advocacia, por mais pequena que pareça, afasto‑me um pouco do guião antigo de criança invalidada e aproximo‑me da ideia de adulto que decide, com autonomia, como quer ser tratado.
By Jonas Ferreira