Vivemos numa época curiosa. Nunca falou-se tanto de saúde mental, diversidade e empatia e, paralelamente, nunca foi tão visível a banalização da violência, da desinformação e da desumanização.
Quando pensamos em “barbaridades”, o imaginário coletivo tenta apontar para o “outro”: o criminoso, o extremista, o “louco”. Há uma necessidade quase instintiva de associar o mal à diferença. Como se fosse mais confortável acreditar que aquilo que fere, exclui ou destrói vem sempre de fora daquilo que consideramos “normal”.
Mas a realidade insiste em contrariar essa narrativa.
Grande parte das decisões que criam sofrimento em larga escala, isto é, as guerras, as políticas discriminatórias, a exploração económica, a negligência social, são tomadas, apoiadas ou toleradas por pessoas perfeitamente integradas nas normas sociais. Pessoas com rotinas, famílias, carreiras. Pessoas que votam, comentam nas redes sociais, trabalham em instituições respeitadas. Pessoas “normais”.
Nos últimos anos, assistimos a fenómenos que ilustram bem este paralelismo. A disseminação de discursos de ódio não é feita apenas por grupos marginais, mas amplificada por cidadãos comuns, muitas vezes convencidos de que estão apenas “a dizer verdades”. A indiferença perante as crises humanitárias cresce à medida que habituamo-nos a ver o sofrimento como pano de fundo mediático. A polarização transforma os adversários em inimigos, e os inimigos em alvos legítimos de desumanização. Nada disto exige uma psicopatologia. Exige, muitas vezes, apenas conformismo, medo, ignorância ou simplesmente a incapacidade de questionar normas sociais e narrativas dominantes.
Do ponto de vista psicológico, isto não é surpreendente. Sabemos, desde os estudos clássicos de Milgram (1963) e Zimbardo (2007), que o contexto social pode levar os indivíduos comuns a comportamentos extraordinariamente cruéis. A obediência à autoridade, a pressão do grupo e a desresponsabilização moral são forças poderosas. O problema não está apenas nos indivíduos “anormais”, mas nos sistemas que normalizam o inaceitável.
E talvez seja aqui que o conceito de “normalidade” revela-se mais perigoso.
Ser “normal” implica, muitas vezes, adaptar-se ao contexto, mesmo quando esse contexto está eticamente comprometido. Implica não questionar demasiado, não sair da linha, não criar desconforto. Mas a história mostra-nos repetidamente que o progresso moral depende precisamente de quem desafia essa normalidade. Curiosamente, muitas das pessoas rotuladas como “diferentes” que incluem os indivíduos neurodivergentes, tendem a questionar normas sociais de forma mais direta. Não por superioridade moral, mas por uma relação distinta com as convenções implícitas. E isso pode ser profundamente desconcertante para uma sociedade que valoriza a conformidade.
Talvez devêssemos, então, inverter a pergunta. Em vez de “o que há de errado com quem é diferente?”, talvez devêssemos perguntar: o que há de perigoso naquilo que aceitamos como normal? Porque quando a normalidade deixa de ser questionada, torna-se terreno fértil para a normalização do inaceitável. E quando ninguém estranha, ninguém resiste.
No fim, a verdadeira linha divisória pode não estar entre “normais” e “anormais”, mas entre aqueles que questionam e aqueles que simplesmente seguem.
E a história, esta, já mostrou-nos várias vezes de que lado costumam surgir as maiores barbaridades.
Há atitudes que dizem muito mais do que qualquer explicação. A recusa de transformar uma suspeita numa tragédia pessoal é uma delas. O que quero dizer é que vi numa notícia que uma figura pública escolheu não tratar os rumores sobre a sua sexualidade como algo a negar ou a corrigir. E isso fez-me pensar na forma como ainda hoje muitas identidades continuam a ser vistas como algo que precisa de defesa. Quando alguém não responde aos rumores sobre a sua própria sexualidade com uma urgência defensiva, isso não significa indiferença; pode só significar algo mais profundo. Pode significar apenas a recusa de aceitar que ser LGBTQIA+ seja, por si só, uma acusação a desmentir.
Isto é relevante porque toca numa lógica muito antiga da cultura pública. De que certas identidades precisam de ser justificadas, corrigidas ou negadas. Quando uma figura pública é alvo de especulação, espera-se quase sempre uma resposta marcada por alguma tensão, um desmentido e até uma tentativa de controlo da narrativa. Mas há uma diferença importante entre esclarecer factos e reforçar estigmas. Defender-se com veemência de uma identidade sexual, como se ela fosse um problema, acaba por validar a ideia de que existir fora da norma merece uma reparação.
Vemos essa mesma dinâmica em reações e notícias em torno dos protagonistas de Heated Rivalry, sobretudo quando começaram os rumores sobre os dois estarem juntos também na vida real, apesar de um deles afirmar ser heterosexual. Este tipo de leitura pública mostra como, muitas vezes, a audiência mistura ficção, desejo de confirmação e especulação sobre a vida íntima dos atores, o que transforma a identidade e a orientação sexual num assunto de interpretação coletiva, em vez de respeitar os limites entre a personagem, o ator e a vida pessoal.
Não responder ao rumor como se ele fosse ofensivo é recusar a premissa de que a orientação sexual precisa de autorização social para existir. Esta atitude não elimina a curiosidade pública nem resolve a cultura de invasão da privacidade, mas introduz uma mudança simbólica relevante. Não se trata de provar que a pessoa é “normal”, trata-se de afirmar que a identidade não é uma falha.
Há momentos em que o silêncio não é uma omissão, mas uma posição. Num contexto social onde tantas pessoas LGBTQIA+ ainda vivem da pressão, da vergonha ou do medo, não dramatizar uma especulação pode ser um ato de descompressão simbólica. Em vez de alimentar a lógica da suspeita, a pessoa mostra que a orientação sexual não precisa de ser tratada como um escândalo. Isto é especialmente importante porque a linguagem molda as perceções. Quando uma resposta pública transmite que ser gay, bissexual, trans ou intersexo não é uma ofensa nem um problema, até pode ajudar a deslocar o centro da conversa. Ou seja, deixa de estar em causa a “correção” da identidade e passa a estar em causa o direito à privacidade e à autodeterminação. Foi precisamente nesse sentido que Lady Gaga lidou, ao longo do início da carreira, com rumores de que seria intersexo, numa altura em que esse assunto era frequentemente tratado com muito sensacionalismo e até com o termo ofensivo “hermafrodita”. Em vez de alimentar a humilhação pública, ela manteve uma postura que, anos mais tarde, explicou como uma forma de não reforçar a vergonha sobre as pessoas intersexo e sobre todas as pessoas que vivem fora da norma.
Na entrevista da CNN em 2011, Lady Gaga respondeu de forma direta e irónica às perguntas sobre o rumor de que teria um pénis ao dizer: “Why the hell am I going to waste my time and give a press release about whether or not I have a penis? My fans don’t care and neither do I.” Recentemente numa outra entrevista com Bill Gates, ela explicou por que escolheu não desmentir esses rumores na altura: disse que não se via como vítima da mentira e que pensou nas crianças que pudessem estar a passar por algo semelhante, para não reforçar a vergonha pública em torno dessas identidades.
Este exemplo mostra muito bem o que está em jogo. Quando uma figura pública não reage como se a especulação fosse uma ameaça, ela recusa transformar a identidade num problema a corrigir. E isso liga-se diretamente ao tema, porque expõe como o silêncio, em certos contextos, pode ser uma forma de resistência ao estigma, à invasão da privacidade e à ideia de que existir fora da norma exige justificação.
Muitos estigmas sobrevivem porque são reforçados por reações automáticas. Se alguém reage a um rumor com raiva excessiva, pode acabar por confirmar a ideia de que existe algo vergonhoso no rumor em si. Ao contrário, uma resposta calma e não defensiva desmonta essa estrutura. Não porque prova nada, mas porque recusa a jogar o jogo da vergonha.
Neste sentido, a postura que quero transmitir é mais do que uma estratégia de comunicação. É uma forma de resistência cultural. A sexualidade não é um erro a corrigir nem uma reputação a proteger. É apenas uma dimensão possível da experiência humana, que não precisa ser convertida num conflito para merecer respeito.
Também é interessante notar que este tipo de postura pode ter um impacto para lá da fama em causa. Quando uma figura pública evita dramatizar a suspeita, está a enviar uma mensagem indireta a milhares de pessoas que vivem em situações semelhantes tanto em contextos familiares, escolares ou até profissionais. E não há nada de indigno de existir. Não é preciso pedir desculpa pela própria identidade.
Talvez seja por isso que escrevo este texto. Não apenas de um rumor sobre uma celebridade mas da forma como a sociedade ainda olha para a diversidade sexual. E, ao mesmo tempo, mostra como uma resposta simples pode ser profundamente política.
Vivemos numa era em que os vídeos de ódio invadem o dia-a-dia de milhões de pessoas comuns por meros likes e engagement. Enquanto as televisões privadas em Portugal operam sob regras claras e uma comissão fiscalizadora dedicada, as redes sociais parecem um faroeste digital sem uma autoridade equivalente. Resolvi escrever este texto para comparar esses dois mundos ao analisar as regulamentações, as lacunas e as propostas construtivas para um equilíbrio entre a liberdade e a proteção dos cidadãos.
A televisão em Portugal, dominada por canais públicos e privados como a RTP, a SIC, a TVI e outros, não é um espaço de impunidade. A Lei n.º 27/2007, que regula a Televisão e os Serviços Audiovisuais a Pedido, impõe proibições explícitas a discursos de ódio, incitamento à violência ou conteúdos discriminatórios. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), independente desde 2005, atua como uma comissão proativa, isto é, investiga denúncias, emite deliberações públicas, aplica multas elevadas e até suspende licenças em casos graves. Em 2022, por exemplo, relatórios da ERC destacaram a manutenção de padrões éticos que garante pluralismo e responsabilidade editorial. Neste caso as estações devem ter comissões de ética internas, mas a ERC intervém sempre que necessário.
