“Sempre fui assim e não há nada a fazer”. Era o que eu pensava quando queria emagrecer. Tentava tudo e não conseguia. Contudo, ao iniciar a licenciatura em psicologia, comecei a perceber e a discutir que essa mentalidade era um obstáculo ao meu progresso. Hoje, no mestrado em psicologia clínica e da saúde e ao explorar as teorias e modelos cognitivo-comportamentais, compreendo a profundidade dos meus processos cognitivos e a influência das minhas crenças nucleares e secundárias sobre o meu comportamento alimentar.
O falecimento da minha mãe foi um ponto de viragem na minha vida. A sua partida libertou-me das amarras invisíveis que, até então, me impediam de fazer escolhas autênticas. Foi nesse momento que comecei a perceber a complexidade da minha relação com a comida. “Se soubesse antes o que sei agora, talvez tivesse poupado muito tempo e sofrimento”, dizia eu. Mas também, a vida é um processo de aprendizagem contínua, e cada etapa tem o seu valor.
A minha compulsão alimentar era um reflexo de necessidades emocionais por satisfazer. A comida tornou-se um substituto para confortos que eu não encontrava noutras áreas da minha vida. Segundo a teoria da vinculação, desenvolvida por John Bowlby, os padrões de vinculação na infância influenciam as relações emocionais na vida adulta, incluindo a relação com a comida. A relação com a minha mãe, marcada por altos e baixos emocionais, contribuiu para a procura incessante de conforto através da alimentação.
Foi importante reconhecer que o meu comportamento alimentar compulsivo não era apenas uma questão de falta de controlo ou força de vontade. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), conforme descrita por Aaron Beck, ajudou-me a identificar e a desafiar pensamentos disfuncionais que sustentavam o meu comportamento alimentar desordenado. Por exemplo, a crença de que “a comida é o meu único consolo” precisava de ser reestruturada para abrir espaço para novas formas de autocuidado.
Além disso, a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), desenvolvida por Steven Hayes, enfatiza a importância de aceitar pensamentos e sentimentos desconfortáveis em vez de tentar eliminá-los. Aprendi a aceitar os meus impulsos alimentares sem ceder automaticamente a eles e criei um espaço entre o impulso e a ação. Este distanciamento permitiu mudar a minha relação com a comida.
Esta mudança também envolveu uma reavaliação dos significados atribuídos à alimentação. Em vez de ver a comida como uma recompensa ou um consolo, comecei a vê-la como uma fonte de nutrição e energia. Esta mudança cognitiva é referida através da Psicologia Positiva, que se foca no desenvolvimento de virtudes e forças pessoais. Encontrei novas formas de gratidão e prazer em atividades que promoviam o meu bem-estar físico e emocional, como a prática de exercícios físicos e o cultivo de passatempos criativos, como a escrita.
Finalmente, a autocompaixão, conforme descrita por Kristin Neff, tornou-se uma ferramenta poderosa no meu percurso. Ao tratar-me com a mesma gentileza e compreensão que ofereceria a um amigo, reduzi a autocrítica e criei um ambiente interno mais favorável à mudança. Um dia falo-vos do meu alter-ego, que nada mais é do que a minha autocompaixão personificada.
Hoje, compreendo que a jornada para um corpo no qual me identifico não é apenas uma questão de perda de peso, mas de transformação integral. A mudança na minha relação com a comida foi apenas um aspeto de um processo maior de autoconhecimento e autodescoberta. A psicologia ofereceu-me as ferramentas para entender e modificar os meus padrões e permitir viver de uma forma mais autêntica e alinhada com os meus valores.
É importante salientar que o processo de mudança não termina quando queremos e que é necessário adaptarmos a cada novo desafio. O corpo é um instrumento em constante ritmo, que não pára, e é preciso alimentá-lo e mantê-lo conforme desejamos.
O professor Mudança, como podemos chamar-lhe, ensina-nos que a transformação é contínua. Tal como aprendemos com as teorias psicológicas e as terapias mencionadas, cada etapa da vida traz consigo novos desafios e oportunidades de crescimento. O caminho para um corpo no qual nos identificamos não é um destino final, mas sim um percurso em constante evolução.
É fundamental compreender que o nosso corpo está sempre em movimento, em constante mudança fisiológica e metabólica. Não é uma entidade estática, mas sim um sistema dinâmico que requer cuidados e atenção constantes. Alimentá-lo adequadamente e mantê-lo como desejamos exige um compromisso diário e uma consciência permanente das nossas escolhas e hábitos.
Para sustentar este processo de transformação e manutenção, é essencial ir à procura de conhecimento atualizado, novas experiências e o apoio de profissionais qualificados. A psicologia ofereceu-me ferramentas valiosas, mas o campo está sempre a evoluir, com novas descobertas e abordagens a surgir regularmente.
Procurar a orientação de nutricionistas, personal trainers, psicólogos e outros especialistas pode fornecer-nos perspetivas valiosas e estratégias personalizadas para lidar com os desafios específicos que enfrentamos. Além disso, estar aberto a novas experiências, como diferentes formas de exercício ou técnicas de mindfulness, pode ajudar-nos a manter o entusiasmo e o compromisso com o nosso bem-estar.
Podemos concluir que, a lição do professor Mudança é clara: o processo de transformação e autoconhecimento é um caminho contínuo. Devemos permanecer curiosos, adaptáveis e proativos na procura do nosso bem-estar físico e emocional e reconhecer que cada desafio é uma oportunidade para aprender e crescer.
By Jonas Ferreira