Wicked: O poder das decisões difíceis

Há histórias que não envelhecem porque nunca foram, verdadeiramente, sobre o seu tempo. Wicked é uma delas. À superfície, é uma reinterpretação do universo de Oz. Em detalhe, é uma dissecação das estruturas de poder, da construção do inimigo e do preço psicológico de escolher entre pertencer e ser íntegro.

Com Wicked: For Good, essa tensão atinge um novo patamar. Não estamos apenas perante a história de uma “bruxa má” e de uma “boa”. Estamos perante duas trajetórias humanas que se afastam lentamente, não por falta de afeto, mas por decisões morais incompatíveis num sistema que não permite neutralidade.

O mundo de Oz, tal como o nosso, organiza-se através de narrativas dominantes. O Feiticeiro não governa apenas com autoridade formal; governa com controlo simbólico. A linguagem, a propaganda e a criação de ameaças externas são os seus principais instrumentos.

Elphaba não nasce vilã. Ela torna-se necessária como vilã.

Este processo é profundamente contemporâneo. Vemos hoje, nos múltiplos contextos geopolíticos, a criação deliberada de “outros”: grupos, povos ou indivíduos que são simplificados, desumanizados e transformados em símbolos de perigo. A complexidade desaparece, substituída por uma narrativa funcional ao poder.
A pergunta que Wicked levanta não é “quem é o vilão?”, mas sim: quem ganha com a existência de um vilão?

Elphaba é, desde o início, marcada pela diferença. A sua pele verde não é apenas uma característica física. É um marcador social. Ela é o corpo estranho, o elemento que não encaixa, o erro visível.

Mas a alienação mais profunda não é social, é existencial.

Ela percebe cedo que o sistema está corrompido. E essa consciência isola-a ainda mais. Não é apenas diferente; é alguém que vê aquilo que os outros preferem não ver.

Glinda, por outro lado, representa uma forma mais subtil de alienação. A alienação por conformidade. Ela adapta-se, internaliza as regras, aprende a performar aquilo que é esperado. É recompensada por isso.

Aqui reside uma tensão psicológica essencial. A escolha entre a autenticidade e a pertença.

Quantas vezes, na atualidade, vemos este mesmo dilema? Nos contextos políticos, académicos, mediáticos… Há um custo real em dizer o que se vê quando isso desafia estruturas estabelecidas. E há uma recompensa igualmente real quem alinha com o discurso dominante, mesmo quando este é eticamente questionável.

Reduzir Glinda a uma superficialidade seria um erro. Ela não é apenas “a que escolhe o lado fácil”. Ela é alguém que compreende, talvez melhor do que Elphaba, como o poder funciona.

E é precisamente por isso que a sua escolha é tão desconfortável.

Glinda escolhe ficar. Escolhe operar dentro do sistema. Escolhe acreditar ou pelo menos agir como se acreditasse que pode fazer o bem sem o confrontar diretamente.

Elphaba escolhe sair. Escolhe resistir. Escolhe a verdade, mesmo quando essa escolha implica perder tudo: o estatuto, a segurança, a relação.

Nenhuma das escolhas é limpa.

Nenhuma é totalmente redentora.

Este é um dos aspetos mais maduros de Wicked. A recusa da fantasia moral de que há sempre uma opção correta sem um custo. Pelo contrário, mostra que toda a decisão ética significativa implica perda.

A narrativa entre as duas personagens é, no fundo, uma narrativa de luto.

O luto pela amizade que não sobrevive às escolhas.

O luto pela versão de si mesmas que já não podem ser.

O luto pela ilusão de que era possível “ficar tudo bem”.

Este tipo de luto é profundamente reconhecível na atualidade. Vivemos num momento histórico marcado pela polarização, onde posicionamentos éticos e políticos estão cada vez mais ligados à identidade. As relações fragmentam-se não por falta de afeto, mas por incompatibilidades fundamentais de valores.

E há um cansaço crescente associado a isso. O cansaço de ter de escolher constantemente.

Se olharmos para o mundo atual, encontramos semelhanças com Oz.

Governos que controlam narrativas.

As redes sociais que amplificam ou silenciam vozes conforme interesses.

Grupos transformados em ameaças para consolidar poder.

Indivíduos confrontados com a escolha entre a segurança e a verdade.

E, talvez o mais inquietante, encontramos também a facilidade com que essas histórias são aceites. Tal como em Oz, a maioria não questiona profundamente. A narrativa oficial é confortável. Questioná-la exige energia, risco e, muitas vezes, solidão.

Elphaba representa esse risco.

Glinda representa essa adaptação.

Ambas existem em cada um de nós.

O que Wicked me deixa não é uma resposta, mas um desconforto.

Em que momentos sou a Glinda?

Em que momentos sou a Elphaba?

E, mais difícil ainda, em que momentos escolho não ver para não ter de decidir?

Talvez o ponto mais honesto seja este. Nem sempre temos a coragem de ser a Elphaba, e nem sempre temos a lucidez estratégica da Glinda.

Oscilamos. Negociamos. Cedemos.

Mas a história lembra-nos de algo essencial. Cada escolha, por mais pequena que pareça, contribui para a manutenção ou a transformação das estruturas em que vivemos.

E isso torna-nos inevitavelmente participantes, nunca apenas espectadores.

No fim, Wicked não é sobre magia.

É sobre responsabilidade.

By Jonas Ferreira

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