Falar sobre a minha sexualidade é, para mim, um exercício de vulnerabilidade e de honestidade. Durante anos, vivi num silêncio confuso, a tentar perceber porque não sentia o mesmo desejo sexual como os outros. Só mais tarde, ao descobrir o conceito de assexualidade, consegui dar um nome ao que sempre me acompanhou: nunca senti necessidade de envolvimento sexual mas sempre procurei envolvimento, afeto e proximidade. Lembro-me de crescer a pensar que havia algo de errado comigo, porque via os meus colegas a falar sobre paixões e desejos físicos, enquanto eu apenas sonhava com cumplicidade, conversas longas e uma presença segura ao meu lado.
A minha adolescência foi marcada por um episódio que nunca esqueci: interessei-me (fiquei quase obsecado) por uma rapariga e, quando finalmente tentei aproximar-me, fui rejeitado. Aquilo deixou-me ainda mais inseguro e, sem compreender e sem saber explicar o que sentia, fechei-me em mim próprio. Algum tempo depois, desenvolvi um afeto romântico por um rapaz que me despertou novamente interesse, mas voltei a tropeçar na mesma barreira: queria estar perto, mas não conseguia demonstrar. Ele por outro lado, demonstrava proximidade, interesse direto, a pronunciar frases que queria beijar-me e toques suaves. Mas para mim, era como se houvesse uma parede invisível entre o que sentia e o que conseguia exprimir. Queria dizer-lhe o quanto estava afim, mas não conseguia. Só anos mais tarde, com o diagnóstico de autismo, percebi que esta dificuldade em expressar emoções — a alexitimia — fazia parte de mim desde sempre. Não era desinteresse, era incapacidade de traduzir sentimentos em palavras ou gestos.
Com o tempo, fui reparando que me sentia mais confortável a criar laços com rapazes, e percebo que isso resulta não só da minha orientação, mas também do contexto cultural em que cresci. Na cultura de género ocidental, há uma predominância clara de normas que moldam a forma como os rapazes e as raparigas comunicam e se relacionam. Os rapazes, influenciados por modelos de masculinidade hegemónica, tendem a ser mais diretos, explícitos e frontais na expressão das suas intenções e emoções. Esta característica é reforçada por séculos de construção social, como analisam autores como Beauvoir e Butler, e pode ser observada em múltiplos exemplos da literatura, do cinema e até do quotidiano, onde o masculino é associado à assertividade e à objetividade.
Por outro lado, as raparigas, segundo estas mesmas normas culturais, são frequentemente incentivadas a comunicar de forma mais indireta, subtil e relacional, utilizando gestos, olhares, nuances e códigos sociais menos explícitos. Esta diferença é desempenhada e reforçada desde a infância, através da família, da escola, da TV e de todo o sistema simbólico que, como refere Bourdieu, legitima e reproduz a distinção entre os géneros e os seus papéis sociais. Para alguém como eu, que tem dificuldades em decifrar pistas sociais e sinais não-verbais, estas diferenças tornam-se determinantes: a comunicação direta dos homens é mais acessível e previsível, enquanto a comunicação indireta das raparigas deixa-me inseguro, com receio de falhar ou de ser mal interpretado.
Sempre me comportei de acordo com o que era esperado, seguindo as normas e os papéis que a sociedade impunha. Nunca questionei muito, simplesmente encaixava-me no que era suposto ser, dizer e sentir. Mas quando comecei a interessar-me pelo carinho e atenção do tal rapaz, tudo ficou confuso. Senti-me completamente perdido, sem saber o que fazer ou como interagir. Chorava por tudo e por nada, porque não sabia lidar com a intensidade daquele sentimento, nem com a dúvida constante sobre o que era “certo” ou “errado” sentir. Era como se estivesse a viver algo para o qual ninguém me tinha preparado, sem referências nem orientação, apenas com o peso das expectativas e o medo de falhar.
É importante sublinhar que esta norma não é universal. Cada sociedade tem a sua própria cultura de género, com expectativas, códigos e formas de comunicação distintas, que variam no tempo e no espaço. O que descrevo reflete a experiência predominante no contexto onde vivo, mas há culturas onde as dinâmicas de género manifestam-se de forma diferente, e onde outras formas de expressão e relação são valorizadas ou permitidas. Além disso, movimentos sociais contemporâneos e as vozes feministas têm vindo a questionar e desconstruir estes papéis tradicionais, propondo novas formas de ser e de comunicar que rompem com o conservadorismo e a heteronormatividade predominantes.
Assim, a minha experiência pessoal não pode ser dissociada deste contexto cultural. O facto de me sentir mais seguro nas relações com rapazes não resulta apenas de uma preferência individual, mas também de uma adaptação às normas e pistas sociais que me rodeiam. A neurodiversidade e a neurodivergencia de pensamento percepciona uma realidade diferente da predominância neurotipica. Não quero isto dizer que sou homo romântico ou bi romântico no espectro da minha orientação assexual. Apenas quero transmitir que reconhecer esta influência ajuda-me a perceber que a diversidade de género e de expressão é muito mais ampla do que aquilo que a norma dominante sugere, e que cada pessoa, em cada sociedade, constrói o seu caminho a partir das possibilidades e limites que a cultura lhe oferece.
Hoje, olho para trás e percebo que a minha sexualidade não é apenas ausência de desejo sexual, mas também o reflexo de uma vida marcada pelo autismo, pela alexitimia e pelas normas culturais que me rodeiam. O diagnóstico ajudou-me a entender porque tantas vezes senti-me desajustado, a comunicação emocional tão difícil e mesmo a desejar proximidade, acabava por me afastar. Ainda estou a aprender a aceitar-me, a dar valor às minhas formas de amar e de me envolver com os outros, mesmo que não correspondam ao que a sociedade espera. E, acima de tudo, continuo a procurar relações autênticas, onde possa ser eu próprio, sem máscaras e sem medo de não corresponder aos padrões.
As primeiras luzes da manhã atravessavam as janelas do meu quarto e iluminava um mundo em transformação. Cresci no Porto, naquele território onde a história industrial entrelaça-se com sonhos de mudança e que cada rua conta uma história de resistência e reinvenção. Desde criança, fui um observador atento às metamorfoses sociais que aconteciam bem debaixo dos nossos olhos, transformações tão profundas quanto silenciosas.
Lembro-me perfeitamente das tardes no café da esquina, onde as pessoas mais velhas que frequentavam o cafe contavam-me histórias de mulheres que conheceram. Mulheres reduzidas a papéis estreitos, limitadas por expectativas sociais rígidas como uma camisa-de-força invisível. Mas eu via algo diferente a emergir – uma geração que não pedia permissão, que simplesmente existia em toda a sua complexidade, desafiava fronteiras e ressignificava identidades.
A ciência confirmava o que eu observava. Um estudo longitudinal publicado no Journal of Gender Studies por Costa et al. (2021) revelou transformações fundamentais nas dinâmicas de género em Portugal. Segundo a investigação, houve uma mudança significativa nos padrões de participação social e profissional das mulheres, com um aumento de 37,5% na representatividade feminina nos setores tradicionalmente masculinos (Costa et al., 2021).
A educação foi o primeiro grande campo de batalha desta revolução silenciosa. No Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), as raparigas começavam a ocupar salas de aula antes dominadas exclusivamente por homens. Um estudo de Araújo e Tavares (2022) na Revista Portuguesa de Educação demonstrou que a representatividade feminina nos cursos STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) aumentou consideravelmente nas últimas duas décadas, passando de 22,3% para 46,7% (Araújo & Tavares, 2022).
O mercado de trabalho em Portugal transformou-se num verdadeiro laboratório de possibilidades. Silva et al. (2020), num estudo publicado no Portuguese Journal of Social Science, identificaram mudanças estruturais significativas: a participação feminina em cargos de liderança cresceu 42,6% entre 2010 e 2020 ao desafiar historicamente hierarquias de género enraizadas (Silva et al., 2020).
A neurociência veio adicionar camadas de complexidade à nossa compreensão dessas transformações. Oliveira e Rodrigues (2019), no International Journal of Neuroscience, demonstraram algo verdadeiramente revolucionário: as capacidades cerebrais não conhecem género. A plasticidade neural revelava-se como uma metáfora perfeita para a transformação social – a capacidade de adaptação, de reinvenção constante (Oliveira & Rodrigues, 2019).
