Amar como um autista

Há uma parte de mim que sabe exatamente o que quer dizer, mas há outra que tropeça no momento em que é preciso dizer. Não porque eu não tenha palavras. Não porque eu não sinta com intensidade. Mas porque, sendo autista, a minha comunicação tende a ser mais direta, mais literal e menos treinada para este jogo subtil de sinais, insinuações e “climas” que tantas pessoas parecem dominar sem esforço.

Quando gosto de alguém, isso não me simplifica a comunicação, complica-a. A presença do interesse aumenta a consciência de tudo. Do que eu digo, do que eu não digo, do que pode soar demasiado frontal, do que talvez devesse ter sido dito com mais leveza. E, ao mesmo tempo, a ansiedade cresce. O que para as outras pessoas pode ser uma pequena conversa de aproximação, para mim pode transformar-se num campo minado de interpretação, hesitação e medo de falhar.

Uma das dificuldades mais frustrantes que tenho é precisamente esta sensação de saber a teoria e falhar na prática. Posso compreender como as relações se constroem, posso ler sobre a reciprocidade, a intimidade, a comunicação e o vínculo, mas, no momento real, a experiência é outra. A literatura mostra que muitos autistas desejam relações românticas tanto quanto os seus pares não autistas, mas enfrentam mais dificuldades na iniciação e na manutenção dessas mesmas relações, sobretudo quando a comunicação social é tratada como algo automático, quando na verdade não o é.

Durante muito tempo, fizeram-nos acreditar que o problema estava apenas em nós. Hoje, a investigação sugere uma visão mais justa: o chamado double empathy problem. Este nome pomposo mostra que muitas falhas de compreensão são bidirecionais, que emerge da diferença entre formas de perceber, interpretar e responder ao mundo social. Em vez de pensar “eu comunico mal”, talvez seja mais exato dizer: “eu comunico de forma diferente, num contexto que nem sempre as pessoas sabem receber essa diferença”.

Ainda assim, saber isto não elimina a angústia. Porque a teoria ajuda-me a compreender, mas não me protege do desconforto de estar interessado em alguém e sentir que falta-me a gramática relacional que aproxima as pessoas sem esforço aparente. Fico preso entre o desejo de ser autêntico e o medo de ser “demasiado direto”, “demasiado intenso” ou “demasiado eu”. E essa tensão pode ser muito pesada, porque o que está em jogo não é apenas uma conversa: é a possibilidade de ser visto, de ser aceite e de ser compreendido.

Talvez uma parte importante do meu caminho seja esta. Compreender que criar um vínculo não exige encenar alguém que não sou. Exige, sim, encontrar formas mais seguras e mais claras de me aproximar, sem tentar imitar uma espontaneidade que não me pertence. Estudos sobre as relações românticas em pessoas autistas aponta precisamente para o valor da comunicação explícita, do apoio do outro e do reconhecimento das necessidades específicas de cada pessoa. Ou seja, eu não preciso de me tornar menos autista para amar melhor. Preciso, sim, de aprender a comunicar com mais suporte, mais intenção e menos autocrítica.

E talvez seja isso que me angustia mais. A distância entre o que sinto e a forma como consigo mostrar e não tanto o sentimento em si. Entre a intensidade interna e a expressão externa. Entre a vontade de aproximar-me e o receio de não saber construir esse primeiro clima. Mas a verdade é que uma relação não começa só com frases perfeitas. Começa também com honestidade, com tempo e com a coragem de existir sem nenhuma máscara, mesmo quando a prática ainda deixa muito a desejar.

By Jonas Ferreira


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