Esta estrutura protege os espetadores ao dar foco à dignidade humana sobre as audiências. Não é à toa que 80% dos portugueses ainda recorrem à TV para ver informação, acima da média europeia. E isso até dá confiança aos telespectadores de estarem num meio fiscalizado que equilibra liberdade de expressão com os deveres cívicos. Diferente das redes sociais, aqui o conteúdo é curado por profissionais responsáveis e não por algoritmos vorazes de lucro.
Nas plataformas como TikTok, Instagram, Facebook e YouTube, a história muda de figura. Não há em Portugal uma entidade única como a ERC para moderar conteúdos de ódio partilhados por utilizadores comuns. A supervisão é fragmentada: a ERC ganhou poderes limitados com a Lei n.º 12-A/2026, que transpõe o Digital Services Act (DSA) da UE e foca-se sobretudo nos anúncios e na proteção de menores; a ANACOM coordena serviços digitais; e a CNPD vigia dados pessoais. As plataformas aderem voluntariamente ao Código de Conduta+ da UE contra o discurso de ódio ilegal. No entanto, a remoção é reativa nestas plataformas, ou seja, depende das denúncias ou das ordens judiciais, o que permite que conteúdos tóxicos viralizem por engagement antes de serem apagados.
Em fevereiro de 2026, o Parlamento aprovou restrições ao acesso a menores de 16 anos (consentimento parental obrigatório a partir dos 13), com coimas até 2% do volume de negócios ou 2 milhões de euros, fiscalizadas por ANACOM e CNPD, incluindo um selo “Plataforma Segura para Crianças”. No entanto, estas regras não se aplicam aos adultos, o que a meu ver, ignora o ódio e os truques que podem ser utilizados como por exemplo, as VPNs ou contas falsas para contornar as regras. Ao expor este tipo de conteúdos, os algoritmos preferem mais os likes sobre a própria segurança dos utilizadores.
O modelo da ERC demonstra que a regulação estatal protege sem censurar excessos, mas transplantá-lo integralmente para as redes sociais globais seria utópico. As empresas como a Meta, donas do Facebook, Instagram, WhatsApp, respondem a leis americanas. Em Portugal, a fragmentação dilui a eficácia. E a lentidão reativa ignora como os algoritmos amplificam o ódio para as receitas publicitárias, ao contrário das TVs reguladas por audiências éticas.
As propostas viáveis incluem criar uma “Comissão Digital para Conteúdos” unificada sob a ERC que pode expandir-se ao DSA com IA obrigatória para detetar o ódio em português de Portugal e multas baseadas nas visualizações (não só em faturação). Campanhas educativas em escolas, por exemplo, inspiradas na RTP Ensina, e a exigência de transparência algorítmica poderiam reduzir o cyberbullying e os impactos reais. Ao integrar selos de segurança e avaliações anuais da ERC poderia ser uma forma segura dentro da UE para promover a inovação responsável e cidadania digital. Assim, poderíamos transformar os likes tóxicos em conversas construtivas e proteger Portugal num mundo cada vez mais hiperligado.
Depois de falar sobre o perigo de expor e amplificar os comentários de ódio, faz sentido dar o passo seguinte. O que podemos fazer para não alimentar esse tipo de conteúdo? A resposta não está apenas em “ignorar”, mas usar a melhor das ferramentas que as próprias redes nos dão. Desta forma estaremos a ensinar o algoritmo sobre o que queremos e, sobretudo, sobre o que não queremos ver.
As redes sociais não funcionam como um espelho neutro da realidade. Funcionam como sistemas de recomendação que aprendem com o nosso comportamento. Se paramos para ver, comentar ou partilhar conteúdo agressivo, a plataforma entende que isso é o que nos interessa. Se deixamos de interagir com esse tipo de conteúdo, ocultamos publicações, denunciamos perfis e escolhemos ver mais conteúdo de qualidade, vamos pouco a pouco reeducando o nosso feed. É um gesto pequeno, mas com impacto real.
O que o algoritmo aprende
O algoritmo não “sabe” se gostamos ou não de um conteúdo no sentido humano. Ele lê os sinais: o tempo de visualização, os cliques, os comentários, as partilhas, as reações, as pausas, as repetições. Isto significa que até uma indignação bem-intencionada pode acabar por reforçar exatamente aquilo que queremos combater.
Por isso, o uso correto das redes sociais não é apenas produzir bons conteúdos, mas também treinar o ambiente digital onde esses conteúdos aparecem. Quando escolhemos com atenção o que seguimos, o que ocultamos e o que denunciamos, estamos a dizer à plataforma que certos temas não merecem ser promovidos no nosso espaço pessoal.
Instagram: controlar o que aparece
No Instagram, o primeiro passo é usar de forma consciente as opções de “Não tenho interesse”, “Ocultar” e “Bloquear”. Quando aparecer um Reel, uma publicação ou uma sugestão que não queremos ver, basta tocar nos três pontos do canto superior direito e escolher a opção de “não mostrar mais aquele conteúdo”. Isto ajuda a plataforma a perceber que não queremos aquele tipo de publicação. Também podemos ajustar o que o Instagram recomenda. Ao irmos às definições da conta, procurar a secção de conteúdo sugerido e rever os temas que a plataforma está a usar para mostrar-nos publicações semelhantes. Se seguimos várias contas que alimentam polémicas, linguagem agressiva ou humor baseado na humilhação, vale a pena deixá-las de seguir. Não é censura. É higiene digital. Outro passo importante é usar a função de denunciar quando houver discurso de ódio, assédio ou conteúdo que ataque as pessoas ou grupos protegidos. A denúncia não resolve tudo, mas é uma forma de marcar limites e termos alguma moderação.
TikTok: afinar o feed com intenção
No TikTok, o algoritmo é especialmente rápido a aprender. Por isso, o nosso comportamento nos primeiros segundos conta muito. Se aparece um vídeo que não gostamos, podemos simplesmente manter o dedo no ecrã e escolher a opção de indicar que “não quero ver mais daquele tipo de conteúdo”. É importante fazer isto sempre que necessário, porque o TikTok usa este sinal para afinar as recomendações.
Também vale a pena rever quem seguimos e limpar a lista de contas que vivem a provocar, a insultar ou a transformar o ódio em entretenimento. No separador “Para ti”, cada vídeo que ignoramos ou recusasamos, ajuda a moldar o que vem a seguir, mas o efeito é mais forte se formos consistente das nossas escolhas.
Na prática, o TikTok responde muito bem ao comportamento repetido: quanto mais rápido dermos sinais claros sobre o que rejeitamos, mais depressa o feed muda. Se aparecer conteúdo abusivo, o botão de denúncia também deve ser usado, sobretudo quando há bullying, discriminação ou discurso de ódio dirigido a alguém.
Facebook: diminuir ruído e aumentar controlo
No Facebook, o ponto de partida é semelhante, mas há mais camadas nas configuraçõe. Nas publicações, podemos clicar nos três pontos e escolher “Ocultar publicação”, “Deixar de seguir” ou “Ver menos”. Isto é útil porque muitas vezes o problema não é uma única publicação, mas uma sequência de conteúdos inflamados que o feed vai repetir.
Também podemos rever as preferências do feed, e dar prioridade a amigos, páginas e grupos que tragam conteúdo útil. Assim, permite reduzir a exposição a páginas que vivem de polémicas, ataques ou desinformação. Se participamos nos grupos onde o ódio circula com normalidade, sair desses grupos pode ser uma decisão importante. Além disso, o Facebook permite denunciar publicações e perfis. Sempre que houver incitação ao ódio, ameaças ou assédio, este é o caminho correto. E, no caso de páginas ou grupos recorrentes, bloquear e deixar de seguir ajuda a cortar o ciclo de repetição.
Hábitos que mudam o feed
Usar bem as redes não é só mexer em botões. É também criar hábitos. Seguir as contas que informam bem, que educam, que contextualizam e que não vivem da raiva, muda a qualidade do nosso ambiente digital. O mesmo acontece quando se começa a evitar o impulso de abrir tudo o que nos irrita. Muitas destas redes sociais recompensam a reação emocional, mesmo quando ela é negativa. E por isso o autocontrolo também é uma ferramenta tecnológica.
Outra prática simples é limpar regularmente o histórico de interesses, rever as contas seguidas e pensar no teu feed como um espaço que podes curar. O objetivo não é criar uma bolha perfeita ou artificial, mas sim uma bolha mais consciente, onde o ódio não tenha tanta facilidade em entrar e crescer. Se o conteúdo é o alimento do algoritmo, então a nossa atenção também o é. E isso dá-nos algum poder.
Educação digital como proteção
Aprender a usar estas ferramentas e funções é uma forma de literacia digital. Não se trata apenas de saber navegar na aplicação, mas de compreender a lógica do que está por trás dela. Quando uma pessoa entende que o algoritmo não distingue bem entre os interessess da indignação, começamos a perceber porque é que dar palco ao ódio pode ser contraproducente.
É por isso que falar sobre as redes sociais deve incluir sempre uma dimensão prática. O que fazer, onde carregar, que opção escolher, como reduzir a exposição. Essa parte é importante porque transforma a reflexão na ação. E, no fundo, combater o ódio online também passa por isto, escolher com cuidado aquilo que deixamos crescer no nosso espaço digital.
Durante muito tempo, a ideia de trabalhar “apenas” oito horas por dia pareceu quase utópica. Na Revolução Industrial, era comum que os homens, as mulheres e até as crianças passassem 10, 12, 14 ou mais horas nas fábricas, em condições duras e com pouca proteção jurídica. O caminho de oito horas nasceu, portanto, não como um detalhe administrativo, mas como uma conquista social ligada à luta pela dignidade, pela saúde e pelo tempo de vida fora do trabalho.