Os relacionamentos também passaram por uma metamorfose radical. Martins e Ferreira (2022), num estudo publicado na Análise Social, identificaram mudanças fundamentais: 63,4% das mulheres entre 25-35 anos passaram a dar importância ao desenvolvimento pessoal sobre construções matrimoniais tradicionais; houve também um aumento de 48,2% nos relacionamentos baseados em paridade (Martins & Ferreira, 2022).
Mas essa transformação não era linear nem uniforme. Santos (2021), na Revista Crítica de Ciências Sociais, lembrou-nos da importância da interseccionalidade – como a classe, a etnia e a origem familiar entrelaçam-se na construção de identidades complexas. Cada experiência era única, cada trajetória individual representava um universo de possibilidades (Santos, 2021).
Como observador nato dessa transformação, aprendi que a verdadeira revolução não acontece em manifestações grandiosas, mas em escolhas quotidianas. Cada decisão de não aceitar narrativas limitadoras, cada sonho perseguido, cada espaço ocupado representava um ato de ressignificação.
O género, entendo eu, não é um destino fixo, mas um caminho de descoberta, desconstrução e reinvenção constante. O machismo não morreu simplesmente – está a ser sistematicamente desmantelado, rua a rua, escolha a escolha, no coração desta cidade invicta.
By Jonas Ferreira
Referências
Araújo, E., & Tavares, M. (2022). Género e representatividade em cursos STEM: Uma análise longitudinal. Revista Portuguesa de Educação, 35(2), 145-167.
Costa, R., Ferreira, A., & Santos, L. (2021). Transformações de género no mercado de trabalho português. Journal of Gender Studies, 30(4), 412-435.
Martins, J., & Ferreira, S. (2022). Novas dinâmicas relacionais: Género, autonomia e escolha pessoal. Análise Social, 57(243), 276-299.
Oliveira, R., & Rodrigues, M. (2019). Neuroplasticidade e género: Desafiando paradigmas tradicionais. International Journal of Neuroscience, 129(6), 543-562.
Santos, P. (2021). Interseccionalidade e identidades contemporâneas. Revista Crítica de Ciências Sociais, 124, 87-112.
Silva, A., Pereira, M., & Lima, R. (2020). Liderança e representatividade de género em Portugal. Portuguese Journal of Social Science, 19(3), 301-322.
Com o Dia Internacional da Visibilidade Transgénero a aproximar-se – data assinalada a 31 de março em Portugal – sinto a necessidade de partilhar uma história que marcou profundamente a minha compreensão sobre identidade, resiliência e humanidade.
Conheci o Gabriel e a Marina num workshop de arte inclusiva, e as suas histórias mudaram completamente a minha perspetiva sobre identidade, resiliência e aceitação. Ambos eram pessoas extraordinárias que carregavam consigo uma força que ia muito além do que eu poderia imaginar, especialmente considerando a minha própria hipersensibilidade sensorial que tantas vezes me paralisava.
O Gabriel, um rapaz trans de 24 anos, trabalhava como ilustrador e ativista. Os seus olhos brilhavam quando falava sobre arte e representatividade. Ele contou-me sobre a sua transição, um processo complexo que envolve muito mais do que mudanças físicas – foi um caminho de autodescoberta e autoaceitação. Cientificamente, sabemos que a identidade de género tem raízes profundas na neurobiologia. Estudos recentes em neurociência, como artigos publicados no Journal of Neuroscience, indicam diferenças na estrutura cerebral que podem estar relacionadas à identidade de género, sugerindo que ser transgénero não é uma escolha, mas uma característica fundamental do ser.
A Marina, uma jovem trans de 22 anos, era estudante de biologia molecular. A sua inteligência era deslumbrante, e a sua capacidade de transformar desafios em oportunidades de crescimento deixava-me admirado. Ela partilhou histórias de preconceito que enfrentava diariamente – desde olhares hostis até situações de discriminação aberta em ambientes académicos e sociais.
O que mais me impressionou foi a resiliência deles. Enquanto eu debatia-me com a minha hipersensibilidade sensorial, ao sentir-me muitas vezes limitado por estímulos externos, o Gabriel e a Marina demonstravam uma força quase sobre-humana. Pensava eu, “Como é possível, depois de tanta descriminação e sofrimento, continuarem sorridentes”. Eles não apenas sobreviviam, mas prosperavam, transformando desafios em combustível para mudança.
Estudos científicos destacam os desafios únicos enfrentados pela comunidade trans. Um estudo publicado na The Lancet Psychiatry revelou que indivíduos trans experimentam níveis significativamente mais altos de stresse minoritário – um tipo de stresse crónico experimentado por membros de grupos marginalizados. No entanto, essa mesma investigação destaca a incrível resiliência dessa comunidade.
A Marina explicou-me sobre a complexidade da transição de género. Não era simplesmente uma mudança física, mas um processo profundamente pessoal de alinhamento entre identidade interna e expressão externa. O Gabriel complementou ao falar sobre os desafios médicos e sociais, mas também sobre a alegria de finalmente sentir-se verdadeiramente si mesmo.
A hipersensibilidade que às vezes paralisava-me parecia pequena diante da força deles. Enquanto eu escondia-me de estímulos sensoriais, eles enfrentavam diariamente desafios muito maiores – preconceitos estruturais, violência psicológica, desafios de aceitação familiar e social. E ainda assim, sorriam, produziam, amavam, resistiam.
Não os via como vítimas, mas como guerreiros. A sua coragem não diminuía a de outros grupos LGBTQIA+, mas era única na sua expressão. Eram pessoas que literalmente redesenhavam os limites da própria existência e desafiavam normas sociais e construções de género profundamente enraizadas.
A neuroplasticidade cerebral, conceito que a Marina adorava explicar, ilustra perfeitamente a sua história de vida. Assim como o cérebro pode reorganizar-se e adaptar-se, eles redesenhavam constantemente as suas narrativas pessoais para transformar os desafios em crescimento e aprendizagem.
Hoje, quando penso em resiliência, não penso em superação de um obstáculo, mas numa transformação contínua. O Gabriel e a Marina ensinaram-me que ser resiliente não significa não sentir dor, mas significa continuar, criar, amar, mesmo quando o mundo parece conspirar contra si.
A minha hipersensibilidade, antes vista como uma limitação, agora vejo-a como uma janela de sensibilidade – assim como estas histórias, é uma janela para a compreensão mais profunda de identidade, amor e aceitação.
A ciência, a arte, a humanidade – tudo converge para um único ponto: o direito de ser autenticamente quem se é.
Nota Final: Gabriel e Marina são nomes fictícios, escolhidos para proteger a identidade e privacidade das pessoas reais que inspiraram esta narrativa. As suas histórias, no entanto, representam vivências autênticas e importantes da comunidade trans.
Os relacionamentos gay, como qualquer outra forma de envolvimento humano, são atravessados por dinâmicas sociais, culturais e emocionais complexas. No entanto, eles também carregam desafios únicos, influenciados por estruturas históricas de opressão, expectativas internas da comunidade LGBTQIA+ e fenómenos contemporâneos como o elitismo paradoxal. Este conceito reflete a tensão entre a procura por inclusão e a reprodução de hierarquias dentro do próprio grupo marginalizado. Para compreender essas dinâmicas, podemos recorrer tanto à literatura quanto à ciência.
Desde O Retrato de Dorian Gray (1890), de Oscar Wilde, até Call Me by Your Name (2007), de André Aciman, a literatura tem sido um espaço onde o amor entre pessoas do mesmo sexo é explorado de forma íntima e profunda. No entanto, muitas dessas obras revelam um padrão: a representação do relacionamento gay quase sempre passa por um filtro de exclusividade intelectual ou económica.
No século XX, James Baldwin, em O Quarto de Giovanni (1956), trouxe um retrato cru e melancólico da homossexualidade numa Paris que oscilava entre a boemia artística e a marginalização social. O protagonista, David, um americano branco e privilegiado, luta contra os seus sentimentos por Giovanni, um jovem italiano sem perspectivas financeiras. A relação entre os dois é marcada por uma disparidade de classes que reflete uma questão latente dentro da comunidade LGBTQIA+: a forma como o elitismo pode determinar quem tem direito a viver o amor de forma plena e legítima.
O conceito de elitismo paradoxal refere-se a uma contradição dentro dos grupos historicamente marginalizados: embora procurem inclusão e igualdade, estes mesmos grupos podem, nalguns momentos, reproduzir hierarquias internas baseadas na classe, raça, estética e noutros fatores. Dentro da comunidade gay, isso manifesta-se de diversas maneiras, desde a aplicações de namoro que favorecem certos perfis até à valorização de determinados corpos e estilos de vida em detrimento de outros.
