A procura constante de validação

Durante grande parte da minha vida, eu fui uma pessoa que vivia para agradar aos outros. Era como se eu não tivesse uma identidade própria, apenas um reflexo das expectativas alheias. O meu medo de dizer “não” era paralisante, e a simples ideia de desagradar a alguém causava-me uma ansiedade avassaladora. Eu vivia num constante estado de alerta, a imaginar que qualquer desobediência ou discordância resultaria numa punição, rejeição ou perda.

O desejo humano de agradar a todos, mesmo com o risco de ser enganado ou manipulado, é um fenómeno fascinante que tem intrigado psicólogos e sociólogos por décadas. Este comportamento, profundamente enraizado na nossa mente, é o resultado de uma complexa interação de fatores evolutivos, psicológicos e sociais.

Durante a minha infância, cresci num ambiente onde o amor e a aceitação pareciam condicionais, baseados no meu “bom comportamento”. Inconscientemente, desenvolvi a crença de que o meu valor como pessoa estava diretamente ligado à minha capacidade de agradar e obedecer.

Do ponto de vista neurobiológico, este padrão de comportamento está ligado à ativação excessiva da amígdala. É a parte do cérebro responsável pelo processamento do medo e das emoções. O Dr. Joseph LeDoux, neurocientista,, explica no seu livro “O Cérebro Emocional” que as experiências de medo intenso, especialmente na infância, podem criar circuitos neurais que perpetuam respostas de ansiedade mesmo em situações não ameaçadoras.

Além disso, o meu córtex pré-frontal, responsável pelo raciocínio e tomada de decisões, parecia estar em constante conflito com essas respostas emocionais intensas. O Dr. Daniel Siegel, psiquiatra e autor de “A Mente em Desenvolvimento”, destaca também como esse desequilíbrio pode levar a padrões de pensamento e comportamento mal-adaptativos.

A minha procura incessante por aprovação também afetava os meus níveis de cortisol, a tal hormona do stress. O Dr. Robert Sapolsky, no seu livro “Por Que as Zebras Não Têm Úlceras”, explica como a exposição crónica ao stress pode alterar a função do eixo hipotálamo-pituitária-adrenal e resultar a uma série de problemas de saúde física e mental.

Foi apenas quando comecei a licenciatura em psicologia, é que comecei a explorar mais sobre conceitos evolutivos, psicológicos e sociais, a minha história e os meus padrões. E sobretudo compreender as raízes destes comportamentos.

Aprendi sobre o conceito de codependência, definido pela Dra. Melody Beattie como um padrão comportamental em que uma pessoa coloca as necessidades dos outros acima das suas próprias, muitas vezes em detrimento de si mesma.

A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby e Mary Ainsworth, também lançou luz sobre como os meus primeiros relacionamentos influenciaram a minha tendência de procurar aprovação constante. Compreendi que o meu estilo de apego ansioso estava diretamente ligado ao meu medo de abandono e rejeição.

A nossa necessidade fundamental de pertença, tal como proposto por Abraham Maslow na sua hierarquia de necessidades (Maslow, 1943), é um dos principais motores desse comportamento. Evoluímos como seres sociais, e a nossa sobrevivência histórica dependia fortemente da aceitação do grupo. Como observou o antropólogo Robin Dunbar, “Somos, no fundo dos nossos corações, criaturas tribais” (Dunbar, 2010).

Esta necessidade de pertença está intrinsecamente ligada ao medo da rejeição. O neurocientista Matthew Lieberman argumenta no seu livro “Social: Why Our Brains Are Wired to Connect” que “o cérebro trata a rejeição social como dor física” (Lieberman, 2013). Isto explica por que muitas pessoas preferem sujeitar-se a situações potencialmente prejudiciais a arriscar a rejeição social.

