O futuro com a Inteligência Artificial (IA) não será tão promissor quanto muitos proclamam, especialmente à luz das declarações de Reed Hastings, cofundador da Netflix, que alerta para uma saturação nas ciências exatas e um necessário regresso às humanidades e competências emocionais, as chamadas soft skills.
Deixem-me contextualizar-vos com uma breve história da humanidade. A nossa adaptabilidade biológica sempre foi a nossa maior força, mas, como muitos dizem por aí, a IA ameaça desequilibrar essa entropia ao automatizar tarefas cognitivas precisas e que deixam-nos vulneráveis nas dimensões sociais e emocionais que a tecnologia não replica tão facilmente.
A história da humanidade é marcada por revoluções tecnológicas que alteraram o curso das sociedades, mas que criam desigualdades e crises de adaptação. Desde a Revolução Agrícola há cerca de 12 mil anos, o sedentarismo ganhou força mas criou-se hierarquias rígidas que originou fome em massa durante falhas de colheita (Diamond, 1997) e pela Revolução Industrial no século XVIII, que multiplicou a produção mas levou a exploração laboral e a urbanização caótica (Hobsbawm, 1999). O escritor Harari (2014) na sua obra Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, argumenta que o Homo sapiens dominou o planeta não pela força física superior, mas pela capacidade de cooperação e de criar mitos em larga escala. Uma adaptabilidade cultural que a IA ignora. Hastings demonstra exatamente isto, ao prever a saturação na áreas da programação, da medicina e da engenharia. Áreas onde a IA já supera humanos com precisão e podemos ver nos modelos como o GPT-4 em tarefas de codificação (OpenAI, 2023).
A nossa adaptabilidade reside na plasticidade neural e na evolução darwiniana, moldada por pressões ambientais ao longo de milénios. A teoria da evolução por seleção natural de Darwin (1859) na sua obra “On the Origin of Species” explica como o cérebro humano, com o córtex pré-frontal expandido, evoluiu para lidar com as incertezas sociais complexas e não com cálculos exatos. Estudos como os de Changeux (1985) em Neuronal Man, mostraram que a plasticidade sináptica permite adaptações rápidas a novidades, mas requer interações sociais ricas. Tal como Hastings sugere, se uma criança muito pequena for orientada sobretudo para tarefas muito estruturadas, desempenho, produtividade ou competências “de adulto” demasiado cedo, pode perder oportunidades importantes de desenvolver outras capacidades essenciais do desenvolvimento humano. Boyd e Richerson (1985) em Culture and the Evolutionary Process destacam que a “adaptação cultural cumulativa” superou as mudanças genéticas lentas e permitiu-nos colonizar todos os ecossistemas; no entanto, a IA acelera as mudanças tecnológicas além do nosso ritmo biológico ao permitir criar uma “desadaptação” onde perdemos competências a favor dos sistemas opacos.
A visão otimista da IA como “o grande equilíbrio” ignora precedentes históricos de deslocamento laboral e de desigualdade. No Manifesto Comunista, Marx e Engels (1848) previram que as máquinas alienariam o trabalhador da sua essência criativa, ao demonstrar temores atuais de “ desemprego tecnológico” (Keynes, 1930). No entanto, Winner (1986) alerta que os artefatos não são neutros: a IA, treinada em dados enviesados, amplifica as discriminações raciais e de género, como temos presenciado em algoritmos de recrutamento da Amazon (Dastin, 2018). Mas nas suas mais recentes declarações, Hastings prevê um “regresso às humanidades”, isto é, a história, a literatura, a fisiologia cerebral e as interações sociais. A IA já tem vindo a dominar as ciências exatas, mas falha na empatia e sobretudo na ética, conforme o framework de Asimov (1942), que expõe estes limites filosóficos. Estudos na ética da inteligência artificial, como Floridi et al. (2018) enfatizam, sem uma governação, a IA erode na autonomia humana, e transforma-nos em meros supervisores das máquinas.
Sem este equilíbrio, o futuro com a IA pode repetir erros históricos, como o colapso das sociedades maias por sobre-exploração ambiental (Diamond, 2005) mas agora por dependência tecnológica.
A nossa biologia adapta-se via resiliência emocional e redes sociais, traços selecionados evolutivamente (Dunbar, 1996) que a IA não possui. Ela simula, mas não sente. Por isso digo que Hastings acerta ao continuarmos a defender as competências emocionais. Os estudos em psicologia evolutiva mostram que a inteligência emocional prevê melhor sucesso do que o QI nas ciências sociais (Goleman, 1995).
Ainda assim, o desafio é híbrido. Ao usar a IA para amplificar as humanidades e não substituí-las irá, em certa parte, permitir uma melhor prevenção à nossa adaptabilidade como espécie.
Referências:
Boyd, R., & Richerson, P. J. (1985). Culture and the Evolutionary Process. University of Chicago Press.
Darwin, C. (1859). On the Origin of Species. John Murray.
Diamond, J. (1997). Guns, Germs, and Steel. W.W. Norton.
Floridi, L. et al. (2018). “AI4People—An Ethical Framework”. Minds and Machines.
Goleman, D. (1995). Emotional Intelligence. Bantam Books.
Harari, Y. N. (2014). Sapiens. Companhia das Letras.


