A ideia de que é preciso sofrer para trabalhar

Em Portugal, continua muito enraizada a crença de que trabalhar bem exige sacrifício, desgaste e resistência quase heroica. Não basta fazer o trabalho com competência. Parece ser preciso provar valor através do cansaço, da disponibilidade total e da capacidade de suportar pressão sem reclamar. Esta lógica transforma o esforço numa espécie de moral e o sofrimento num selo de autenticidade profissional.

Esta ideia não surge do nada. Ela encaixa numa cultura laboral que durante décadas valorizou a obediência, a contenção e a resistência como sinais de carácter. O problema é que essa visão confunde dedicação com autoexploração. Quando alguém acredita que só trabalha a sério se sair exausto, passa a normalizar ritmos de trabalho pouco saudáveis e a desvalorizar o descanso, os limites e a proteção da saúde mental.

A investigação sobre os riscos psicossociais mostra que o ritmo de trabalho, as exigências cognitivas e as exigências emocionais podem ser fatores de risco severo para os trabalhadores da administração pública em Portugal. No estudo promovido pela DGAEP com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses, estes fatores surgem associados a fadiga mental, stress e desgaste psicológico. Isto mostra que o problema não é apenas individual, mas estrutural.

A literatura em psicologia organizacional também tem sido clara ao mostrar que a pressão constante, a falta de pausas e a cultura de disponibilidade permanente aumentam o risco de burnout, ansiedade e diminuição do bem estar. Trabalhar mais horas não significa automaticamente produzir melhor. Muitas vezes, significa apenas acumular exaustão, cometer mais erros e perder capacidade de concentração e decisão.

Quando o sacrifício se torna norma, o trabalhador começa a medir o seu valor pelo quanto suporta. Responder fora de horas passa a ser sinal de empenho. Ficar até tarde deixa de ser exceção e passa a ser esperado. Recusar a sobrecarga vira falta de espírito de equipa. Esta lógica é dura para os jovens profissionais, os bolseiros, os investigadores e estudantes no início de carreira, porque lhes transmite a ideia de que só serão aceites se aceitarem tudo.

Esta mentalidade tem também um efeito social. Faz com que a precariedade pareça virtuosa e a exaustão pareça nobre. Em vez de se discutir organização do trabalho, recursos, liderança e justiça, discute-se resistência individual. Assim, o problema deixa de ser a estrutura e passa a ser a atitude da pessoa. Isso é injusto e cientificamente pobre.
Do ponto de vista psicológico, a crença de que é preciso sofrer para trabalhar tem um custo alto. Ela favorece a culpa quando a pessoa descansa, a vergonha quando estabelece limites e o medo quando recusa pedidos excessivos. Com o tempo, isto pode alimentar sintomas depressivos, problemas de sono e perda de motivação, todos eles associados a riscos psicossociais já identificados nos estudos sobre o trabalho em Portugal.
Também cria uma relação distorcida com a identidade profissional. A pessoa deixa de se perguntar se o trabalho faz sentido, se é sustentável ou se respeita os seus próprios valores. Em vez disso, pergunta apenas se está a aguentar mais do que os outros. Essa comparação é um terreno fértil para o desgaste, para a competição improdutiva e para a silenciosa desistência emocional.

Mudar esta cultura não significa defender a preguiça nem a desvalorização do esforço. Significa reconhecer que o trabalho humano tem limites, e que a qualidade depende tanto da competência como das condições. Uma organização saudável não recompensa a autoaniquilação. Recompensa a clareza, a autonomia, o respeito, a previsibilidade e a capacidade real de produzir sem adoecer.

Em Portugal, esta mudança é urgente porque a produtividade do trabalho continua a ser um tema estrutural e a pressão sobre os trabalhadores não resolve, por si só, o problema da eficiência. Na prática, insistir no sacrifício constante pode até esconder fragilidades organizacionais, má gestão e falta de investimento nos processos mais inteligentes. Trabalhar melhor não é trabalhar até cair. É trabalhar com condições para pensar, decidir e sustentar o esforço ao longo do tempo.

A crença de que é preciso sofrer para trabalhar parece moralmente forte, mas é intelectualmente frágil. A ciência mostra que o excesso de esforço e a pressão contínua prejudicam o bem estar, aumentam o risco psicológico e não garantem melhor desempenho. Por isso, talvez esteja na altura de trocar a linguagem do sacrifício pela linguagem da dignidade.

Trabalhar não devia exigir sofrimento como prova de valor. Devia exigir competência, limites e respeito. E quando uma cultura profissional não consegue aceitar isto, o problema não está na geração mais sensível ou nos trabalhadores que recusam a exaustão. O problema está na própria ideia de trabalho que se normalizou.

By Jonas Ferreira

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