Ontem à noite, enquanto scrollava no meu feed do Instagram deparei-me com um vídeo que mexeu comigo. Era sobre relacionamentos agámicos. Confesso que fiquei ali, a ler os comentários e a tentar perceber aquele universo tão diferente do meu.
Foi engraçado compreender nos comentários, como cada pessoa tinha uma história única pra contar. Tinha pessoas a comemorar ter encontrado um nome pra algo que já sentia, outros questionavam se era isso que estavam a viver sem saber, e claro, também tinha aqueles que, como eu, estavam ali mais por curiosidade.
Os relacionamentos agámicos (do grego “a” – ausência e “gamos” – casamento/união) representam uma tendência contemporânea que reflete mudanças significativas na forma como as pessoas, especialmente os jovens, encaram os vínculos afetivos.
Sob uma perspectiva sociológica, este fenómeno está intrinsecamente ligado a diversos fatores da sociedade atual:
Sobrecarga emocional
- O ritmo acelerado da vida moderna
- Pressões profissionais intensas
- Demandas constantes por performance em várias esferas da vida
Individualização
- Maior foco no desenvolvimento pessoal
- Procura por independência emocional e financeira
- Prioridades nos objetivos individuais
Questões geracionais
- Observação dos relacionamentos desgastantes das gerações anteriores
- Mudança nos valores tradicionalmente associados aos relacionamentos
- Novo entendimento sobre realização pessoal
A investigadora Bella DePaulo, da Universidade da Califórnia, tem estudado extensivamente o fenómeno da “vida single” e argumenta que existe uma crescente valorização da autonomia pessoal entre os jovens adultos. No seu trabalho “Singled Out” (2006), ela destaca como muitas pessoas encontram satisfação genuína e vivem sem parcerias românticas.
Estudos recentes da psicóloga Kristin Neff sobre autocompaixão também dialogam com esta tendência, mostrando como o autoconhecimento e o autocuidado têm se tornado prioritários para muitos jovens antes de se envolverem em relacionamentos.
Vale notar que o estilo de vida agámico não significa necessariamente isolamento social ou rejeição completa de ligações afetivas. Muitas pessoas que optam por este caminho mantêm relações próximas com amigos e família, apenas escolhem não se envolver em relacionamentos românticos tradicionais.
Esta é uma tendência que reflete transformações sociais profundas e merece ser compreendida sem julgamentos e reconhecer que diferentes pessoas podem encontrar realização em diferentes formas de viver as suas vidas afetivas.
Como pessoa e profissional que observa estas mudanças sociais, acredito que seja importante respeitar estas escolhas individuais e entender que elas fazem parte de um processo maior de transformação nas formas como nos relacionamos e encontramos satisfação pessoal.
Sabe aqueles momentos que te fazem refletir sobre como as gerações mudam? Fiquei a pensar na minha avó, que casou com 18 anos e esteve com meu avô até morrer. Na minha mãe, que já apanhou uma época diferente, com mais escolhas. E agora, a nossa geração tem tantas possibilidades, tantas formas de se relacionar (ou escolher não se relacionar), que às vezes até dá uma vertigem.
Mesmo não me identificando com essa escolha- confesso que adoro este “caos” bom que é dividir a vida com alguém – achei fascinante como cada vez mais pessoas estão a permitir-se viver fora dos padrões tradicionais. É como se cada geração quebrasse um pouco mais as regras do jogo, sabe?
E olha que curioso: quanto mais leio sobre isto, mais percebo que não é sobre estar contra o amor ou os relacionamentos. É mais sobre as pessoas que estão a dizer “Hey, tá tudo bem escolher um caminho diferente”. Tem algo de corajoso nisso, não acham?
Em suma, acho que é isso que as redes sociais têm de melhor: mostrar que existem mil e uma maneiras de ser feliz neste mundo. Às vezes, basta um vídeo aleatório no meio da noite para ampliar a nossa visão do mundo um pouco mais.
E fico a pensar: que outras tendências, que outras formas de viver e amar ainda vamos descobrir? O mundo não pára de nos surpreender, não é?
By Jonas Ferreira