Estatuto, Universidade e Autismo

É muito difícil pedir e obter adaptações no ensino superior em Portugal, especialmente quando o custo de vida está cada vez mais elevado e o preço das consultas necessárias para obter relatórios médicos, como neuropsicologia e psiquiatria, ultrapassa frequentemente as possibilidades de muitos estudantes. Falar sobre este tema é falar da experiência de ser estudante universitário e neurodivergente num sistema que, infelizmente, ainda está muito longe de garantir condições de equidade e acessibilidade reais.

A cada semestre, o pesadelo começa com a necessidade de entregar relatórios médicos para justificar pedidos de adaptações. É como se cada pedido tivesse de ser “provado” e legitimado. Não basta viver com a condição, é preciso conseguir pagar consultas caras para obter papéis que muitas vezes são exigidos em formato específico, e que nem todos os médicos estão dispostos a redigir.

Existem neuropsicólogos que cobram entre 60€ e 170€ só para a realização de avaliações e emissão de relatórios. As consultas de psiquiatria superam facilmente os 70€, sem contar com o acompanhamento regular. Tudo isto é somado ao custo das propinas universitárias, que em Portugal representam, para muitas famílias, um verdadeiro esforço mensal.

Muitos estudantes deixam de pedir adaptações simplesmente porque não têm como pagar pelas consultas e pela burocracia envolvida. Para muitos, conseguir pagar as propinas já é um sacrifício enorme, quanto mais investir nestas despesas extra apenas para tentar garantir direitos básicos. Os ambientes universitários, geralmente, não estão preparados para receber estudantes com necessidades especiais. A falta de sensibilidade e flexibilidade institucional: as barreiras são tanto físicas como sociais, e os estudantes acabam por sentir-se excluídos e desgastados.

A literatura científica confirma que as dificuldades de adaptação académica são agravadas pela ausência de medidas inclusivas na universidade, e que o acesso aos serviços de apoio para estudantes com necessidades especiais é frequentemente insuficiente. Um estudo publicado na PubMed (Torres-Patiño et al., 2021) identificou como as principais barreiras, o custo financeiro e a falta de apoio institucional, especialmente entre os estudantes de origens socioeconómicas mais desfavorecidos. Outro estudo destaca que, mesmo que haja leis e estatutos favoráveis à inclusão, o sistema não está preparado para responder de forma realmente inclusiva e perpetua obstáculos à permanência destes estudantes na universidade.

Refletindo sobre esta realidade, sinto que sobreviver na universidade enquanto neurodivergente em Portugal é um exercício constante de resistência, onde o acesso à educação inclusiva depende de quanto consigo pagar em papéis, consultas, relatórios e burocracia. E, muitas vezes, o preço não é apenas monetário, mas também emocional.


Referências científicas usadas:

Torres-Patiño, IC et al. (2021). Barriers to access and permanence at the university: a point of view from students.

Garcia, J et al. (2017). Estudos sobre a Deficiência no Ensino Superior.

Oliveira, RQ et al. (2016). A Inclusão de Pessoas com Necessidades Especiais no Ensino Superior.

Silva Regis, M da et al. (2022). O cenário do ensino superior na área da saúde para pessoas com deficiência.


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