Um estudo de 2018 publicado no Journal of Social Issues mostrou que a comunidade gay, apesar de sofrer discriminação externa, pode reforçar as normas supressoras internamente. O estudo analisou as interações nas redes sociais e aplicações de namoro e concluiu que os homens gays classificam os seus pares com base em atributos como, o nível educacional, o poder aquisitivo e a aparência. Isto permitiu criar uma subcultura que, em muitos aspectos, imita os padrões de exclusividade heteronormativos que historicamente os excluíram.
Além disso, outros estudos sobre interseccionalidade, como as de Kimberlé Crenshaw (1989), demonstram que os homens gays negros ou de origem latina enfrentam desafios adicionais, em que são fetichizados ou excluídos das narrativas centrais sobre o amor gay. De tal maneira que evidencia como o elitismo paradoxal não manifesta-se apenas em questões económicas, mas também na valorização de certas identidades dentro da própria comunidade.
Se a literatura reflete e a ciência confirma essa realidade, a questão central é: como transformar os relacionamentos gay em espaços mais inclusivos e autênticos? Algumas abordagens podem ajudar:
1. Consciência Crítica – Reconhecer que os padrões de exclusão existem dentro da comunidade gay é o primeiro passo para combatê-los. Isso significa questionar preferências internalizadas e compreender que muitas delas foram moldadas por valores supressivos.
2. Diversificação das Narrativas – A representatividade importa. Apoiar autores, criadores e influenciadores que abordam experiências diversas dentro da comunidade LGBTQIA+ pode ajudar a construir um imaginário mais inclusivo.
3. Redefinição de Valores – Em vez de dar prioridade ao status social, aparência ou capital cultural nos relacionamentos, procure envolvimento baseado na vulnerabilidade, afinidade emocional e no crescimento mútuo. Pois esses fatores podem levar a experiências mais autênticas e menos regidas por hierarquias veladas.
Os relacionamentos gay sempre foram politizados, quer queiramos ou não. Desde os tempos em que o simples ato de amar era um crime, até hoje, quando novas formas de exclusão surgem dentro da própria comunidade. A procura por relações saudáveis e verdadeiras exige reflexão e ação. O elitismo paradoxal lembra-nos que a luta por inclusão não pode limitar-se a ser aceito pela sociedade heteronormativa — ela deve começar dentro da própria comunidade e garantir que ninguém seja excluído por não se encaixar num padrão idealizado.
Ao lermos Baldwin, Wilde ou Aciman, e ao analisarmos estudos sobre o comportamento e o preconceito interno, podemos perceber que a literatura e a ciência oferecem-nos ferramentas para construir um futuro onde o amor entre pessoas do mesmo sexo não precise de ser filtrado pelas camadas de elitismo, mas sim vivido de forma plena e igualitária.
Outro aspecto do elitismo paradoxal dentro dos relacionamentos gay é a perpetuação de hierarquias herdadas da heteronormatividade, como a categorização entre ativo e passivo. Embora essa nomenclatura tenha raízes na prática sexual, ela frequentemente expande-se para além da intimidade e influencia percepções sobre masculinidade, poder e status dentro da comunidade LGBTQIA+. Estudos como as de Jonathan Ned Katz (The Invention of Heterosexuality, 1995) indicam que essas classificações carregam resquícios de uma visão patriarcal que associa a atividade sexual ao domínio e a passividade à submissão — uma lógica que, ironicamente, muitas vezes reproduz-se dentro das relações entre homens gays.
Essa categorização influencia a forma como os indivíduos são percebidos e valorizados dentro da comunidade. Estudos como o de Silva e Perucchi (2017) apontam que homens gays que identificam-se como “passivos” podem sofrer estigmatização, pois a passividade ainda é erroneamente associada a fragilidade ou feminilidade, enquanto o papel “ativo” é frequentemente vinculado à masculinidade hegemônica. Este fenómeno reforça as barreiras internas e cria uma divisão artificial dentro da própria comunidade afastando indivíduos de uma vivência mais autêntica da sexualidade.
Além da questão do papel sexual, o corpo também tornou-se um fator determinante para a aceitação dentro da cultura gay contemporânea. A valorização excessiva de corpos musculosos e atléticos, amplificada pelas redes sociais e aplicações de namoro, estabelece um padrão estético excludente. A investigação de Mark Brewster (2019) sobre a imagem corporal nos homens gays postula que a insatisfação com o próprio corpo é significativamente maior nesse grupo do que entre os homens heterossexuais levando a perturbações alimentares, uso excessivo de anabolizantes e impactos na autoestima. E cria um ciclo em que a aceitação dentro da comunidade parece depender mais da aderência a um ideal estético do que da individualidade e do afeto genuíno.
Portanto, se o elitismo paradoxal dentro da comunidade gay manifesta-se através de barreiras de classe, estética e performance de género, é importante questionar esses padrões para promover relações mais saudáveis e equitativas. A desconstrução da nomenclatura ativo-passivo, a ampliação da diversidade de corpos representados e o incentivo à autoaceitação são passos fundamentais para que o amor e o envolvimento sejam vividos com mais autenticidade. Afinal, a liberdade sexual e afetiva, tão arduamente conquistada, não pode tornar-se apenas mais uma forma de exclusão dentro da própria comunidade.
Ontem à noite, enquanto scrollava no meu feed do Instagram deparei-me com um vídeo que mexeu comigo. Era sobre relacionamentos agámicos. Confesso que fiquei ali, a ler os comentários e a tentar perceber aquele universo tão diferente do meu.
Foi engraçado compreender nos comentários, como cada pessoa tinha uma história única pra contar. Tinha pessoas a comemorar ter encontrado um nome pra algo que já sentia, outros questionavam se era isso que estavam a viver sem saber, e claro, também tinha aqueles que, como eu, estavam ali mais por curiosidade.
Os relacionamentos agámicos (do grego “a” – ausência e “gamos” – casamento/união) representam uma tendência contemporânea que reflete mudanças significativas na forma como as pessoas, especialmente os jovens, encaram os vínculos afetivos.
Sob uma perspectiva sociológica, este fenómeno está intrinsecamente ligado a diversos fatores da sociedade atual:
Sobrecarga emocional
O ritmo acelerado da vida moderna
Pressões profissionais intensas
Demandas constantes por performance em várias esferas da vida
Individualização
Maior foco no desenvolvimento pessoal
Procura por independência emocional e financeira
Prioridades nos objetivos individuais
Questões geracionais
Observação dos relacionamentos desgastantes das gerações anteriores
Mudança nos valores tradicionalmente associados aos relacionamentos
Novo entendimento sobre realização pessoal
A investigadora Bella DePaulo, da Universidade da Califórnia, tem estudado extensivamente o fenómeno da “vida single” e argumenta que existe uma crescente valorização da autonomia pessoal entre os jovens adultos. No seu trabalho “Singled Out” (2006), ela destaca como muitas pessoas encontram satisfação genuína e vivem sem parcerias românticas.
Estudos recentes da psicóloga Kristin Neff sobre autocompaixão também dialogam com esta tendência, mostrando como o autoconhecimento e o autocuidado têm se tornado prioritários para muitos jovens antes de se envolverem em relacionamentos.
Vale notar que o estilo de vida agámico não significa necessariamente isolamento social ou rejeição completa de ligações afetivas. Muitas pessoas que optam por este caminho mantêm relações próximas com amigos e família, apenas escolhem não se envolver em relacionamentos românticos tradicionais.
Esta é uma tendência que reflete transformações sociais profundas e merece ser compreendida sem julgamentos e reconhecer que diferentes pessoas podem encontrar realização em diferentes formas de viver as suas vidas afetivas.
Como pessoa e profissional que observa estas mudanças sociais, acredito que seja importante respeitar estas escolhas individuais e entender que elas fazem parte de um processo maior de transformação nas formas como nos relacionamos e encontramos satisfação pessoal.
Sabe aqueles momentos que te fazem refletir sobre como as gerações mudam? Fiquei a pensar na minha avó, que casou com 18 anos e esteve com meu avô até morrer. Na minha mãe, que já apanhou uma época diferente, com mais escolhas. E agora, a nossa geração tem tantas possibilidades, tantas formas de se relacionar (ou escolher não se relacionar), que às vezes até dá uma vertigem.