A origem desta reivindicação costuma estar associada ao movimento operário do século XIX, com raízes nas ideias anteriores sobre o bem-estar, o descanso e a justiça social. Robert Owen, por exemplo, já defendia a redução do tempo de trabalho e o lema “oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito horas de descanso”. Mais tarde, a Internacional of Workers tornou como regra o trabalho laboral de oito horas. E a pressão sindical e política acabou por transformar essa ideia numa legislação em vários países. Isto mostra que o horário de oito horas não surgiu por eficiência espontânea do mercado, mas por um conflito social, uma mobilização coletiva e uma mudança institucional.
Porque é que este horário venceu?
A jornada de oito horas não foi apenas uma vitória moral; foi também uma resposta prática a um modelo económico que explorava o corpo até ao limite. Quando o trabalho era excessivo, o cansaço aumentava, os erros, os acidentes e a deterioração da saúde física e mental também. Com o tempo, tornou-se claro que reduzir horas podia preservar a capacidade de trabalho, melhorar a vida familiar e diminuir o desgaste humano.
Ao longo do século XX, esta ideia consolidou-se em normas internacionais e na legislação laboral que incluiu padrões definidos pela Organização Internacional do Trabalho. Em Portugal, a regra atual do trabalho a tempo inteiro está fixado nas 8 horas por dia e 40 horas por semana e que reflete esta herança histórica e jurídica. Ou seja, a jornada de oito horas não é natural nem eterna; é uma construção histórica relativamente recente, ligada a uma determinada fase do capitalismo industrial.
O que a ciência diz hoje
A investigação contemporânea reforça algo que os movimentos laborais intuíam há muito: trabalhar em excesso faz mal. A OMS e a OIT concluíram que trabalhar 55 horas ou mais por semana está associado a um risco mais elevado de acidente vascular cerebral e à doença cardíaca isquémica. E estimaram centenas de milhares de mortes ligadas a esse padrão de sobretrabalho. Isto reflete o conhecimento que sabemos sobre o tempo de trabalho e dá uma base sólida nas políticas de saúde pública, e não apenas de política laboral.
Ao mesmo tempo, os dados sobre semanas mais curtas são cada vez mais interessantes. Em vários projetos-piloto da semana de quatro dias, foram observadas reduções de stress, menos sintomas de burnout, menos absentismo e elevada adesão das organizações à continuidade do modelo. Estes resultados não significam que todas as profissões possam adotar a mesma fórmula, mas sugerem que o problema central não é “trabalhar menos” em abstrato; é organizar melhor o trabalho, com menos desperdício de tempo e mais foco no valor produzido.
O futuro do trabalho
O futuro do trabalho parece apontar para menos obsessão com a presença e mais atenção aos resultados, à saúde e à flexibilidade. A tecnologia, a automação e a digitalização já aumentaram a produtividade em muitos sectores, mas esse ganho nem sempre se traduziu em mais tempo livre para as pessoas. Por isso é que vemos uma crescente discussão sobre semanas de 35 horas, 37,5 horas ou quatro dias de trabalho, sobretudo nos países que querem conciliar competitividade económica com o bem-estar social.
O que está em causa não é apenas “trabalhar menos”, mas repensar o próprio contrato social do emprego. As jornadas mais curtas podem favorecer o sono, a saúde mental, a vida familiar, a participação cívica e a aprendizagem contínua, ao mesmo tempo que ajudam a reduzir o burnout e a rotatividade. Ainda assim, o futuro provavelmente será desigual: alguns sectores adotarão horários mais flexíveis e curtos, enquanto outros continuarão presos a turnos e exigências operacionais difíceis de automatizar. O grande desafio será evitar que a flexibilidade sirva apenas para intensificar o trabalho, em vez de o tornar mais humano.
O que podemos refletir hoje?
A história das 8 horas ensina-nos que o tempo de trabalho é uma escolha social, não uma lei da natureza. Cada geração decide, em certa medida, quanto da vida quer entregar ao emprego e quanto quer reservar para descanso, para a família, para a saúde, para o estudo e para a cidadania. É por isso que o debate atual sobre a redução de horário não é uma moda. É a continuação de uma longa disputa sobre o que significa viver bem.
Se no século XIX a pergunta era “como proteger as pessoas da exploração?”, hoje a pergunta pode ser “como organizar o trabalho sem sacrificar a vida?”. A resposta mais plausível parece combinar evidência científica, inovação organizacional e coragem política. O futuro do trabalho não será medido apenas na produtividade, mas na qualidade de vida que consegue devolver às pessoas.
Há uma parte de mim que sabe exatamente o que quer dizer, mas há outra que tropeça no momento em que é preciso dizer. Não porque eu não tenha palavras. Não porque eu não sinta com intensidade. Mas porque, sendo autista, a minha comunicação tende a ser mais direta, mais literal e menos treinada para este jogo subtil de sinais, insinuações e “climas” que tantas pessoas parecem dominar sem esforço.
Quando gosto de alguém, isso não me simplifica a comunicação, complica-a. A presença do interesse aumenta a consciência de tudo. Do que eu digo, do que eu não digo, do que pode soar demasiado frontal, do que talvez devesse ter sido dito com mais leveza. E, ao mesmo tempo, a ansiedade cresce. O que para as outras pessoas pode ser uma pequena conversa de aproximação, para mim pode transformar-se num campo minado de interpretação, hesitação e medo de falhar.
Uma das dificuldades mais frustrantes que tenho é precisamente esta sensação de saber a teoria e falhar na prática. Posso compreender como as relações se constroem, posso ler sobre a reciprocidade, a intimidade, a comunicação e o vínculo, mas, no momento real, a experiência é outra. A literatura mostra que muitos autistas desejam relações românticas tanto quanto os seus pares não autistas, mas enfrentam mais dificuldades na iniciação e na manutenção dessas mesmas relações, sobretudo quando a comunicação social é tratada como algo automático, quando na verdade não o é.
Durante muito tempo, fizeram-nos acreditar que o problema estava apenas em nós. Hoje, a investigação sugere uma visão mais justa: o chamado double empathy problem. Este nome pomposo mostra que muitas falhas de compreensão são bidirecionais, que emerge da diferença entre formas de perceber, interpretar e responder ao mundo social. Em vez de pensar “eu comunico mal”, talvez seja mais exato dizer: “eu comunico de forma diferente, num contexto que nem sempre as pessoas sabem receber essa diferença”.
Ainda assim, saber isto não elimina a angústia. Porque a teoria ajuda-me a compreender, mas não me protege do desconforto de estar interessado em alguém e sentir que falta-me a gramática relacional que aproxima as pessoas sem esforço aparente. Fico preso entre o desejo de ser autêntico e o medo de ser “demasiado direto”, “demasiado intenso” ou “demasiado eu”. E essa tensão pode ser muito pesada, porque o que está em jogo não é apenas uma conversa: é a possibilidade de ser visto, de ser aceite e de ser compreendido.
Talvez uma parte importante do meu caminho seja esta. Compreender que criar um vínculo não exige encenar alguém que não sou. Exige, sim, encontrar formas mais seguras e mais claras de me aproximar, sem tentar imitar uma espontaneidade que não me pertence. Estudos sobre as relações românticas em pessoas autistas aponta precisamente para o valor da comunicação explícita, do apoio do outro e do reconhecimento das necessidades específicas de cada pessoa. Ou seja, eu não preciso de me tornar menos autista para amar melhor. Preciso, sim, de aprender a comunicar com mais suporte, mais intenção e menos autocrítica.
E talvez seja isso que me angustia mais. A distância entre o que sinto e a forma como consigo mostrar e não tanto o sentimento em si. Entre a intensidade interna e a expressão externa. Entre a vontade de aproximar-me e o receio de não saber construir esse primeiro clima. Mas a verdade é que uma relação não começa só com frases perfeitas. Começa também com honestidade, com tempo e com a coragem de existir sem nenhuma máscara, mesmo quando a prática ainda deixa muito a desejar.
Numa altura em que passamos tanto tempo dentro das redes sociais, é fácil tratar comentários de ódio como “ruído de fundo” ou como “só uma brincadeira”. Mas, na prática, o que estamos a fazer ao mostrar, repetir e amplificar esses comentários é ensinar o nosso cérebro e o dos outros a naturalizar o ódio dentro das redes em que vivemos online. E isso não é neutro. Tem um efeito psicológico, social e até político muito concreto.
Como as redes se tornam bolhas de ódio
As redes sociais não são “espaços públicos neutros”. Elas funcionam muito como bolhas. O algoritmo aprende o que tu reagiste, o que tu comentaste, o que tu partilhaste e vai te mostrar cada vez mais coisas parecidas. Quando começamos a ver, a partilhar ou a comentar vídeos a partilhar mensagens de ódio, ainda que seja para “mostrar o que está a acontecer”, o algoritmo interpreta isso como um envolvimento com aquele tipo de conteúdo.
O resultado é que, dentro da tua bolha social, o discurso tóxico começa a parecer mais presente, mais “normal” e até mais aceitável. As pessoas não percecionam que estão a ver apenas uma parte muito distorcida do mundo, e acabam por tratar o ódio como algo que devia ser “tolerado” ou, pior, como uma forma legítima de humor.
Porque expor comentários de ódio pode ser perigoso Quando alguém mostra comentários de ódio para “protestar” ou “expor” aquilo que está a acontecer, a intenção muitas das vezes é defender a vítima, condenar a agressão ou alertar a comunidade. O problema é que, ao fazer isso, também se dá visibilidade e energia a quem produziu esse ódio. Estudos sobre a exposição ao discurso de ódio online mostram que a mera exposição repetida a este tipo de conteúdo está associada a um pior bem‑estar psicológico, uma maior sensação de ansiedade, de desconforto e até de desconfiança nas relações sociais. Em vez de descredibilizar o ódio, este tipo de exposição pode acabar por normalizá‑lo, porque a pessoa que comete o ataque percebe que isso gera atenção, reações e, às vezes, até “fama” dentro da bolha.