O viés de confirmação social e a conformidade também desempenham papeis muito importantes. As experiências clássicas de Solomon Asch sobre conformidade (Asch, 1951) demonstraram que as pessoas conformam-se frequentemente com o grupo, mesmo quando sabem que o grupo está errado. Por exemplo, numa das suas experiências 37% dos participantes concordaram com a resposta claramente incorreta do grupo pelo menos um terço das vezes.

O condicionamento social desde a infância reforça esse comportamento. Como observou o psicólogo B.F. Skinner, “O comportamento é modelado e mantido pelas suas consequências” (Skinner, 1953). Desde cedo, somos recompensados por agradar aos outros e assim estabelece-se um padrão comportamental duradouro.

A teoria da troca social, proposta por George Homans (1958), oferece outra perspectiva. Segundo esta teoria, vemos as interações sociais como transações onde procuramos maximizar benefícios e minimizar custos. Um exemplo do quotidiano é quando fazemos favores e esperamos reciprocidade futura, mesmo que isso coloque-nos numa posição vulnerável.

O viés de otimismo, identificado por Neil Weinstein (1980), leva-nos a subestimar a probabilidade de resultados negativos. Isto pode explicar por que muitas pessoas caem em esquemas fraudulentos e acreditam que “isso não aconteceria comigo”.

O efeito halo, descrito por Edward Thorndike (1920), faz-nos atribuir características positivas a pessoas que nos agradam nalgum aspecto. Isso faz com que os torne mais suscetíveis à sua influência noutros aspectos. Por exemplo, podemos confiar cegamente num político carismático e ignoramos as suas falhas noutras áreas.

A reciprocidade, um princípio psicológico poderoso estudado por Robert Cialdini (2006), faz-nos sentir obrigados a retribuir favores, mesmo que não solicitados. Isso explica por que as amostras grátis são uma tática de marketing tão eficaz.

Mas foi através da terapia cognitivo-comportamental que comecei a desafiar as minhas crenças limitantes e a reconhecer os meus padrões de pensamento distorcidos. A Dra. Judith Beck, no seu livro “Terapia Cognitiva: Teoria e Prática”, descreve como podemos identificar e modificar esses padrões de pensamento para promover mudanças comportamentais positivas.

Gradualmente, aprendi a estabelecer limites saudáveis, a valorizar as minhas próprias necessidades e a entender que dizer “não” não significava ser uma pessoa má ou digna de punição. Foi um processo longo e muitas vezes doloroso, mas cada pequeno passo em direção à autoafirmação foi uma vitória.

Hoje, embora ainda lute ocasionalmente com a necessidade de agradar, tenho uma compreensão muito mais profunda de mim mesmo e das forças que moldaram o meu comportamento. A psicologia não apenas ofereceu explicações para o fenómeno que eu vivia, mas também deu-me ferramentas para transformá-lo.

Este meu caminho de auto-descoberta e cura ensinou-me que é possível quebrar padrões profundamente enraizados e construir uma vida baseada na autenticidade e respeito próprio. A minha esperança é que, ao partilhar a minha experiência também possa ajudar outros que se encontram presos em ciclos similares de procura por aprovação e medo de rejeição.

Na minha experiência pessoal como estudante e futuro psicólogo, observei como estes fatores manifestam-se em diversos contextos sociais. Por exemplo, num trabalho sobre dinâmicas de grupo em ambientes empresariais, notei como os funcionários frequentemente conformavam-se com práticas antiéticas para “não levantar ondas”, mesmo quando isso ia contra os seus princípios pessoais.

É importante reconhecer que, embora estes mecanismos tenham evoluído para promover a coesão social e a sobrevivência do grupo, eles podem tornar-nos vulneráveis à manipulação no mundo moderno. Como observou o psicólogo Daniel Goleman, “A autoconscientalizaçao é o primeiro componente da inteligência emocional” (Goleman, 1995). Portanto, compreender estes mecanismos é o primeiro passo para desenvolver resistência a manipulações indesejadas e cultivar relações mais autênticas e saudáveis.

By Jonas Ferreira

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