Sempre ouvi dizer que os autistas têm dificuldades na comunicação e na interação social. No entanto, à medida que cresço e tenho contacto com a comunidade autista, percebo claramente que esta noção parte de uma visão limitada e estatística: a maioria neurotípica define o que é “normal” e, por consequência, categoriza como “deficiente” tudo o que diverge do seu padrão (Milton, 2012). Mas ser diferente da maioria não significa ter um problema. Se a sociedade fosse predominantemente autista, seria provavelmente o neurotípico a ser visto como “difícil de comunicar” (Voz do Autista, 2023).
A teoria da dupla empatia, proposta por Damian Milton (2012), sugere precisamente isto: as dificuldades na comunicação surgem da incompatibilidade entre diferentes estilos: autistas e neurotípicos. A investigação contemporânea demonstra que autistas comunicam-se tão bem entre si como os neurotípicos o fazem entre si; a dificuldade aparece apenas quando estilos distintos cruzam-se, o que por sua vez ambos ficam “em défice” perante o outro porque não partilham o mesmo código cultural, emocional e sensorial (Crompton et al., 2020; Morrison et al., 2019).
Existem estilos de comunicação diferentes.
Uns são mais diretos, outros dependem de inferências sociais subtis. Os autistas tendem a comunicar de forma mais explícita, enquanto os neurotípicos interpretam as nuances contextualizadas. Presumir que há dificuldade no autista quando o neurotípico também revela incapacidade de compreender o outro é ignorar a bidirecionalidade da relação (Davis & Crompton, 2021; Voz do Autista, 2024).
Eu não posso aceitar que existe um défice generalizado na comunicação autista. Existe sim uma incompatibilidade intergrupal, alimentada pelo preconceito estatístico e não por uma falha real. A comunicação autista é válida e funcional, e só se torna alvo de exclusão porque a sociedade é desenhada por e para a maioria. Se queremos inclusão verdadeira, precisamos de reconhecer que todos têm limitações na comunicação e que depende do interlocutor (Milton, 2012; Voz do Autista, 2023).
By Jonas Ferreira