A ilusão de que “foi só uma brincadeira” Uma das justificações mais frequentes dentro destas bolhas sociais é a de que “foi só uma brincadeira” ou que “não era para levar a sério”. Esta ideia é perigosa porque tenta disfarçar comportamentos agressivos, homofóbicos, racistas ou sexistas como humor inofensivo, seja para quem o pratica, seja para quem expõe/protesta.
Mas, psicologicamente, o que acontece é bem diferente do que se pensa. Quem lê múltiplas vezes mensagens deste tipo começa a incorporar, ainda que inconscientemente, uma sensação de que esse tipo de discurso é aceitável, que o alvo era “merecedor” ou que “não é grande coisa”. Essa normalização é silenciosa, mas muito eficaz. Fragiliza a empatia, reduz a capacidade de reparar no sofrimento do outro e desresponsabiliza quem perpetua o discurso.
Porque não é o mesmo “expôr” que combater Quando se expõe um comentário de ódio, há duas narrativas possíveis: 1) o foco está na vítima, na contextualização, na explicação do que aquilo significa e em como se pode combater esse tipo de discurso; 2) ou que o foco acaba centrado no agressor, no seu “wit”, na polémica ou na sua viralização. Muitas das vezes e sem querer, escolhemos a segunda. Ao dar tanto destaque ao comentário, à pessoa que o escreveu ou ao seu “humor”, acabamos por reforçar exatamente o que tentamos condenar. E quem lê, em vez de se sensibilizar para o problema, pode acabar a mimetizar o tom, o estilo de linguagem ou até a lógica de atacar o outro.
O que podemos fazer para não alimentar o ódio? Isto não significa que nunca devamos falar dos comentários de ódio. Pelo contrário, é importante que o falemos mas com intenção, cuidado e estratégia.
A) Pode‑se falar do fenómeno, sem necessariamente copiar‑e‑colar o comentário na íntegra. B) Pode‑se explicar o contexto, o impacto psicológico e social, em vez de se centrar na narrativa do agressor. C) Pode‑se usar as mesmas ferramentas da rede social para promover mensagens de respeito, empatia e apoio.
A investigação científica mostra claramente que a exposição aos conteúdos negativos e agressivos nas redes sociais é um fator de risco para o bem‑estar emocional, enquanto a exposição a mensagens de apoio e solidariedade tende a ter efeitos mais positivos. O que quero dizer é que temos algum poder para escolher que tipo de perspetiva e bolhas queremos alimentar.
Uma nota final, sem querer descredibilizar ninguém Dizer isto não é desvalorizar o conteúdo de milhares de influencers, nem querer calá-los. Muito pelo contrário. Apenas quero mostrar que é necessário reconhecer que o que se faz tem impacto, e que esse impacto pode ir por outras direções para além do que se pretende. Também não quero dizer que se faça “censura” ou “cancelamento”. Apenas que devemos reconhecer que podemos fazer escolhas mais conscientes e pensar: “o que é que realmente estamos a reforçar quando expômos estes comentários de ódio?
A entrada da Mental Health Act 2025 no Reino Unido sinaliza mais do que uma revisão legislativa. Revela uma mudança estrutural na forma como o cuidado na saúde mental é conceptualizado, distribuído e legitimado. No centro desta transformação está uma deslocação de poder, isto é, do eixo hospitalar e estatal para uma lógica mais difusa, onde as comunidades, as associações e as redes locais passam a assumir um papel ativo na organização do cuidado.
Esta descentralização não é apenas administrativa; é epistemológica. Ao introduzir a figura do “Responsável Comissionado”, a lei redefine quem decide, quem coordena e, sobretudo, quem é responsabilizado pelo percurso terapêutico. O cuidado deixa de ser exclusivamente um produto institucional para passar a ser um processo relacional, ancorado em contextos sociais concretos. Neste enquadramento, o autismo e a deficiência intelectual deixam progressivamente de ser lidos como condições que justificam internamento. E são reposicionados enquanto realidades que exigem suporte continuado, integração e adaptação comunitária.
Este reposicionamento traz implicações relevantes, particularmente quando observado a partir de Portugal. A existência de uma comunidade portuguesa significativa no Reino Unido torna estas mudanças mais do que um exercício teórico. A criação de registos de pessoas em risco de internamento, bem como a aposta em mecanismos de vigilância preventiva e revisão periódica dos cuidados, aponta para uma tentativa de antecipação. Uma lógica que privilegia a intervenção antes da crise, em vez da resposta reativa. Ao mesmo tempo, a ênfase dos planos individualizados e culturalmente ajustados sugere uma aproximação a modelos mais centrados na pessoa, ainda que a sua implementação concreta permaneça dependente de variáveis institucionais e recursos disponíveis.
No entanto, esta redistribuição de poder levanta uma tensão inevitável entre a autonomia e a responsabilização. Se, por um lado, a transferência de competências para associações e redes informais pode promover uma maior proximidade, flexibilidade e humanização do cuidado, por outro, desloca também para estes contextos, uma carga significativa de gestão, decisão e accountability. A autonomia, neste sentido, não é neutra: implica trabalho, recursos e capacidade organizativa. É precisamente aqui que emerge uma das fragilidades desta reforma. Sem o financiamento adequado e sem as estruturas de suporte robustas, existe o risco de que esta descentralização produza assimetrias. Não apenas entre regiões, mas entre indivíduos com diferentes níveis de suporte familiar e comunitário. A responsabilização das famílias e das organizações locais pode transformar-se, na prática, numa forma indireta de desinvestimento estatal, onde o discurso da autonomia mascara a transferência de encargos.
Assim, a Mental Health Act 2025 revela-se numa tensão clássica das políticas de saúde mental contemporâneas. Uma tentativa de conciliar direitos, liberdade e integração com a necessidade de garantir suporte efetivo e equitativo. A sua capacidade transformadora é inegável, mas a sua eficácia dependerá menos da arquitetura legal e mais da forma como será operacionalizada no terreno. Entre a promessa de um cuidado mais humano e o risco de sobrecarga invisível, o que está verdadeiramente em jogo é a capacidade de construir sistemas que não apenas descentralizam, mas que sustentam essa descentralização de forma ética e consistente.
Durante anos, foi repetida no debate público, como se de uma verdade absoluta se tratasse, a afirmação de que 60% a 90% dos jovens que se identificam como trans acabariam por “desistir” dessa identidade. Este dado converteu-se em várias correntes políticas que defendem restrições ao acesso a cuidados de saúde transespecíficos ao utilizar a suposta “instabilidade” da identidade juvenil como justificação para travar, atrasar ou, em casos extremos, patologizar a transição.
No entanto, uma nova análise da Virginia Commonwealth University, publicada muito recentemente (Abril, 2026) na revista Psychology of Sexual Orientation and Gender Diversity, expõe a fragilidade deste argumento. Ao analisar 11 estudos clássicos frequentemente citados e cinco investigações recentes, os investigadores demonstraram que a taxa de “desistance” (termo cunhado pelos investigadores) não é um valor fixo, e que varia entre 0% e 100% consoante a interpretação dos dados. Muitos dos estudos antigos, realizados antes de 1990 e com amostras diminutas, utilizavam metodologias que confundiam a falta de resposta dos participantes com a renúncia à identidade. A investigação conclui, assim, que não estamos perante uma certeza científica, mas sim perante uma interpretação enviesada de números que serviram, durante décadas, para justificar ideologias de controlo.
Esta discussão ganha contornos particulares em Portugal, onde o debate sobre as terapias de conversão, práticas abusivas já proibidas por lei por representarem uma forma de violência psicológica é constantemente contornado por discursos políticos conservadores. Recentemente, vimos no Parlamento, através de intervenções do PSD, Chega e CDS-PP, tentativas de reverter a Lei da Autodeterminação de Género. O argumento utilizado é frequentemente o da “prudência clínica” ou da “proteção de menores”. Na prática, esta retórica procura alargar a definição de “terapia de conversão” para incluir, paradoxalmente, a proibição de cuidados afirmativos e a reintrodução de barreiras médicas à identidade de género.
Ao confundir o acompanhamento psicológico afirmativo (que visa o bem-estar e a exploração segura da identidade) com práticas coercivas de mudança de orientação ou identidade, estes discursos políticos não pretendem proteger ninguém. Pretendem, sim, recentrar o Estado numa lógica de vigilância e autorização clínica da identidade que trata a transição não como um percurso legítimo de autonomia, mas como um fenómeno a ser vigiado ou “corrigido”.
A ciência, quando usada com rigor, mostra-nos que o medo não é um guia apropriado para a legislação. A autora principal do estudo, Catherine Wall, recorda que devemos confiar na ciência precisa para orientar o Direito, e não o contrário. Em Portugal, é muito importante separar o debate técnico do populismo: proteger os direitos das pessoas trans é incompatível com a manutenção das narrativas que ignoram a evidência científica para perpetuar o estigma. Criar contextos seguros exige abandonar a ideia de que a identidade é um problema a resolver e passar a focar-nos em como podemos garantir a dignidade, a autonomia e o acesso a cuidados de saúde baseados na evidência e no consentimento.
Durante muito tempo, falar do cérebro foi quase como descrever uma máquina fixa, pronta, imutável. Como se fôssemos produtos de fábrica, com circuitos que já vinham desenhados de raiz e que não podiam mudar. Hoje, a ciência da neuroplasticidade veio lembrar‑nos que o cérebro é, antes de mais, um organismo vivo, em constante adaptação. A neuroplasticidade é a capacidade do cérebro de criar novas ligações entre neurónios, reforçar ou eliminar caminhos existentes e rearranjar funções de acordo com a experiência, o aprendizado, o treino e o ambiente.
