As emoções negativas, como tristeza, raiva, medo e ansiedade, são partes integrantes da experiência humana. No entanto, observa-se uma tendência generalizada na nossa sociedade de negar, suprimir ou avaliar negativamente essas emoções. Este fenómeno, conhecido como “aversão à experiência” (Hayes et al., 2012), tem implicações significativas para o bem-estar psicológico e para a saúde mental.
Ao longo da minha vida, experimentei diversas situações onde essa tendência ficou evidente. Lembro-me claramente de um período particularmente stressante no trabalho, quando fui designado para liderar um projeto importante. A pressão era intensa, e comecei a sentir uma ansiedade crescente. A minha reação inicial foi tentar suprimir esses sentimentos, dizendo a mim mesmo que um bom líder não deveria se sentir ansioso. Tentei ignorar o nó no estômago e as noites mal dormidas, convencendo-me de que estava tudo sob controlo.
Estudos recentes na área da psicologia têm demonstrado que a supressão ou a negação de emoções negativas pode ter consequências contraproducentes. Gross e John (2003) constataram que indivíduos que habitualmente suprimem as suas emoções experimentam menos emoções positivas e mais emoções negativas ao longo do tempo, além de apresentarem menor bem-estar e satisfação com a vida. A minha experiência pessoal corrobora essas descobertas. Quanto mais eu tentava negar a minha ansiedade, mais ela parecia crescer, afetando o meu desempenho e o relacionamentos no trabalho.
A teoria da aceitação e compromisso (ACT) propõe que a tentativa de controlar ou eliminar experiências internas indesejadas pode, paradoxalmente, aumentar o sofrimento psicológico (Hayes et al., 2006). Este fenómeno, conhecido como “evitação experiencial”, está associado a diversos problemas de saúde mental, incluindo ansiedade e depressão. Vivenciei isso de perto quando, após meses tentando reprimir a minha ansiedade, comecei a experimentar sintomas de esgotamento e depressão leve.
Foi nesse momento que decidi procurar ajuda e comecei a explorar práticas de mindfulness. A aceitação das emoções, conforme proposto por Kabat-Zinn (2003), mostrou-se uma alternativa mais eficaz. Ao reconhecer e aceitar as emoções negativas como parte natural da experiência humana, paradoxalmente, senti-me mais capaz de lidar com elas de forma construtiva. Comecei a praticar meditação diariamente e a reconhecer a minha ansiedade sem julgamento. Surpreendentemente, esse ato de aceitação começou a diminuir a intensidade da minha ansiedade.
A tendência de negar ou avaliar negativamente as emoções desagradáveis parece estar enraizada na nossa cultura, que frequentemente valoriza a felicidade e o otimismo em detrimento de uma gama mais ampla de experiências emocionais. Cresci num ambiente onde frases como “homem não chora” e “seja forte” eram comuns, o que certamente contribuiu para minha dificuldade inicial em aceitar emoções negativas.
Como argumenta Kashdan et al. (2015), a flexibilidade psicológica – a capacidade de estar presente com todas as emoções e adaptar-se a diferentes situações – é um componente crucial da saúde mental. À medida que desenvolvi essa flexibilidade, notei uma melhora significativa não apenas no meu bem-estar emocional, mas também no meu desempenho profissional. Fui capaz de liderar a minha equipa de forma mais autêntica, reconhecendo abertamente os desafios e incertezas do projeto, o que, surpreendentemente, aumentou a confiança e a coesão da equipe.
A meu caminho pessoal e profissional ensinou-me que é fundamental reconhecer o valor adaptativo das emoções negativas e desenvolver uma relação mais equilibrada com toda a gama de experiências emocionais. Isso não apenas nos permite viver de forma mais autêntica, mas também promove maior saúde mental e bem-estar psicológico. Hoje, vejo as minhas emoções negativas não como inimigas a serem combatidas, mas como partes importantes da minha experiência humana, fornecendo informações valiosas e oportunidades de crescimento.
By Jonas Ferreira