Mesmo não me identificando com essa escolha- confesso que adoro este “caos” bom que é dividir a vida com alguém – achei fascinante como cada vez mais pessoas estão a permitir-se viver fora dos padrões tradicionais. É como se cada geração quebrasse um pouco mais as regras do jogo, sabe?
E olha que curioso: quanto mais leio sobre isto, mais percebo que não é sobre estar contra o amor ou os relacionamentos. É mais sobre as pessoas que estão a dizer “Hey, tá tudo bem escolher um caminho diferente”. Tem algo de corajoso nisso, não acham?
Em suma, acho que é isso que as redes sociais têm de melhor: mostrar que existem mil e uma maneiras de ser feliz neste mundo. Às vezes, basta um vídeo aleatório no meio da noite para ampliar a nossa visão do mundo um pouco mais.
E fico a pensar: que outras tendências, que outras formas de viver e amar ainda vamos descobrir? O mundo não pára de nos surpreender, não é?
Sempre questionei por que precisamos categorizar tudo o que sentimos. Desde criança, observava como as pessoas ao meu redor pareciam ter uma necessidade quase obsessiva de colocar cada emoção, cada forma de amor, cada expressão de identidade numa caixinha bem definida e rotulada. Esta reflexão acompanhou-me até a vida adulta, onde comecei a perceber que talvez estivéssemos a complicar algo que poderia ser muito mais simples e natural.
Quando penso sobre a possibilidade de vivermos num mundo sem conceitos pré-definidos de género, sinto uma mistura de fascínio e inquietação. Fascínio pela liberdade que isso poderia representar, e inquietação por perceber quanto as nossas estruturas sociais dependem dessas categorias que criamos. As pesquisas de Margaret Mead, impactaram-me durante os meus estudos. Na verdade, mostraram-me que diferentes culturas têm visões radicalmente distintas sobre género. Por exemplo, os Bugis da Indonésia, reconhecem tradicionalmente cinco géneros diferentes – algo que desafia completamente a nossa visão ocidental binária.
Lembro-me do impacto que tive ao ler Judith Butler pela primeira vez. A teoria de que o género é uma performance social, apresentada em “Problemas de Gênero” (1990), revolucionou a minha forma de pensar. De repente, todas aquelas regras não escritas sobre como devemos comportar, vestir e até amar começaram a parecer ainda mais arbitrárias.
O Instituto Kinsey mostrou, através de estudos extensivos, que a sexualidade existe num espectro contínuo. Isso fez-me questionar: se não existissem essas categorias rígidas de género, será que nossas experiências de atração e afeto seriam mais autênticas? Será que permitiríamos simplesmente gostar de quem gostamos, sem a necessidade de rotular esse sentimento?
Os estudos de Anne Fausto-Sterling sobre variações biológicas do sexo (aproximadamente 1,7% da população apresenta variações intersexuais) fizeram-me perceber que até mesmo o que consideramos “biológico” é muito mais diverso do que imaginamos. A natureza não parece se importar tanto com as nossas categorias quanto nós.
Quando converso com os meus amigos e colegas sobre isso, frequentemente surge o medo de que, sem essas categorias, perderíamos ferramentas importantes de luta por direitos e reconhecimento. É um receio válido. A investigação em psicologia social de Claude Steele sobre “ameaça do estereótipo” mostram como as categorias podem prejudicar-nos, mas também sabemos que elas têm servido como base para importantes movimentos sociais.
Imagino um mundo onde as pessoas possam simplesmente existir e amar livremente, sem a necessidade de explicar ou justificar as suas identidades e atrações. Um mundo onde a pergunta não seria “qual é sua orientação sexual?”, mas talvez “quem és?” ou simplesmente “o que te faz feliz?”. Estudos neurocientificos já nos mostram que a atração romântica e sexual envolve processos cerebrais complexos que vão muito além das nossas categorias sociais.
Claro, reconheço que essa transformação social seria profunda e complexa. Precisaríamos repensar em sistemas inteiros de organização social, políticas públicas e marcos legais. Mas quando penso nas gerações futuras, imagino como seria libertador crescer num mundo onde a expressão de identidade e afeto não precisasse se encaixar em moldes pré-estabelecidos.
No fim, talvez a questão não seja eliminar completamente estas categorias – afinal, elas fazem parte de nossa história e nas nossas conquistas – mas sim flexibilizá-las e reconhecer a sua natureza construída para que cada pessoa encontre a sua própria forma de existir e amar. Como alguém que passou tanto tempo a refletir sobre isso, acredito que estamos a caminhar, mesmo que lentamente, para uma compreensão mais fluida e compassiva da experiência humana.
A assexualidade é uma orientação sexual caracterizada pela ausência de atração sexual por outras pessoas, distinguindo-se das outras orientações, como a heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade. No entanto, é fundamental compreender que a assexualidade não implica, necessariamente, uma ausência de prazer, afeto ou desejo por outras formas de intimidade. Embora as pessoas assexuais não experimentem atração sexual, muitas ainda procuram, sentem e valorizam outros tipos de prazer e envolvimento emocional, como a intimidade romântica, o prazer intelectual ou sensorial, entre outros. A reflexão sobre essa diversidade de prazeres ajuda a desmistificar equívocos comuns acerca da assexualidade.
De acordo com estudos realizados por Brotto e Yule (2017), a assexualidade deve ser compreendida dentro de um amplo espectro, e as experiências de prazer e intimidade podem variar significativamente entre indivíduos assexuais. Muitas pessoas assexuais relatam o desejo por intimidade emocional e romântica, valorizando laços profundos de amizade e afeto. O prazer, nesse caso, está mais ligado ao envolvimento emocional e à convivência com o outro do que à sexualidade. Esse tipo de intimidade, às vezes descrito como platónico, pode ser tão satisfatório para as pessoas assexuais quanto o desejo sexual é para aqueles que não se identificam com a assexualidade.
Além disso, a noção de prazer é multifacetada, e muitas pessoas assexuais encontram satisfação em atividades que não envolvem a sexualidade. Alguns descrevem o prazer sensorial como uma fonte significativa de gratificação, como o prazer que se sente ao ouvir uma música favorita, saborear uma refeição deliciosa, ou até mesmo ao vivenciar o toque físico não sexual, como abraços ou contato com a pele em situações de carinho. A investigação sugere que o prazer sensorial pode ser uma importante fonte de bem-estar para as pessoas assexuais (Prause & Graham, 2007).
A experiência do prazer intelectual também pode ser significativa para muitas pessoas assexuais. Para esses indivíduos, o envolvimento em atividades intelectualmente estimulantes, como a leitura, a criação artística, ou discussões profundas sobre temas de interesse, pode ser uma fonte intensa de satisfação. Esse tipo de prazer pode funcionar como um substituto ou complemento ao prazer sexual, revelando que o bem-estar pessoal não depende necessariamente da sexualidade, mas pode ser encontrado em várias outras formas de autorrealização e satisfação emocional (Scherrer, 2008).
É importante também discutir que, para muitas pessoas assexuais, a ausência de atração sexual não implica aversão ao sexo em si. Algumas pessoas assexuais podem participar de relações sexuais por várias razões, incluindo o desejo de agradar um parceiro romântico ou manter um relacionamento próximo, ainda que não experimentem o desejo sexual intrínseco. Este fenómeno é descrito como “sex-favorável” ou “sex-indiferente” dentro da comunidade assexual, o que reforça a ideia de que a sexualidade e o prazer não se manifestam da mesma forma para todos (Carrigan, 2011).
Por outro lado, há indivíduos assexuais que não têm interesse ou prazer em atividades sexuais, independentemente de outros fatores. Esses indivíduos podem se identificar como “sex-repulsivos” e preferem procurar prazer em outras áreas da vida, que não envolvem o sexo. Para essas pessoas, é fundamental o reconhecimento de que o prazer, seja ele físico, intelectual ou emocional, pode ser alcançado por outros meios, sem a necessidade de envolvimento sexual. Essa perspectiva desafia a concepção tradicional de que o prazer e a realização humana estão inseparavelmente ligados à sexualidade.
A compreensão da assexualidade à luz dos prazeres não sexuais desafia suposições culturais amplamente difundidas sobre a necessidade universal de atração e atividade sexual para o bem-estar humano. O que a investigação nos mostra é que o prazer pode assumir formas variadas, e a realização pessoal de uma pessoa assexual não está de maneira alguma limitada pela ausência de desejo sexual. Cada indivíduo constrói a sua vida e procura o prazer de maneiras que lhes são únicas, seja por meio do envolvimento emocional, da amizade, do toque afetuoso, da realização intelectual, ou de outras fontes de satisfação.