Isto significa que o cérebro não é feito de concreto, mas de algo que se molda. Cada vez que aprendemos algo novo, repetimos uma tarefa, enfrentamos uma emoção difícil ou praticamos uma habilidade, estamos literalmente a “reconfigurar” partes do nosso cérebro. Resistir a essa mudança e a forçar‑nos a repetir os mesmos padrões sem consciência, leva a que certos circuitos sejam sobrecarregados; já quando nos damos tempo, descanso e apoio, permitimos que se formem novos caminhos, mais funcionais e mais ajustadas às nossas necessidades.
Esta ideia diz muito sobre a minha própria experiência. Como uma pessoa no espectro do autismo, sempre senti que a minha forma de processar o mundo exigia um esforço extra de negociação interna. Ouve‑se muito falar em “adaptar‑se ao mundo”, mas, para muitos neurodivergentes, isso implica um desgaste constante, porque o cérebro já funciona de forma diferente desde o início. A neuroplasticidade não significa que devemos “consertar” essa diferença, mas que podemos aprender a habitá‑la de forma mais consciente e menos dolorosa.
Percebo agora que, ao longo do tempo, o meu cérebro criou atalhos próprios: formas de filtrar ruído sensorial, estratégias para gerir a sobrecarga social, rotinas que ajudam a manter a previsibilidade. Muitas dessas adaptações foram feitas de forma automática, antes mesmo de eu ter consciência de que eram resultado de uma lenta reorganização neural. A neuroplasticidade mostra‑me que não sou um erro de funcionamento, mas um sistema diferente que se reformulou para sobreviver. E o mais importante: que este sistema ainda pode continuar a mudar, sem perder a sua essência.
A mudança não é instantânea, nem mágica. A neuroplasticidade funciona melhor quando existe repetição, motivação, atenção e condições favoráveis. Como por exemplo, o descanso, o sono de qualidade e um contexto emocionalmente seguro. Para mim, isso significa um ritmo de vida mais lento, mais respeitoso. Não forçar‑me a mudar “porque é isso que se faz”, mas observar onde o esforço é exaustivo e onde é possível treinar, pouca coisa de cada vez, com paciência e sem autocrítica. Aprender a reconhecer sinais de sobrecarga, a escolher ambientes menos agressivos e a aceitar que o descanso também é parte do processo de desenvolvimento é, para mim, uma forma concreta de honrar a plasticidade do meu cérebro. A neuroplasticidade também ajuda-me a perceber que não estou preso a uma versão fixa de mim mesmo. Há quem pense que a neurodivergência é apenas uma “limitação” ou uma “patologia”, mas a ciência mostra‑me outra coisa. O cérebro de uma pessoa autista pode ser diferente, mas continua a ser capaz de aprender, de reparar, de reorganizar e de crescer. A diferença não elimina a plasticidade; apenas exige que a mudança aconteça de um modo mais específico, mais respeitoso e mais alinhado com a minha forma de estar no mundo.
No fundo, a neuroplasticidade devolve‑me algo que o mundo neurotípico muitas vezes tenta tirar. A possibilidade de ser diferente e, ainda assim, ter direito ao crescimento. Não porque tenha de me tornar mais “normal”, mas porque o meu cérebro também se reinventa, também se adapta, também se reformula. E isso, para mim, não é apenas ciência. É uma forma de aceitação, de autoestima e de dignidade. A neuroplasticidade é o meu maior aliado para lembrar que posso mudar, evoluir, recomeçar, sem nunca ter de apagar quem eu sou em nome de uma imagem de “normal” desenhada pelos outros.
Na série Machos Alfa (Netflix) que já conta com 5 temporadas e dirigida por Laura Caballero, acompanha um grupo de homens que tenta reconstruir uma versão radicalizada de masculinidade, baseada nos padrões de poder, dominação e de controlo. No meio desse cenário, surge uma personagem masculina que começa a confrontar a sua própria sexualidade quando se vê atraído por outro homem, sem, porém, se identificar claramente como gay ou bissexual. Nesse momento, a personagem usa a expressão “hetero‑flexível” para descrever a sua experiência: alguém que continua, de grosso modo, dentro de uma identidade heterossexual, mas que admite espaço para o desejo ou a curiosidade por pessoas do mesmo sexo.
Do ponto de vista psicológico, esse momento é especialmente rico. A personagem não está a “trocar de equipa” entre heterossexualidade e homossexualidade, mas a atravessar um espaço limiar, onde a experiência sexual não se encaixa facilmente nos rótulos tradicionais. A série mostra, quase por acidente, que a sexualidade humana pode ser mais fluida do que a cultura de identidade rígida costuma admitir. E que sentir atração por alguém que não corresponde à própria identidade romântica principal não é um sinal de confusão, mas uma experiência possível e digna de acolhimento.
Orientação sexual e orientação romântica: dois eixos diferentes Na psicologia, é cada vez mais comum distinguir entre orientação sexual e orientação romântica. A orientação sexual diz respeito sobretudo àquilo que desperta atração sexual (e às vezes emocional) por determinados géneros ou identidades de géneros, como nos casos de heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade ou pansexualidade. Já a orientação romântica refere‑se à forma como a pessoa se sente afetivamente ligada, isto é, com quem imagina construir vínculos de amor, intimidade, compromisso e apego, independentemente da intensidade do desejo sexual.
Esta distinção é importante porque, na prática, nem sempre aquilo que excita sexualmente coincidirá com aquilo que a pessoa deseja viver romanticamente. Por exemplo, alguém pode sentir desejo sexual por homens e, ao mesmo tempo, sentir-se mais inclinado a construir relações amorosas com mulheres. Do mesmo modo, há pessoas que sentem claramente para quem se apaixonam, ainda que o desejo sexual seja fraco, ausente ou dirigido para outro género. Em contextos de asexualidade, essa diferença entre sexual e romântico é especialmente visível e bem documentada na literatura.
Quando desejo sexual e vínculo romântico não coincidem Estudos recentes mostram que, embora a orientação sexual e a orientação romântica sejam frequentemente concordantes, não são automaticamente iguais. Em muitos casos, a pessoa sente atração sexual e romântica pelo mesmo género, mas isso não é uma regra universal. Em amostras de pessoas asexuais, por exemplo, a concordância entre atração sexual e romântica é significativamente menor do que em pessoas alossexuais, o que indica que esses dois eixos podem seguir trajetórias distintas.
Este dado é importante para desmistificar a ideia de que, se alguém sente desejo por um género mas se apaixona por outro, isso significa “confusão” ou “falta de clareza”. Pelo contrário, a investigação sugere que o desejo sexual e o vínculo romântico são sistemas relacionais que se influenciam, mas que podem também organizar-se de forma autónoma. Em termos clínicos, isso significa que uma pessoa pode sentir-se atraída sexualmente por homens, mas experienciar atração romântica por mulheres, sem que isso implique patologia, indecisão ou “falta de consequência” na sua identidade.
“Sinto desejo por homens, mas amor por mulheres”: é válido? Por exemplo, uma pessoa que sente desejo sexual por homens, mas um amor ou uma atração romântica por mulheres, a literatura em psicologia e diversidade sexual apoia que essa experiência é válida e coerente com os atuais modelos contemporâneos de sexualidade. A pessoa pode, por exemplo, descrever‑se como: • sexualmente bissexual ou pansexual, se sentir desejo por homens e mulheres, • e romanticamente hetero ou birromântica, se sentir desejo de vínculo afetivo predominantemente com mulheres ou com mais de um género.
Modelos de saúde e de orientação LGBTQIAPN+ enfatizam que a sexualidade humana deve ser compreendida pelo menos em três dimensões:
atração (sexual e/ou emocional),
comportamento (com quem a pessoa se relaciona sexual e romanticamente),
identidade (como a pessoa se nomeia).
Essas dimensões não precisam de coincidir perfeitamente para que a experiência seja autêntica. A cultura, a comunicação social e a educação sexual muitas das vezes reforçam a ideia de que, se alguém sente desejo por homens, deve automaticamente se reconhecer como gay ou bissexual, ou que, ao sentir-se apaixonado por mulheres, deve ser “inteiramente hetero”. A realidade, no entanto, é mais complexa do que parece: a pessoa pode sentir desejo sexual por homens e, ao mesmo tempo, construir relações de amor profundo com mulheres, sem que isso seja contraditório ou menos legítimo.
Eu sempre tive um fascínio pelo espaço, pelos mistérios que ainda não conseguimos explicar e pela possibilidade de que, algures lá fora, existam formas de vida completamente diferentes daquela que conhecemos. Este interesse cruza‑se com outra paixão: o cinema, especialmente a ficção científica, que tenta equilibrar a imaginação e a plausibilidade científica. E é nesse cruzamento entre a curiosidade pelo cosmos, pelo que são “alienígenas” e pela forma como o cinema os retrata, que o filme Projeto Hail Mary é um dos meus filmes preferidos.
Trata‑se de um tipo de filme que vai além da simples aventura espacial. É uma história de sobrevivência, de ciência e de cooperação entre espécies com biologias e culturas radicalmente distintas. Mas que exigem precisamente o tipo de rigor científico que cativa quem gosta de pensar “e se?” em vez de simplesmente aceitar clichés. Para alguém com interesse nas ciências, especialmente por astrobiologia e como a vida pode surgir em condições diferentes, este filme funciona como um laboratório visual de ideias sobre o que pode existir no universo, muito para além do que a Terra nos ensinou até hoje. Do ponto de vista neurodivergente que sou, a relação entre Ryland Grace e o seu companheiro lembra‑me também a forma como as mentes e as comunidades diferentes podem, por vezes, parecer completamente inacessíveis. E no entanto, através da paciência, da lógica e de muita tentativa e erro, conseguimos encontrar um modo que nos compreendam.
