Hoje tive um insight fascinante sobre mim mesmo e sobre o desenvolvimento humano em geral. Descobri que a minha hipersensibilidade, uma característica que sempre considerei simplesmente parte da minha personalidade, pode ter origens muito mais profundas e antigas do que eu imaginava – possivelmente até antes do meu nascimento!
Aparentemente, o útero não é apenas um lugar seguro onde os bebés crescem, mas um ambiente dinâmico que pode moldar significativamente quem nos tornamos. É incrível pensar que as experiências da minha mãe durante a gravidez – o seu nível de stress, a sua dieta, até mesmo as suas emoções – podem ter influenciado a minha sensibilidade emocional e sensorial.
Aprendi sobre o conceito de ‘programação fetal’, com os especialistas e meus professores Dr. Tiago Miguel Pinto e Dr. Diogo Lamela, ambos investigadores do grupo HEI-LAB ao qual eu também faço parte como investigador Júnior. Eles e outros autores, sugerem que o nosso ambiente no útero pode definir certos aspectos do nosso desenvolvimento futuro. Isso fez-me refletir sobre como somos, de certa forma, produto não apenas de nossa infância, mas também de nossa vida pré-natal.
Estudos sugerem que o ambiente intrauterino pode influenciar a sensibilidade do sistema nervoso central e a reatividade emocional do indivíduo ao longo da vida. Um estudo conduzido por Weinstock (2008) demonstrou que o stress materno durante a gestação pode alterar o desenvolvimento do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) do feto, o que resulta numa maior reatividade ao stress e uma tendência à hipersensibilidade emocional na prole. Além disso, a exposição pré-natal a níveis elevados de cortisol materno foi associada a alterações na estrutura e função da amígdala e do córtex pré-frontal, áreas cerebrais cruciais para o processamento emocional e a regulação do stress (Buss et al., 2012).
A hipersensibilidade sensorial, outro aspecto comum da hipersensibilidade, também pode ter origens no ambiente pré-natal. O desenvolvimento dos sistemas sensoriais começa no útero, e a exposição a diferentes estímulos durante este período pode influenciar a futura sensibilidade sensorial. Um estudo de Keunen et al. (2017) mostrou que a exposição a níveis elevados de ruído durante a gestação pode afetar o desenvolvimento do sistema auditivo fetal e levar a uma maior sensibilidade auditiva mais tarde na vida. Da mesma forma, alterações no ambiente hormonal intrauterino, particularmente nos níveis de serotonina, podem influenciar o desenvolvimento dos sistemas sensoriais e a subsequente sensibilidade a estímulos táteis, visuais e auditivos (Oberlander, 2012). Essas descobertas sugerem que a hipersensibilidade, tanto emocional quanto sensorial, pode ser parcialmente programada durante o desenvolvimento fetal e os autores destacam a importância do ambiente pré-natal na formação da sensibilidade individual.
Também é particularmente interessante descobrir sobre o papel dos neurotransmissores, como a serotonina, no desenvolvimento cerebral fetal. Pensar que os níveis desses químicos durante a gestação podem afetar a minha capacidade de regular emoções e o stress dá-me uma nova perspectiva sobre minhas experiências diárias.
O conceito de epigenética também me fascinou. A ideia de que experiências ambientais podem influenciar a expressão dos nossos genes e afetar a nossa personalidade. É algo que nunca tinha considerado antes.
Apesar de todas essas influências precoces, aprendi que o desenvolvimento continua ao longo da vida. Isso dá-me um senso de propósito – embora a minha hipersensibilidade possa ter origens profundas, ainda tenho o poder de transformar como ela manifesta-se na minha vida.
O mais importante é que esta aprendizagem ajudou-me a olhar para a minha hipersensibilidade sob uma nova luz. Em vez de vê-la como uma fraqueza ou um problema a ser superado, agora a entendo como uma parte complexa e única de quem eu sou, com potenciais pontos fortes, como maior empatia e criatividade.
Este conhecimento inspirou-me a explorar mais sobre mim mesmo e a procurar maneiras de aproveitar ao máximo minha sensibilidade. Sinto-me empoderado para procurar apoio quando necessário e para cultivar os aspectos positivos deste traço.
No final, esta exploração deixou-me com um profundo sentimento de admiração pela complexidade do desenvolvimento humano e um renovado senso de autoaceitação. A minha hipersensibilidade não é apenas um traço aleatório, mas uma parte intrínseca de quem eu sou. É sobretudo uma transformação por uma fascinante interação de biologia e ambiente desde os primeiros momentos da minha existência.
By Jonas Ferreira