By Jonas Ferreira
Referências:
Brotto, L. A., & Yule, M. A. (2017). Asexuality: Sexual orientation, paraphilia, or mental disorder? Archives of Sexual Behavior, 46(3), 619–626.
Carrigan, M. (2011). There’s more to life than sex? Difference and commonality within the asexual community. Sexualities, 14(4), 462-478.
Prause, N., & Graham, C. A. (2007). Asexuality: Classification and characterization. Archives of Sexual Behavior, 36(3), 341-356.
Scherrer, K. S. (2008). Coming to an asexual identity: Negotiating identity, negotiating desire. Sexualities, 11(5), 621-641.
Em pleno auge do verão, neste mês de julho tão carregado de significado, encontro-me a refletir sobre um tema de profunda importância pessoal e social: a auto-afirmação do meu querido amigo Alex. O calor do verão parece espelhar a intensidade das emoções e transformações que testemunhei ao longo deste processo.
Recordo-me como se fosse hoje, aquela tarde de julho, há exatamente três anos. O sol se punha e coloria o céu com tons de laranja e rosa, quando o conheci. Estávamos em pelo Pride. Sentados no banco do parque, envoltos pelo aroma doce das tílias em flor. Reuniu-se de coragem para desabafar as suas dúvidas sobre identidade de género. A voz tremia levemente, mas os olhos brilhavam com uma mistura de medo e esperança.
Aquele momento de vulnerabilidade marcou o início de uma transformação profunda, não apenas para Alex, mas para todos ao seu redor. Foi como se uma porta se abrisse e permitisse que uma luz há muito tempo contida finalmente se espalhasse. A partir dali, testemunhei a coragem de Alex a explorar a sua verdadeira essência, a desafiar as normas sociais e a enfrentar os seus próprios medos.
O caminho não foi fácil. Houve momentos de dúvida, de tristeza e de frustração. Mas também houve momentos de alegria pura, de descobertas reveladoras e de ligações mais profundas com aqueles que verdadeiramente o amavam. Cada passo dado nesse caminho de autoconhecimento parecia fortalecer a sua determinação e ampliar a compreensão de si mesmo.
Agora, três anos depois, observo Alex com admiração. A sua transformação vai muito além da aparência física. Há uma nova confiança no seu andar, uma paz no seu sorriso que antes não existia. O percurso de Alex ensinou-me sobre a importância da autenticidade, da coragem de ser quem realmente somos, e do poder transformador do amor e da aceitação.
Neste julho, enquanto celebramos o orgulho e a diversidade, a história de Alex serve como uma poderosa mensagem da importância de criarmos um mundo onde cada pessoa possa viver a sua verdade livremente. É uma história de coragem, de amor próprio e da beleza que surge quando permitimos que a nossa luz interior brilhe em toda a sua planitude.
Quando o conheci, Alex sempre teve uma sensação persistente de desconforto com o género que lhe foi atribuído à nascença. Durante muito tempo, não soube dar nome a esse sentimento. Confidenciou-me que foi a história de Laverne Cox, a atriz trans de “Orange is the New Black”, que despertou-lhe a curiosidade. A forma como Laverne descreveu a sua experiência de infância ecoou profundamente em Alex.
À medida que começou a explorar mais sobre identidade de género, Alex deparou-se com uma tempestade de emoções. Passou noites a fio a pesquisar na Internet, a ler testemunhos de pessoas trans e a questionar-se sobre a sua própria identidade. Cada nova descoberta parecia encaixar-se como uma peça de puzzle há muito perdida.
Alex contou-me que se lembrava de, em criança, sentir-se deslocado quando brincava com os outros miúdos. Nunca se identificou completamente com os papéis de género que lhe eram impostos. Agora, ao olhar para trás, percebia que esses sentimentos não eram apenas uma fase, mas sim pistas sobre a sua verdadeira identidade.
Era fascinante ver como cada nova informação parecia iluminar um aspecto diferente das suas experiências passadas. Depois de Alex começar a partilhar comigo, as memórias de infância e adolescência, uma nova perspectiva surgiu-me. O desconforto com certos aspectos do seu próprio corpo, a identificação mais forte com pessoas do género oposto ao que lhe foi designado, a sensação de inadequação nos papéis de género esperados pela sociedade – tudo isso começou a encaixar como peças de um quebra-cabeça e a entender ainda mais a vida de um trans.
Enquanto pessoa não trans, estou a aprender muito sobre as experiências das pessoas transgénero, como a de Alex. Embora nunca possa verdadeiramente sentir na pele o que significa ser trans, tenho-me esforçado por desenvolver uma compreensão profunda e uma empatia genuína.
Quero também transmitir que não se trata apenas de simpatizar ou de sentir pena, mas sim de tentar realmente compreender e sentir o que o outro está a passar. Para mim, isto começou com a escuta ativa. Ouvir as histórias de Alex e de outras pessoas trans, sem julgamento e com uma mente aberta, permitiu-me vislumbrar um pouco do seu mundo.
Contudo, o processo de aceitação não foi fácil para Alex. Lutou contra medos internos e preocupações sobre como a família e os amigos reagiriam. Mas a cada passo que dava em direção à sua verdade, sentia-se mais leve e mais autêntico.
Foi com uma mistura de nervosismo e alívio que Alex finalmente decidiu partilhar os seus sentimentos comigo naquela tarde de verão. Lembro-me de ver nos seus olhos uma combinação de vulnerabilidade e esperança. Esse momento marcou o início de uma nova fase na vida de Alex. Uma em que finalmente podia começar a viver de forma autêntica.
Observei como ele mergulhou em estudos sobre identidade de género e transgeneridade. Alex devorou livros como “Gender Outlaw” de Kate Bornstein, que questionam as normas de género da sociedade.
“O Meu Nome É Amanda”, de Amanda Lorence, uma autora portuguesa do Brasil e transgénero. Foi um dos primeiros livros que Alex leu. Esta obra autobiográfica ofereceu-lhe uma perspetiva próxima e culturalmente relevante sobre a experiência trans no Brasil.
“Transgender History”, de Susan Stryker, proporcionou a Alex uma compreensão mais ampla do contexto histórico e social do movimento transgénero. Este livro ajudou-o a situar a sua própria experiência dentro de um panorama mais vasto de luta e progresso.
“Trans Like Me”, de CN Lester, foi particularmente útil para Alex na exploração de questões de identidade não-binária e na compreensão do espectro de experiências trans.
Para uma perspetiva mais técnica sobre o processo médico de transição, Alex recorreu a “Transgender Medicine: A Multidisciplinary Approach”, editado por Leonid Poretsky e Wylie C. Hembree. Embora este livro seja direcionado principalmente para profissionais de saúde, Alex encontrou nele informações valiosas e seguras sobre os aspetos médicos da transição.
Mas Alex ainda tinha muitas dúvidas. Lembro-me de quando ele descobriu o Modelo de Identidade Trans de Arlene Istar Lev. Alex identificou-se imediatamente com o estágio de exploração da identidade. Foi inspirador ver como ele começou a experimentar diferentes expressões de género e a usar roupas e acessórios que faziam sentir-se mais autêntico.
Ainda me lembro, numa tarde de chuva. Fomos lanchar ao café habitual e Alex pediu-me para o tratar com diferentes pronomes quando estivéssemos sozinhos. Uma forma de experimentar e testar para “ver” como se fazia sentir. A alegria nos olhos, quando eu lhe chamava com os novos pronomes era magnífico. Era como se uma parte dele finalmente, fosse reconhecida.
Acompanhei Alex nos estudos sobre a disforia de género. Ele explicou-me como muitos dos sintomas descritos no DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais) se aplicavam – a angústia em relação a certas características sexuais, o desejo de modificar o corpo. Mas Alex também descobriu o conceito de euforia de género, e isso pareceu repercutir ainda mais com as suas experiências.
Foi emocionante ver Alex reunir coragem para consultar uma médica de medicina geral especializada em sexologia. Partilhou comigo a consulta inicial , o encaminhamento aos serviços especializados para a mudança de género e todo o processo subsequente.
Alex contou-me que, inicialmente, sentiu-se bastante nervoso ao marcar a consulta. Contudo, a abordagem profissional e empática da médica ajudou-lhe a sentir-se à vontade para discutir questões que, até então, lhe pareciam demasiado íntimas ou confusas para partilhar.