Do espaço de ficção à ciência: Projeto Hail Mary e a vida além da água
No início de 2026, o filme Projeto Hail Mary (Project Hail Mary) estreou nos cinemas com a assinatura de Phil Lord e Christopher Miller e com Ryan Gosling no papel de Ryland Grace. Um cientista que acorda numa nave espacial a anos‑luz da Terra, sem memória e com a missão de salvar o Sol de uma substância misteriosa. Ao longo do filme, a narrativa joga com a ideia de biologias alienígenas totalmente diferentes das conhecidas na Terra e introduz criaturas e formas de vida baseadas em químicas alternativas que inclui seres que não se alimentam nem se reproduzem como nós. Não quero alongar muito mais para quem não viu e tem curiosidade de ver.
O que impressiona no Projeto Hail Mary é precisamente essa mistura: uma aventura espacial de grande escala combinada com especulações científicas realistas sobre como a vida pode existir em condições extremas. A amizade improvável entre Grace e Rocky serve como uma metáfora: a ciência moderna já começa a encarar a possibilidade de vida extraterrestre, não como uma versão “dobrada” da vida terrestre, mas como algo fundado em químicas diferentes, talvez até sem água como solvente central.
Vida extraterrestre sem água: ficção ou futuro científico?
Os estudos mais recentes mostram que certos líquidos iónicos tais como os sais líquidos formados a partir de ácidos sulfúricos e compostos orgânicos, podem existir em planetas rochosos quentes ou com pressão atmosférica muito baixa. Esses materiais criam ambientes onde os processos metabólicos simples podem ocorrer mesmo sem água líquida. Em vez de se presumir que “vida = água”, os cientistas como Rachana Agrawal (MIT) sugerem uma definição mais ampla: o que interessa é a presença de um líquido capaz de suportar reações químicas complexas e não necessariamente H₂O. A possibilidade de a vida utilizar solventes alternativos convida-nos a repensar a zona de habitabilidade planetária. Planetas que antes eram considerados “inóspitos”, como Vénus ou certos exoplanetas quentes, poderão afinal ser menos improváveis de albergar vida do que se pensava. E, curiosamente, é aqui que o cinema de ficção científica, como o Projeto Hail Mary, acaba por antecipar o debate científico. Ao imaginar formas de vida que não se baseiam em carbono, oxigénio e água, o filme convida o público a questionar o que é, de facto, “vida” no universo.
Entre o cinema e a astrobiologia
O Projeto Hail Mary funciona como um espelho entre a fantasia e a ciência: enquanto o enredo é claramente ficção, o seu núcleo científico, isto é, os organismos alienígenas, as biologias alternativas e a possibilidade de cooperação entre espécies diferentes, estão cada vez mais alinhados com o que a astrobiologia está a discutir atualmente. A ideia de que a vida pode existir em ambientes sem água como por exemplo, os líquidos exóticos como solventes, é ainda uma hipótese em estudo, mas já é suficientemente sólida para aparecer em artigos científicos e em reportagens de divulgação.
Para quem gosta de pensar sobre a neurodiversidade, a comunicação interespécies e os modos de vida diferentes, o filme recorda‑nos de que “normal” é sempre uma construção social, seja cá na Terra ou algures lá fora no espaço. A forma como Grace e Rocky constroem uma linguagem comum, com base na lógica, na repetição e nos pequenos acertos, é uma espécie de analogia visual para o que tantas vezes acontece entre pessoas neurodivergentes e neurotípicas: a necessidade de criar novos códigos de comunicação, em vez de assumir que existe um único modo “natural” de perceber o outro.
A notícia sobre a abertura de uma clínica em Portugal dedicada a pessoas autistas, com um investimento relevante e que aposta numa intervenção comportamental, merece mais do que uma leitura rápida e entusiasmada. À primeira vista, pode parecer apenas mais um sinal de resposta às necessidades de famílias que procuram apoio. Mas, quando o tema é o autismo, convém fazer a pergunta que quase nunca vem primeiro: que modelo de intervenção está a ser promovido, com que objetivos e a que custo para a própria pessoa autista?
É nesse contexto que a ABA (Applied Behavior Analysis) volta ao centro do debate. Esta abordagem é frequentemente apresentada como uma terapia “baseada em evidência”, focada na aprendizagem de competências, na autonomia e na redução de comportamentos considerados problemáticos. Essa descrição não é falsa. O problema é que ela é incompleta. E, no autismo, aquilo que fica de fora da descrição pode ser precisamente o mais importante.
O que a ABA promete
A ABA assenta nos princípios da análise do comportamento e é usada num contexto de autismo para ensinar a linguagem, as rotinas, as competências sociais e os comportamentos funcionais. Existem estudos e meta-análises que sugerem benefícios nalguns domínios do desenvolvimento, sobretudo quando a intervenção é precoce, intensiva e prolongada. Em determinadas amostras, foram observadas melhorias na linguagem, no funcionamento intelectual, nas competências adaptativas e socialização (Sandbank et al., 2020; Reichow et al., 2018).
Isto significa que a ABA deve ser descartada? Não necessariamente. Significa, isso sim, que ela não pode ser apresentada como uma solução neutra, universal e automaticamente benéfica para todas as pessoas autistas. A própria literatura científica mostra que os resultados variam bastante: que os estudos têm limitações metodológicas e que a confiança na evidência nem sempre é tão sólida como o discurso público faz parecer (Reichow et al., 2018).
O que a evidência também mostra
A ciência não se resume aos estudos que produzem títulos positivos. Quando se olha com atenção para a literatura, percebe-se que a grande questão não é apenas se há ganhos comportamentais. A questão é se esses ganhos traduzem numa vida melhor para a pessoa autista. E aqui entram dúvidas muito sérias. Uma revisão sistemática e meta-análise recente mostrou que a certeza da evidência para vários desfechos da ABA continua a ser muito baixa, incluindo interação social, comunicação verbal e não verbal e estereotipias. Em termos simples: há sinais do potencial benefício, mas a robustez da evidência ainda é limitada em vários pontos. Isto obriga a prudência, sobretudo quando a ABA é promovida como se fosse uma resposta definitiva para o autismo.
Ao mesmo tempo, o autismo é uma condição muito mais diversa do que muitas abordagens deixam transparecer. A sua prevalência global ronda aproximadamente 1%, com variações entre regiões e critérios diagnósticos, e com uma subidentificação persistente em raparigas e mulheres. Essa diversidade clínica importa porque torna improvável que uma única abordagem funcione da mesma forma para todos os perfis autistas (Zeidan et al., 2022).
Masking: quando parecer bem custa demasiado
Talvez a parte mais importante desta discussão seja o fenómeno do masking ou camuflagem social. Muitas pessoas autistas aprendem, ao longo da vida, a esconder traços do seu funcionamento para adequarem-se às expectativas sociais: forçam o contacto ocular, controlam os movimentos repetitivos, ensaiam as respostas, imitam expressões e tentam parecer menos “diferentes”. Isto pode trazer aceitação momentânea, mas também tem um preço alto.
A revisão de Cage e Troxell-Whitman (2019) mostra que a camuflagem nos adultos autistas está associada a ansiedade, a depressão, a fadiga e ao impacto negativo na saúde mental. Ou seja, o sofrimento não desaparece: apenas torna-se menos visível. É exatamente aqui que a crítica à ABA ganha força: se uma intervenção incentiva a pessoa a suprimir sinais autísticos para se adaptar ao olhar externo, pode estar a reforçar uma lógica de camuflagem que a literatura associa a sofrimento psicológico.
E é por isso que a questão ética não pode ser evitada. Quando se fala de “melhoria”, estamos a falar de melhoria para quem? Para a pessoa autista, ou para os adultos à sua volta que se sentem mais confortáveis quando o comportamento é mais previsível, mais silencioso ou mais próximo do esperado?
Entre apoio e normalização
Existe um ponto que precisa de ser dito com clareza: defender uma leitura crítica da ABA não é o mesmo que negar a importância destas intervenções. Muitas pessoas autistas precisam de apoio estruturado, previsibilidade, mediação comunicativa, adaptações sensoriais e estratégias que realmente facilitem a vida quotidiana. O problema está quando a intervenção se transforma numa tentativa de normalização, em vez de se centrar no bem-estar e na autodeterminação da pessoa.
Um artigo publicado discute precisamente a necessidade de a ABA integrar uma perspetiva afirmativa da neurodiversidade. Os autores reconhecem que a área tem sido alvo de críticas por parte da comunidade autista e defendem a importância de práticas mais respeitadoras da individualidade, da dignidade e do assentimento da pessoa intervencionada (Leaf et al., 2024). Isto é relevante porque mostra que a discussão não é inventada: há espaço dentro do próprio campo para rever práticas e abandonar modelos excessivamente normativos.
O que a notícia nos obriga a perguntar
A notícia sobre a clínica não deve ser lida apenas como uma história de investimento e empreendedorismo na área da saúde. Deve ser também uma oportunidade para refletir sobre aquilo que está a ser vendido como “ajuda”. Uma clínica para o autismo não é neutra só porque usa linguagem científica. O que interessa saber é que visão autista está por trás do serviço: uma visão centrada na adaptação à norma ou uma visão centrada no apoio genuíno à pessoa?
Esta pergunta importa porque, no fundo, a diferença entre tratar sofrimento e treinar conformidade é enorme. Se a intervenção ensina a pessoa a parecer menos autista mas não reduz o seu stress, a sua exaustão ou a sua ansiedade, então o sucesso é apenas aparente. E se a pessoa aprende a esconder melhor o que sente para evitar críticas sociais, estamos perante um custo clínico e ético que não pode ser ignorado.
A ABA não deve ser tratada como um dogma, nem como um inimigo absoluto. A evidência disponível mostra benefícios nalguns contextos, mas também mostra limites importantes, heterogeneidade e necessidade de um maior rigor na avaliação dos resultados. Ao mesmo tempo, a literatura sobre a camuflagem e a neurodiversidade lembra-nos que a intervenção não é sinónimo de bem-estar, e que adaptar comportamento pode, em certos casos, significar apenas tornar o sofrimento mais silencioso.
