SuperBowl LX: Bad Bunny

Confesso que houve ali qualquer coisa naquele intervalo que me prendeu de uma forma diferente. O Bad Bunny subiu ao palco e, durante uns minutos, o maior show americano do mundo pareceu falar uma língua diferente: o espanhol.

Foi um momento com muito mais peso do que parece à primeira vista. Não era só sobre música, era sobre identidade, política e poder. Ver um artista porto-riquenho a comandar o centro daquele palco, a cantar em espanhol e a misturar estilos latinos, foi um murro simbólico no sistema cultural americano. Foi como se alguém dissesse, em rede nacional: “Olhem, o mundo mudou. Nós estamos aqui e sempre estivemos.”

O mais curioso é perceber como os Estados Unidos e digo, um país construído por imigrantes, ainda têm tanta dificuldade em lidar com a sua própria diversidade. É um país que fala de liberdade e oportunidades, mas que continua a erguer muros e a fechar fronteiras a quem procura exactamente isso: uma oportunidade. E ver o Bad Bunny ali, no palco do Super Bowl, lembrou-me que existem outras formas de existir e resistir.

Ele representa muito do que é a nova América, onde o espanhol já é a segunda língua mais falada e faz parte do dia-a-dia de milhões de pessoas. Está nas escolas, nas ruas, nas músicas. É a língua da avó que toma conta dos netos enquanto os pais trabalham, das crianças que crescem entre dois mundos, dos trabalhadores que sustentam grande parte da economia invisível do país.

O Bad Bunny conquistou este espaço não só por mérito artístico, mas porque dá voz a uma geração que já não pede licença para ocupar lugar. E, ao fazê-lo, mostra que o poder real não está nas marcas que patrocinam o jogo, nem nos bilhetes milionários. Está nas pessoas comuns, nas comunidades que resistem, que se apoiam e constroem cultura todos os dias sem holofotes.

Enquanto via o concerto, pensei: o sistema político continua a discutir “quem pertence” e “quem não pertence”, mas nas ruas, nas músicas e nas conversas do dia-a-dia, essa pergunta já está ultrapassada. O futuro é multicultural, bilingue e misturado. O que vimos no Super Bowl 60 foi isso mesmo.

E é aqui que entra a parte mais polémica: a reacção do Trump. Pouco depois do concerto, ele foi às redes sociais dele, o Truth Social, criticar o espectáculo de forma agressiva. Chamou ao concerto “absolutamente terrível, um dos piores de sempre”, disse que era “um murro na cara do país” e que “ninguém percebe uma palavra do que este tipo está a dizer”, atacando directamente o facto de a actuação ser em espanhol e criticando também a coreografia como “nojenta”, especialmente para as crianças que estariam a ver.

Esta reacção não é neutra nem inocente. Quando o presidente de um país diz que “ninguém percebe uma palavra” porque alguém está a cantar em espanhol, não está apenas a dar uma opinião sobre música. Está a reforçar a ideia de que só o inglês é legítimo, só uma cultura é válida e tudo o resto é “ameaça” ou “falta de respeito”. Isso entra em choque com a realidade de milhões de latinos que crescem a falar duas línguas, a viver entre duas culturas e que são, quer ele queira quer não, parte central do tecido social e económico dos EUA.

A polémica à volta do concerto não apareceu do nada. Já antes, quando o Bad Bunny foi anunciado como artista principal do intervalo, várias figuras conservadoras, incluindo o próprio Trump, tinham criticado a escolha, chamando-a de “ridícula” e dizendo que ele não representava os “verdadeiros valores americanos”. Chegou a falar-se em reforço da presença de serviços de imigração (como o ICE) em torno do evento, como se o Super Bowl fosse, de repente, um espaço para caçar imigrantes em situação irregular.

Ao mesmo tempo, o Bad Bunny já tinha feito declarações públicas contra as políticas de imigração e contra a forma como o governo tratou Porto Rico depois do furacão Maria, e usou outras actuações, como em prémios internacionais, para mandar recados directos contra o ICE e a favor das pessoas migrantes. Ou seja, o conflito não é só sobre música. É um choque entre duas visões de país: uma fechada, com medo do “outro”, e outra que assume que o país já é, e sempre foi, feito de “outros”.

Quando o Trump chama ao espectáculo “um murro na cara do nosso país” e diz que aquilo não representa os “nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência”, está, na prática, a dizer que o que é latino, misturado, bilingue, não pode ser considerado “América verdadeira”. Mas a ironia é brutal: sem imigrantes, sem latinos, sem trabalhadores vindos de fora, a América que ele diz defender simplesmente não existiria tal como a conhecemos.

A reacção das pessoas nas redes foi um contraste interessante. Enquanto ele despejava críticas, muita gente defendia o concerto como uma celebração da cultura latina e da diversidade, e transformava o próprio ataque dele em combustível para reforçar a ideia de que aquela actuação era necessária, precisamente por incomodar quem queria um país congelado num passado que já não existe.

A verdade é que o capital compra espaços, mas não cria sentido. As marcas pagam milhões para ter o logótipo ali, naquele intervalo, mas não são elas que ficam na memória colectiva. O que fica é a sensação de se ver representado, de ouvir a própria língua, de perceber que há espaço para mais do que uma forma de ser “americano”. O espectáculo foi bom, sim, mas o que mais me marcou foi o que ele simbolizou: uma América que se olha ao espelho e começa, finalmente, a reconhecer rostos que antes ignorava.

E talvez essa seja a grande questão: o verdadeiro poder não está no presidente a escrever um post inflamado, nem nas empresas que controlam o jogo, mas nas pessoas que continuam a existir, a falar, a dançar e a resistir, independentemente de quem está no poder. O poder de transformar não nasce do dinheiro nem das grandes corporações. Nasce da comunidade, da voz colectiva, das culturas que se juntam e criam novas formas de estar no mundo. E enquanto houver gente a cantar, dançar e sonhar em espanhol, em inglês ou em qualquer outra língua, isso significa que o poder nunca vai estar completamente concentrado no topo. Vai continuar vivo entre as pessoas.

By Jonas Ferreira


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