Durante a consulta, a médica utilizou o Inventário de Identidade de Género, uma ferramenta de avaliação psicológica concebida para ajudar as pessoas a explorar e articular as suas experiências relacionadas com a identidade de género. Alex explicou-me como este inventário ajudou-lhe a dar voz a sentimentos que antes lhe pareciam nebulosos e difíceis de expressar.
As perguntas do inventário abordaram vários aspectos da sua experiência: o seu sentido interno de género, o desconforto com características sexuais primárias e secundárias, e as suas preferências em termos de expressão de género. Alex referiu ainda que, ao responder a estas questões, começou a ganhar uma compreensão mais clara e estruturada da sua identidade.
A médica, com a sua experiência em sexologia, foi capaz de interpretar os resultados do inventário e discuti-los com Alex de forma sensível e informada. Esta conversa permitiu-lhe não só validar os sentimentos do Alex, mas também fornecer-lhe informações sobre os próximos passos no processo de transição.
Com base nesta avaliação inicial, a médica encaminhou Alex para os serviços especializados em saúde trans no (SNS) Serviço Nacional de Saúde. Explicou-lhe o processo normal para a mudança de género, as consultas com endocrinologistas, psicólogos e, eventualmente, cirurgiões conforme os desejos e necessidades específicos de Alex.
Além disso, teve de realizar uma série de exames médicos, incluindo mamografias e análises ao sangue, para garantir que estava em condições de saúde adequadas para a cirurgia. A burocracia envolvida foi extenuante. Alex teve de navegar por um labirinto de formulários, autorizações e pareceres médicos. Cada etapa requeria paciência e perseverança, mas a sua determinação nunca vacilou. Finalmente, após quase dois anos de consultas, exames e espera, Alex recebeu a aprovação para a mastectomia bilateral subcutânea para homens transgêneros.
Descreveu-me a mistura de emoções – alívio, ansiedade e, acima de tudo, esperança – que sentiu ao receber a notícia. A cirurgia em si foi um sucesso. Ele falou-me da sensação libertadora de olhar para o espelho e ver um reflexo que finalmente correspondia à sua identidade de género. Ao ouvir Alex relatar estas experiências, fiquei impressionado com a sua resiliência e coragem. Apesar dos obstáculos burocráticos e da discriminação de alguns médicos, a sua determinação permitiu-lhe alcançar o que tanto desejava: viver autenticamente como ele próprio
Alex começou por falar da terapia hormonal de afirmação de género. Um passo fundamental na sua transição física. Explicou-me também que iniciou a toma de testosterona sob a forma de injeções intramusculares, um processo supervisionado por um endocrinologista especializado na saúde trans. Este tratamento visa induzir mudanças físicas para alinhar o seu corpo com a sua identidade de género: o aprofundamento da voz, o aumento da massa muscular e a redistribuição da gordura corporal. Paralelamente ao processo hormonal, Alex embarcou na complexa e burocrática mudança legal de nome e género em Portugal. Explicou-me que, desde a Lei n.º 38/2018, o processo ficou mais acessível, mas ainda assim exigente. Alex teve de obter um relatório de um psicólogo ou psiquiatra que atestasse a sua identidade de género. Um documento para iniciar o processo. Com este relatório em mãos, Alex dirigiu-se à Conservatória do Registo Civil para solicitar a mudança de nome e género nos seus documentos oficiais. Descreveu-me o alívio que sentiu ao ver finalmente o seu verdadeiro nome e género refletidos no Cartão de Cidadão, um marco significativo na sua auto-afirmação.
Alex expressou-me o quão validante foi esta experiência. Pela primeira vez, sentia que uma profissional de saúde compreendia verdadeiramente a sua situação e estava empenhada em ajudar-lhe a navegar pelo complexo sistema de saúde para receber os cuidados de que necessitava.
A experiência do Alex põe em evidência a importância de uma comunicação eficaz e de uma assistência empática no atendimento a pessoas trans. A forma como a médica de medicina geral abordou a situação do Alex, com sensibilidade e compreensão, foi determinante para o seu bem-estar e para o sucesso do início do seu processo de transição.
Esta abordagem empática não só ajudou o Alex a sentir-se mais confortável e validado, mas também permitiu que ele partilhasse informações importantes sobre a sua experiência de forma mais aberta e honesta. Isto, por sua vez, possibilitou um diagnóstico mais preciso e um plano de cuidados mais adequado às suas necessidades específicas.
Contudo, é importante salientar que a experiência positiva do Alex não é universal. Muitas pessoas trans ainda enfrentam barreiras significativas no acesso a cuidados de saúde adequados e respeitosos. Isto sublinha a necessidade premente de mais investigação na área da saúde trans, particularmente no que diz respeito à determinação e regulação dos cuidados primários para esta população.
A investigação contínua é essencial para compreender melhor as necessidades de saúde específicas das pessoas trans, desenvolver protocolos de cuidados baseados em evidências e identificar as melhores práticas para o atendimento a esta comunidade. Além disso, a investigação pode ajudar a informar políticas de saúde mais inclusivas e a melhorar a formação dos profissionais de saúde.
E por falar em formação, é fundamental destacar a importância da formação contínua dos profissionais de saúde em questões relacionadas com a saúde trans. A médica que atendeu o Alex estava bem preparada para lidar com questões de identidade de género, mas infelizmente, nem todos os profissionais de saúde têm este nível de preparação.
A formação contínua deve abranger não apenas os aspectos médicos da transição de género, mas também questões de sensibilidade cultural, uso adequado de pronomes e nomes, e compreensão das barreiras sociais e legais que as pessoas trans frequentemente enfrentam. Esta formação deve ser regular e atualizada e refletir as mais recentes investigações e melhores práticas no campo da saúde trans.
É importante destacar também que esta formação não se limite apenas aos especialistas em saúde trans, mas a todos os profissionais de saúde, incluindo médicos de família, enfermeiros, técnicos de saúde e pessoal administrativo. Isto ajudará a garantir que as pessoas trans recebam cuidados respeitosos e adequados em todos os níveis do sistema de saúde.
A história de Alex serve como um exemplo positivo do que pode acontecer quando os profissionais de saúde estão bem preparados e são empáticos. No entanto, também relembra-nos que ainda há muito trabalho a ser feito para garantir que todas as pessoas trans tenham acesso a cuidados de saúde de alta qualidade, centrados no paciente e culturalmente competentes.
À medida que avançamos, continuemos a investir em investigação, formação e políticas de saúde que promovam a equidade e a inclusão para a comunidade trans. Só assim poderemos criar um sistema de saúde verdadeiramente inclusivo, onde todas as pessoas, independentemente da sua identidade de género, possam receber os cuidados de que necessitam com dignidade e respeito.
Ao longo deste processo, vi Alex a abraçar a ideia de que não existe uma única forma de ser trans. E isto parte dos livros que ele devorou. Ele confidenciou-me: “Cada caminho é único. Algumas pessoas sabem desde cedo, outras descobrem mais tarde. Algumas fazem transição médica, outras não. O importante é ser autêntico contigo mesmo.”
Alex passou por um período intenso de auto-reflexão. Ele questionava-se constantemente:
“Como me sinto em relação ao género designado ao nascer? Como gostaria que as pessoas me vissem? Como me imagino no futuro? Que mudanças gostaria de fazer em relação à minha expressão de género?”
Foi um privilégio acompanhar Alex de perto. Vi-o a experimentar diferentes expressões de género em ambientes seguros, usar variadissimas roupas, experimentar novos nomes e pronomes. Não havia pressa ou um guião a seguir – era um processo natural de auto-afirmação.
Hoje, vejo como essa todo esse caminho transformou Alex. Aceitar-se como pessoa trans foi profundamente libertador para ele. É como se uma névoa dissipasse e que olhasse o mundo e a si mesmo com mais clareza.
Alex agora usa a sua experiência para apoiar outras pessoas que estão a questionar a sua identidade de género. Alex sempre enfatiza que não há teste definitivo para saber se alguém é trans – é um caminho pessoal de auto-conhecimento que pode levar tempo.
Ver a transformação de Alex ensinou-me muito sobre coragem, autenticidade e a importância de viver a nossa verdade. A auto-afirmação de Alex lembrou me que, independentemente do resultado, o processo de auto-descoberta e procura pela autenticidade é valioso por si só.