Por isso, a discussão sobre esta clínica e sobre tantas outras semelhantes, precisa de ir além da superfície. A pergunta central não é apenas se a ABA funciona. A pergunta certa é: funciona para quem, com que objetivos e com que impacto na vida real da pessoa autista? É essa a pergunta que, como sociedade, não devemos continuar a evitar.
Referências
Cage E, Troxell-Whitman Z. Understanding the Reasons, Contexts and Costs of Camouflaging for Autistic Adults. J Autism Dev Disord. 2019 May;49(5):1899-1911. doi: 10.1007/s10803-018-03878-x. PMID: 30627892; PMCID: PMC6483965.
Leaf, J. B., Ross, R. K., Cihon, J. H., & Weiss, M. J. (2024). Affirming neurodiversity within applied behavior analysis. Behavior Analysis in Practice. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38966275/
Reichow B, Hume K, Barton EE, Boyd BA. Early intensive behavioral intervention (EIBI) for young children with autism spectrum disorders (ASD). Cochrane Database Syst Rev. 2018 May 9;5(5):CD009260. doi: 10.1002/14651858.CD009260.pub3. PMID: 29742275; PMCID: PMC6494600.
Sandbank M, Bottema-Beutel K, Crowley S, Cassidy M, Dunham K, Feldman JI, Crank J, Albarran SA, Raj S, Mahbub P, Woynaroski TG. Project AIM: Autism intervention meta-analysis for studies of young children. Psychol Bull. 2020 Jan;146(1):1-29. doi: 10.1037/bul0000215. Epub 2019 Nov 25. PMID: 31763860; PMCID: PMC8783568.
Zeidan J, Fombonne E, Scorah J, Ibrahim A, Durkin MS, Saxena S, Yusuf A, Shih A, Elsabbagh M. Global prevalence of autism: A systematic review update. Autism Res. 2022 May;15(5):778-790. doi: 10.1002/aur.2696. Epub 2022 Mar 3. PMID: 35238171; PMCID: PMC9310578.
Durante muito tempo, falar de autismo foi quase sempre falar de défices. Um dos rótulos mais repetidos foi a ideia de que as pessoas autistas teriam uma “falha” na teoria da mente, isto é, uma dificuldade em perceber pensamentos, intenções e emoções dos outros. Mas, quando olho para a minha experiência e para a evidência científica, esta explicação parece-me demasiado simples para descrever algo tão complexo.
Eu sei que, muitas vezes, sou mal interpretado por outras pessoas. Mas isso não me leva a concluir que eu não tenha teoria da mente. Leva-me, isso sim, a pensar que a forma como organizo ideias, pensamentos e a linguagem é diferente. Em muitas interações, o problema não está só “em mim” nem só “no outro”, mas na forma como os dois lados presumem que o mundo social é lido da mesma maneira.
O que a ciência nos diz:
A hipótese da teoria da mente no autismo surgiu para explicar as dificuldades sociais e de comunicação, especialmente a capacidade de inferir estados mentais alheios. No entanto, avaliações críticas recentes concluíram que essa hipótese, tal como foi tradicionalmente formulada, não explica de forma suficiente a diversidade do autismo nem os resultados inconsistentes dos testes usados para a medir. Uma revisão muito citada também argumenta que a afirmação de que pessoas autistas “não têm” teoria da mente é empiricamente questionável e pode até ser socialmente prejudicial.
Ao mesmo tempo, a literatura sobre a pragmática da linguagem mostra que muitas das dificuldades observadas no autismo são mais bem descritas como desafios do uso social da linguagem: perceber subentendidos, ajustar a conversa ao contexto, lidar com ironia, inferir o que é implícito e responder às pistas sociais de forma rápida. Isto não é a mesma coisa que “não compreender mentes”; é muitas das vezes uma diferença na forma como a informação social é processada e traduzida na comunicação.
Há um ponto que me parece essencial: a comunicação social não acontece num vácuo. A teoria do double empathy problem propõe que os desencontros entre pessoas autistas e não autistas resultam numa dificuldade mútua de compreensão, e não de um défice exclusivo da pessoa autista. Ou seja, os neurotípicos também podem falhar na leitura do autismo, porque interpretam o comportamento autista através das suas próprias expectativas sociais, que nem sempre correspondem à realidade da pessoa autista.
Isto ajuda-me a explicar algo que muitas pessoas autistas conhecem bem: podemos saber muito sobre as emoções, as intenções e os contextos, mas ainda assim sermos mal lidos. A diferença está, por vezes, na velocidade da resposta, na literalidade, na seleção de pistas relevantes, na prioridade dada à lógica, à precisão ou à segurança cognitiva. Quando a outra pessoa assume que o meu modo de organizar a informação é igual ao dela, a conversa pode falhar antes mesmo de começar.
Organização diferente, não ausência
Para mim, a questão não é “tenho ou não tenho teoria da mente?”. A questão é: como é que a minha mente organiza o social? É possível existir compreensão dos outros sem que essa compreensão seja expressa de forma neurotípica. É possível reconhecer emoções e intenções, mas não responder segundo as regras implícitas esperadas numa interação padrão. E é possível que a dificuldade apareça mais na tradução entre mundos cognitivos do que numa incapacidade absoluta de compreender as pessoas.
Este ponto é importante porque tira o autismo do lugar da deficiência total e leva-o para o lugar da diferença relacional. Em vez de supor que o problema está apenas na pessoa autista, começamos a olhar para o contexto, para o ambiente, para as expectativas sociais e para a falta de adaptação mútua. Estes factores mudam tudo, inclusive na forma como se deve apoiar, educar e comunicar.
O que eu gostava que mudasse
Gostava que se falasse menos em “falta de empatia” e mais neste desencontro de códigos. Gostava que as pessoas percebessem que ser autista não é ser vazio de vida mental; é ter uma vida mental que nem sempre cabe nas leituras rápidas do mundo neurotípico. Gostava que, antes de concluírem que eu “não percebo”, perguntassem se, na verdade, não estamos a usar linguagens sociais diferentes.
Se há algo que a ciência contemporânea ajuda-me a defender, é isto: o autismo não pode ser reduzido a uma falha única, simples e universal na teoria da mente. A realidade parece muito mais plural, mais contextual e mais humana. E talvez o primeiro passo para melhores relações não seja “ensinar” pessoas autistas a parecerem neurotípicas, mas ensinar todos nós a reconhecer que a compreensão mútua também é uma responsabilidade partilhada
Nos últimos tempos, tenho acompanhado com crescente inquietação o ressurgimento do debate em torno das chamadas “terapias de conversão”, práticas que pretendem mudar a orientação sexual ou a identidade de género de uma pessoa. Apesar de fortemente condenadas pela comunidade científica e por entidades como a Organização Mundial da Saúde, estas práticas continuam a ser defendidas, muitas vezes disfarçadas de “acompanhamento psicológico”, “orientação espiritual” ou “correção comportamental”.
Como pessoa que acredita profundamente na liberdade de cada um em descobrir e viver a sua identidade, este tema toca-me de forma particularmente sensível. Penso nas crianças e nos jovens que, num futuro próximo, vão crescer num mundo onde ainda há adultos dispostos a dizer-lhes que a forma como amam ou se expressam é “errada”. Essa ideia, por mais disfarçada que venha, é destrutiva. Impacta a autoestima, rompe a confiança e semeia o medo nos momentos em que o que mais se precisa é de compreensão e segurança. A infância e a adolescência são, por natureza, fases de exploração. É nelas que testamos, questionamos, erramos, aprendemos e, acima de tudo, procuramos um sentido de pertença. Impor narrativas rígidas sobre o que “deve” ser um rapaz ou uma rapariga, ou quem “deve” amar quem, é roubar parte desse processo. É colocar uma coleira emocional num ser humano em crescimento e isso deixa feridas que podem durar uma vida inteira.
O que mais me preocupa é o impacto que este tipo de mentalidades pode ter nas gerações futuras, especialmente se começarmos a normalizar discursos de intolerância mascarados de “cuidado”. As crianças não precisam de ser “corrigidas”; precisam de ser ouvidas. Não precisam de “tratamentos”; precisam de espaços seguros onde possam conhecer-se, expressar-se e ser aceites sem condições.
Enquanto sociedade, temos o dever de criar contextos de apoio que validem a diversidade humana em todas as suas formas, sejam elas de género, orientação, expressão, corpo ou emoção. Devemos educar, não converter. Ajudar a compreender, não a reprimir. Porque é nessa liberdade de ser que está a verdadeira saúde mental e emocional.
Nos últimos dias, li a notícia de um jovem autista agredido em Leiria depois de ter entrado numa habitação, num episódio que acabou por envolver a PSP e que está agora a ser investigado. Ao ler os detalhes, não consegui evitar uma sensação de revolta e tristeza: o que ali aconteceu não foi apenas um “incidente”, foi o retrato de como continuamos a falhar quando lidamos com a neurodiversidade sem preparação, sem empatia e sem conhecimento.
O que muitos podem ver, à primeira vista, como uma invasão ou um ato suspeito, pode encaixar num fenómeno conhecido como elopement (também chamado wandering ou bolting) que acontece quando uma pessoa autista se afasta de um local seguro sem noção real do perigo ou com necessidade de fugir a uma sobrecarga sensorial. A literatura mostra que este comportamento é relativamente frequente no autismo, com estudos a apontar para cerca de metade das crianças com perturbação do espetro do autismo a tentarem afastar-se em algum momento. Não é um gesto de má intenção; é muitas vezes um sinal de desregulação, medo, confusão ou procura de segurança.
É precisamente por isso que este caso me parece tão grave. Se a PSP afirma que os agentes desconheciam a idade e a condição clínica do jovem no momento da intervenção, isso pode explicar a leitura inicial da situação, mas não apaga a necessidade de formação especializada para estas ocorrências. Quando uma pessoa não verbal, autista e numa possível crise é tratada como um suspeito comum, o sistema falha duas vezes: falha na resposta imediata e falha na prevenção de danos maiores. E quando a violência substitui a avaliação cuidadosa, a sociedade mostra que ainda está muito longe de compreender o autismo para além dos rótulos mais superficiais.