A história de Alex não só ilumina os desafios enfrentados pela comunidade trans em Portugal, mas também destaca a importância de sistemas de saúde acessíveis e inclusivos. É um testemunho poderoso da necessidade contínua de educação, compreensão e apoio para indivíduos trans na sua caminhada de auto-descoberta e afirmação.
Através destas conversas e da minha própria pesquisa, comecei a entender os desafios únicos que as pessoas trans enfrentam. A disforia de género, por exemplo, não é algo que eu possa experienciar diretamente, mas ao ouvir o Alex descrever a angústia de se sentir desligado do seu próprio corpo, pude começar a imaginar quão profundamente perturbadora essa experiência deve ser.
O conhecimento tem sido uma ferramenta poderosa no meu percurso de compreensão. Li livros, artigos e estudos sobre identidade de género, o processo da transição médica e os desafios sociais enfrentados pela comunidade trans. Este conhecimento ajudou-me a contextualizar as experiências individuais que ouvi e a compreender as questões mais amplas que afetam a comunidade trans.
Quero que esta e tantas histórias sirvam para que as pessoas cisgénero (pessoas que se identificam com o sexo à nascença) que nunca tiveram de questionar a sua identidade de género ou lutar para que ela fosse reconhecida, compreendam este privilégio de poder ajudar a ser mais sensível e consciente nas interações com pessoas trans.
Aprender a importância da linguagem inclusiva e respeitosa. Usar os pronomes corretos, por exemplo, pode parecer um pequeno gesto, mas sei agora o quanto isso pode significar para uma pessoa trans. É uma forma de validar a sua identidade e mostrar respeito.
Embora possamos não “sentir na pele” o que significa ser trans, podemos usar o conhecimento e a empatia para sermos um melhor aliado. Isto significa não só oferecer apoio emocional, mas também defender ativamente os direitos das pessoas trans, educar outros e desafiar a transfobia.
De facto, a minha amizade com o Alex ensinou-me que, embora possa nunca compreender completamente a sua experiência, posso esforçar-me continuamente para ser compreensivo, solidário e respeitoso. A empatia, afinal, não se trata de experimentar exatamente o que o outro experimenta, mas sim de estar disposto a abrir o coração e a mente para tentar compreender.
No final, percebi que ser um bom aliado não requer que eu tenha a mesma experiência, mas sim que eu esteja disposto a aprender, a ouvir e a apoiar. É um processo contínuo de educação e autorreflexão e acredito que é necessário para criar uma sociedade mais inclusiva e compreensiva para todes.
Olá! O meu nome é Jonas Ferreira e sou psicóloge, formadore e gestore de carreiras. Neste guia, vou partilhar convosco as minhas experiências profissionais e algumas reflexões sobre o uso de pronomes neutros em português, especialmente no contexto da psicologia e do mundo do trabalho.
Os pronomes neutros são formas de referirmos a pessoas sem especificar o seu género. Em português, tradicionalmente, temos apenas pronomes masculinos (ele) e femininos (ela). No entanto, algumas pessoas não se identificam com estes géneros binários e preferem usar pronomes neutros.
Como psicóloge e gestore de carreiras, tenho vindo a observar uma crescente necessidade de inclusão e respeito pela diversidade de género no ambiente de trabalho. Lembro-me de uma situação em particular:
“Estava a conduzir uma formação sobre comunicação inclusiva numa empresa, quando ume participante perguntou: ‘Mas como é que aplicamos isto no dia-a-dia?’ Foi nesse momento que percebi que precisávamos de exemplos práticos e concretos.”
Do ponto de vista da psicologia, o uso de pronomes neutros pode ter um impacto significativo no bem-estar emocional e na saúde mental das pessoas não-binárias. A validação da identidade de género através da linguagem pode reduzir o stress, a ansiedade e a depressão associados à disforia de género.
Na gestão de carreiras, tenho notado que empresas mais inclusivas tendem a atrair e reter talentos diversos. Algumas práticas que recomendo incluem:
Incluir pronomes preferidos nos perfis profissionais e assinaturas de e-mail
Usar linguagem neutra em anúncios de emprego
Formar equipas sobre diversidade de género e comunicação inclusiva
Numa experiência recente de um amigo psicólogo, ele decidiu usar apenas pronomes neutros durante um dia inteiro na sua prática clínica. Eis um excerto das suas notas que ele próprio me forneceu e passo a citar:
“Hoje, recebi ume cliente que se identificava como não-binárie. Comecei por perguntar quais eram os seus pronomes preferidos. Ile ficou visivelmente emocionade e disse que era a primeira vez que alguém lhe perguntava isso num contexto profissional. Durante a sessão, prestei muita atenção para usar os pronomes corretos, e notei como isso criou um ambiente de confiança e abertura.”
O maior desafio que encontro é a resistência à mudança em ambientes de trabalho mais tradicionais. Muitas vezes, as pessoas não entendem a importância dos pronomes neutros ou veem-nos como “desnecessariamente complicados”.
No entanto, os benefícios são significativos:
Aumento da satisfação e produtividade dos funcionários
Melhoria do trabalho em equipa e da comunicação
Reputação fortalecida como empregador inclusivo
Como profissional de psicologia e gestão de carreiras, acredito que a adoção de pronomes neutros é um passo importante para criar ambientes de trabalho mais inclusivos e saudáveis psicologicamente. Embora possa haver uma curva de aprendizagem, os benefícios a longo prazo para indivíduos e organizações são inegáveis.
Lembrem-se que cada pequeno esforço para tornar a nossa linguagem mais inclusiva pode ter um grande impacto na vida de alguém. Vamos trabalhar juntes para criar um mundo profissional onde todes se sintam valorizades e respeitades!
Quando elu desliza o tecido suave de um vestido sobre a pele ou ajusta cuidadosamente uma saia, elu não está simplesmente a mudar de roupa – elu está, nas palavras de Judith Butler, a fazer uma performance de género. Cada dobra do tecido, cada escolha de acessório, torna-se um ato de subversão contra as regras rígidas binárias de género imposto pela sociedade. O corpo de elu torna-se um palco onde as normas de género são questionadas, desafiadas e desconstruídas.
Esta performance não é apenas vista do lado de fora. Internamente, elu navega num mar de emoções e pensamentos. A teoria da dissonância cognitiva ajuda-nos a perceber o possível desconforto inicial – o atrito entre a ação de vestir-se com roupas femininas e as crenças internalizadas sobre o género e identidade. No entanto, é precisamente esta tensão que catalisa uma profunda reflexão e, potencialmente, uma transformação pessoal.
Esta experiência de elu ressoa profundamente com a teoria queer, que convida-nos a imaginar um mundo além das categorias rígidas de género e da sexualidade. Ao apagar as linhas entre o que é considerado “masculino” e “feminino”, elu não está apenas a expressar uma preferência pessoal, mas a contribuir para uma redefinição social do que significa ser e expressar o género.
Esta fluidez não existe no vazio. O feminismo interseccional faz-nos pensar que a autodescoberta de elu é inevitavelmente influenciada por uma miríade de fatores – classe, raça, cultura, etc. Cada peça de roupa que carrega, não é apenas o peso das expectativas de género, mas também as complexas histórias de privilégio e opressão que moldam a nossa sociedade.
Do ponto de vista da psicologia cognitiva, o ato de vestir roupas femininas desafia os esquemas de género da sociedade e os próprios esquemas internos de elu. Cada vez que elu vê-se no espelho, a usar um vestido de uma maneira que contradiz com as expectativas sociais baseadas no seu sexo biológico, elu está ativamente a reconstruir as suas estruturas mentais sobre o que significa ser de um determinado género.
Este processo de reconstrução cognitiva pode ter desafios. Pode haver momentos de dúvida, de insegurança… No entanto, é precisamente nestes momentos que a psicologia humanista oferece-nos uma perspectiva valiosa. Carl Rogers falava sobre o processo de “tornar-se pessoa”, e podemos estender este conceito para “tornar-se género”. A escolha de elu de vestir roupas femininas pode ser vista como um passo corajoso em direção à autenticidade. Uma expressão externa de uma verdade interna que talvez sempre estivesse presente, à espera para ser reconhecida e celebrada.
As reações das pessoas ao redor de elu são um espelho fascinante das normas e expectativas sociais. Olhares de surpresa, comentários de apoio ou de desaprovação – cada reação é um dado valioso sobre como a sociedade compreende e vê o género. Ao mesmo tempo, as reações tomam um poder no percurso de elu e reforça a determinação ou a provocação nos momentos de dúvida.
Ao adentrar no espaço público a vestir-se com roupas femininas, elu torna-se involuntariamente um catalisador para reações sociais que revelam as profundas raízes das normas de género na nossa sociedade. Os olhares, muitas vezes carregados de julgamento, curiosidade ou desaprovação, funcionam como um microcosmo das atitudes sociais em relação à não-conformidade de género.
O filósofo Jean-Paul Sartre falava sobre o “olhar do outro” como uma forma de objetificação que pode ser profundamente desconfortável. No contexto da expressão de género não-normativa, este olhar adquire uma dimensão adicional de violência simbólica. Cada olhar fixo, cada sussurro mal disfarçado, cada expressão de choque ou desdém, serve como uma recordação dolorosa das estruturas de poder que governam a expressão de género em espaços públicos.
As críticas explícitas são apenas a ponta do iceberg. Mais insidiosas são as microagressões – comentários aparentemente inócuos, piadas “bem-intencionadas”, ou gestos sutis de desconforto. Estas microagressões, como teorizado por Derald Wing Sue, são manifestações de estruturas mais amplas de opressão e preconceito. Quando alguém pergunta “Mas és homem ou mulher?”, não está apenas a expressar a curiosidade, mas a reafirmar um sistema binário de género que não deixa espaço para expressões fora da norma.
Se olharmos para o passado, historicamente, expressões de género não-normativas foram frequentemente patologizadas pela medicina e pela psicologia. Embora tenha havido progressos significativos nessas áreas, o eco dessa patologização ainda ressoa na sociedade. Comentários como “Isso não é normal” ou “precisas de ajuda” refletem uma tendência persistente de ver a não-conformidade de género como um problema a ser corrigido, ao invés de uma expressão válida de identidade.
Reconhecer que as críticas e julgamentos não são uniformes. Eles são profundamente influenciados por fatores interseccionais como raça, classe, idade e localização geográfica. Por exemplo, uma pessoa negra a expressar não-conformidade de género pode enfrentar um conjunto diferente e mais intenso de críticas devido ao racismo estrutural que se intersecta com a transfobia.
Apesar do peso dessas críticas e olhares, muitas pessoas que desafiam as normas de género, como elu, demonstram uma notável resiliência. Cada ato de expressão autêntica em face do julgamento social torna-se um ato de resistência. Como argumentado pela teórica queer José Esteban Muñoz, essa resistência pode ser vista como uma forma de “desidentificação” – um processo pelo qual indivíduos marginalizados negociam culturas predominantes, não se opondo a elas, mas as transforma para os seus próprios propósitos.
É importante notar o papel dos aliados neste contexto. Olhares de aceitação, gestos de apoio e intervenções ativas contra o preconceito podem proporcionar um contraponto vital às críticas negativas. Estes atos de solidariedade oferecem apoio emocional e contribuem para a normalização gradual das diversas expressões de género.
Paradoxalmente, as reações negativas podem, às vezes, abrir espaços para diálogo e educação. Quando elu enfrenta críticas ou olhares de julgamento, há uma oportunidade de envolver-se nas conversas que desafiam pressupostos e expandem a compreensão sobre o género. Cada interação torna-se um momento pedagógico, embora seja importante reconhecer que não é obrigação dos indivíduos educar os outros às custas de seu próprio bem-estar.
Navegar num mundo onde cada escolha de vestuário pode provocar julgamento , requer coragem, resiliência e sobretudo uma rede de apoio. As críticas e olhares negativos são dolorosas recordações das estruturas opressivas que ainda moldam a nossa sociedade. No entanto, cada passo dado em público ao vestir roupas que desafiam as normas é também um passo em direção à transformação social.
O percurso de elu, marcada tanto por momentos de afirmação quanto por experiências de discriminação, ilustra vividamente as tensões e contradições na nossa compreensão social de género. Ao continuar a existir e a expressar-se autenticamente face às críticas, elu não apenas está a reivindicar o seu direito à autoexpressão, mas também a contribuir para uma redefinição mais ampla e inclusiva do que significa incorporar e expressar género nos espaços públicos.
Mas esta descoberta de desconstrução e reconstrução é contínua. Não há um ponto final, não há um momento em que podemos dizer que o género foi completamente “desconstruído”. Em vez disso, é um processo constante de indagação, exploração e crescimento. E como tal, elu não está apenas a descobrir quem elu é, mas está a participar ativamente na criação de um mundo onde todos são livres para expressar a identidade de género da maneira que sentirem mais autênticos.
Quanto mais aprofundo no estudo da sexualidade humana, mais a chama da escrita se acende dentro de mim. Uma verdade que invade o meu espaço é que o sexo vai além de uma mera necessidade! É um universo complexo e fascinante que transcende a simples reprodução biológica. Diversos estudos científicos comprovam essa riqueza e revela um mosaico de motivações e benefícios que vão além da procriação.
A crença ultrapassada de que o sexo serve apenas e exclusivamente para a procriação já não se sustenta. O modelo trifásico da sexualidade, proposto por Helen Fisher, convida-nos a desvendar as três fases distintas que compõem essa experiência: o desejo, a excitação e o orgasmo. Cada etapa, mediada por diferentes sistemas neurais e hormonais, demonstra a complexa natureza do comportamento sexual.
Do ponto de vista evolutivo, o sexo apresenta-se como um mecanismo de recompensa e reforço para comportamentos que beneficiam a sobrevivência da espécie. A atividade sexual prazerosa incentiva a formação de laços afetivos e a procriação ao mesmo tempo que perpetua-se uma nova geração da nossa espécie.
Mas os benefícios não param por aí! O sexo desencadeia uma cascata de hormonas, como a oxitocina e a endorfina, que proporcionam relaxamento e combatem o stress, representado pelo cortisol. Estudos comprovam que a prática sexual regular fortalece o sistema imunológico, aumentando a produção de células brancas do sangue e protegendo contra infecções.
Mais do que isso, o sexo consensual e prazeroso eleva a nossa autoestima e autoconfiança e pode promover uma imagem corporal positiva. Através das sensações do toque, da visão, da audição e do olfato, o sexo proporciona intenso prazer sensorial, tornando-se uma experiência gratificante e divertida.
A sexualidade desponta como um universo exploratório, criativo e experimental. Cada indivíduo tem o poder de expressar a sua individualidade e explorar as diferentes formas de prazer. Mais do que a mera atividade física, o sexo pode ser uma forma de envolvimento emocional profundo com a pessoa e também permite criar laços de intimidade e confiança.
O meu caminho pessoal
Ao longo do meu percurso de autoconhecimento sobre a sexualidade humana, deparei-me com diversas perspectivas, experiências e inquietudes. Através da leitura, estudos e conversas com pessoas de diferentes origens e vivências, pude ampliar a minha compreensão sobre esse tema tão complexo e multifacetado.
Nesse caminho, descobri-me como uma pessoa assexual. Isso significa que experimento pouca ou nenhuma atração sexual por outras pessoas. Essa descoberta foi fundamental para o meu autoconhecimento e para a construção de uma relação mais autêntica comigo e com a minha sexualidade.
A assexualidade é um espectro amplo e diverso, e cada indivíduo a vivencia de forma única. No meu caso, ela manifesta-se como pouca ou quase nenhuma atração sexual, mas isso não significa que não desfruto de outras formas de intimidade e envolvimento com a pessoa. Posso ter relacionamentos românticos, sentir afeto e carinho, e envolver-me em atividades sexuais consensuais, se assim desejar.
Explorando A Minha Assexualidade
A assexualidade ainda é pouco conhecida e compreendida pela sociedade, o que gera muitos desafios e questões. Posso tentar refutar e diferenciar das outras perturbações mentais e sexuais. Nas próximas reflexões, pretendo abordar esse tema com mais profundidade. E assim, partilho as minhas experiências e reflexões sobre os desafios e as alegrias de ser uma pessoa assexual num mundo que valoriza tanto a atração sexual.
Acredito que é importante falar sobre a assexualidade para promover a visibilidade e a compreensão dessa orientação sexual. Ao partilharmos as nossas histórias e experiências, podemos contribuir para a construção de uma sociedade mais inclusiva e respeitosa da diversidade.
Posto isto, quero apenas salientar que a sexualidade humana é um universo rico e complexo, cheio de nuances e descobertas. É um aspecto fundamental da nossa vida que merece ser explorado com respeito, abertura e sem julgamentos. Através do conhecimento, da educação sexual e da autoexploração, podemos construir uma relação mais saudável e autêntica com a nossa própria sexualidade,seja ela qual for.