A minha crítica vai mais longe: continuamos a falar de inclusão em discursos institucionais, mas na prática faltam protocolos, formação e articulação entre a escola, a saúde e as forças de segurança. A escola deveria ter mecanismos mais robustos de segurança e resposta, e as autoridades deveriam estar preparadas para reconhecer sinais de neurodivergência antes de agir com força. Não basta dizer que se agiu “segundo o procedimento”; é preciso perguntar se o procedimento é, de facto, adequado para pessoas autistas em crise.
O elopement precisa de ser compreendido como uma questão de segurança e de dignidade, não como um desvio moral. Quando uma pessoa autista entra num espaço alheio, muitas vezes não está a desafiar ninguém. Está apenaa perdida, assustada ou a fugir de algo que não consegue nomear. Por isso, este caso devia servir para muito mais do que indignação momentânea: devia obrigar-nos a repensar na formação, na resposta policial, no apoio escolar e na sensibilização pública.
Se queremos uma sociedade verdadeiramente inclusiva, temos de começar por reconhecer isto: uma pessoa autista em crise não precisa de medo à sua volta. Precisa de proteção, compreensão e resposta humana.
Em toda a minha experiência e no conhecimento que adquiri sobre o autismo, cheguei cada vez mais à convicção de que muitos dos conceitos usados para avaliar pessoas autistas continuam a ser insuficientes, redutores e, por vezes, até injustos. Durante muito tempo, a linguagem dos “níveis” e da “funcionalidade” foi apresentada como se conseguisse traduzir de forma objetiva a realidade de uma pessoa. Mas quanto mais aprofundo este tema, mais percebo que a vida autista não cabe numa escala simples, nem pode ser compreendida fora do contexto em que a pessoa vive. O que observo é que, muitas vezes, o sistema valoriza aquilo que é visível e mensurável num dado momento, mas ignora o custo invisível desse desempenho. Uma pessoa autista pode conseguir trabalhar, estudar, conversar ou cumprir tarefas, mas isso não significa necessariamente que o faça sem sofrimento. Pelo contrário, em muitos casos, esse “funcionamento” acontece à custa de exaustão, sobrecarga sensorial, ansiedade constante e desgaste emocional. E isto leva-me a pensar que o verdadeiro problema não está apenas nas dificuldades da pessoa, mas também na forma como o ambiente responde, ou falha em responder, às suas necessidades.
Uma das críticas mais importantes que faço, com base no que aprendi, é à forma como os níveis de suporte podem ser transformados em rótulos rígidos. Quando isso acontece, deixam de servir para compreender e passam a servir para excluir. Em vez de se perguntar o que a pessoa realmente precisa para viver com dignidade, autonomia e segurança, pergunta-se muitas vezes apenas até onde ela “parece” funcionar. Esta lógica é particularmente injusta porque ignora aquilo que não se vê: o esforço permanente para camuflar dificuldades, a fadiga acumulada, os colapsos silenciosos e a deterioração da saúde mental. Também aprendi que a inteligência e o sofrimento podem coexistir. Ter boas competências cognitivas não anula dificuldades executivas, emocionais ou sensoriais. Isto é algo que considero necessário sublinhar, porque ainda existe uma tendência para associar a capacidade intelectual a uma menor necessidade de apoio. Na realidade, uma pessoa pode ter elevada competência nalgumas áreas e, ao mesmo tempo, precisar de suporte significativo noutras. Esta visão mais ampla é fundamental para evitar diagnósticos sociais simplistas e para reconhecer que o autismo não se define por uma única dimensão.
Outro ponto que me parece importante é o impacto da camuflagem. Muitas pessoas autistas aprendem a esconder sinais, a imitar comportamentos considerados mais aceitáveis e a forçar a adaptação a contextos pouco seguros ou pouco compreensivos. À primeira vista, pode ser interpretado como competência ou integração. Mas, na verdade, pode representar um enorme custo psicológico. Em vez de proteger a pessoa, esta exigência contínua de adaptação pode levar ao esgotamento, ao isolamento e, em casos mais graves, a sofrimento emocional intenso. Por isso, quando penso em autismo, já não consigo separar desempenho de bem-estar.
Na minha perspetiva, a pergunta mais correta nunca deveria ser apenas “qual é o nível de suporte?”, mas sim “quais são as barreiras concretas que esta pessoa enfrenta e o que precisa de ser adaptado à sua volta?”. Esta mudança de perspetiva é mais humana, mais justa e mais científica. Porque desloca a atenção da deficiência individual para a interação entre a pessoa e o ambiente. E é precisamente aí que acredito que é uma das chaves para melhorar práticas clínicas, educativas e institucionais.
Por isso, aquilo que defendo é uma abordagem menos classificatória e mais compreensiva. Não se trata de negar as dificuldades reais das pessoas autistas, mas de recusar leituras simplistas que transformam os seres humanos complexos em categorias fixas. A minha experiência diz-me que ninguém deve ser reduzido a um rótulo de funcionamento. O que precisamos é de escutar melhor, avaliar com mais cuidado e construir contextos que não exijam das pessoas autistas uma adaptação permanente ao custo da sua saúde mental.
Desde que disse às minhas orientadoras quem realmente sou, tenho sentido uma mistura difícil de explicar: vergonha, medo, desconforto, quase como se tivesse cometido uma infração invisível. Ser uma pessoa autista, com necessidades específicas e limites que não encaixam no modelo “ideal” de estagiário é difícil. Parte de mim queria ser honesto, outra parte queria desaparecer depois de o fazer. A investigação mostra que muitas pessoas autistas vivem exatamente neste dilema: camuflam para evitar o estigma e, quando decidem revelar-se, sentem-se expostas, vulneráveis e inseguras quanto às reações dos outros.
Dizer “sou autista” num contexto académico não é só uma partilha de informação clínica; é um ato político e identitário num ambiente onde o padrão de estudante ainda é profundamente normativo. Estudos sobre a divulgação de diagnóstico em contexto académico mostram que estudantes autistas receiam ser vistos como menos capazes, preguiçosos ou problemáticos, e ponderam constantemente se o benefício das adaptações justifica o risco de serem alvo de preconceito. É exatamente isto que sinto: um conflito entre o direito a pedir suporte e o medo do rótulo que esse pedido pode acionar na cabeça de quem me ouve.
Ao mesmo tempo, há o peso do capacitismo, não só o que vem de fora, mas o que fui internalizando ao longo dos anos. A literatura sobre o capacitismo internalizado descreve como muitas pessoas com deficiência acabam por absorver as mensagens sociais de que “ser independente”, “não precisar de ajuda” e “não dar trabalho” são sinais de valor pessoal. Quando preciso de suporte, algo em mim revolta-se: uma voz que me diz “aguenta sozinho”, “não sejas fraco”, “não queiras privilégios”. Passei tantos anos a habituar-me a lidar com tudo sozinho que, hoje, pedir ajuda parece mais perigoso do que continuar a sofrer em silêncio.
Não tenho traços visiveis que “explique” de imediato as minhas dificuldades, e isso amplifica o medo de não ser levado a sério. A ciência mostra que pessoas com deficiências invisíveis enfrentam desafios específicos: são frequentemente vistas como exageradas, pouco esforçadas, ou até desonestas quando pedem adaptações, precisamente porque o corpo não “denuncia” nada à primeira vista. Isso alimenta a vergonha: se por fora pareço “normal”, porque é que por dentro sinto tanto desgaste? Porque é que, para mim, aquilo que é “rotina” para os outros torna-se insustentável ao fim de algum tempo?
O processo de descamuflagem, tal como descrevem estudos sobre a camuflagem social nas pessoas autismo, não é só libertador; é também profundamente doloroso. Camuflar foi, durante anos, uma estratégia de sobrevivência: adaptar a forma de falar, copiar expressões faciais, forçar contacto ocular, esconder sobrecargas sensoriais, aceitar tarefas acima da minha capacidade só para não parecer “frágil”. Parar de fazer tudo isto significa, por um lado, reduzir o risco de burnout, depressão e ansiedade, que estão fortemente associados à camuflagem prolongada; por outro lado, obriga-me a encarar de frente o medo de deixar de ser visto como “competente” aos olhos dos outros.
Nesta fase, sinto-me suspenso entre dois mundos. De um lado, o velho hábito de aguentar tudo, em silêncio, com a máscara bem colocada, sem pedir apoio, para proteger a imagem de alguém forte e independente. Do outro lado, a possibilidade de viver de forma mais alinhada com o meu corpo e com o meu cérebro e reconhecer que precisar de apoio não me torna menos digno, menos inteligente ou menos profissional. A literatura sobre identidade autista e a divulgação no ensino superior mostra que muitos estudantes desejam poder assumir o seu autismo sem consequências negativas, mas ajustam o que revelam consoante o quão seguros se sentem no contexto. Sinto-me exatamente aí: hoje evito, amanhã talvez já seja diferente.
No âmbito da minha autodescoberta, revisitei as minhas publicações antigas. Os registos íntimos das vivências desde a infância que foram influenciados por intensas sensibilidades e desafios sociais. Recentemente, deparei-me com o estudo seminal de Litman et al. (2025), publicado na Nature Genetics, que delineia os quatro subtipos biológicos de autismo a partir de 5.392 crianças. Esta análise rigorosa, assente na modelação genética-fenotípica, e tanto valida as minhas experiências como também é uma via para intervenções mais precisas.
(Fonte principal: Litman, A. et al. (2025). Nature Genetics. DOI: 10.1038/s41588-025-02224-z)
Ao confrontar-me com o meu historial, identifico-me primordialmente com o “Desafios sociais e comportamentais (37%)” (Social & Behavioral). As sensibilidades sensoriais exacerbadas (tacto, som, visão) desenvolveram exaustão crónica desde idade precoce e que alinha com a hipersensibilidade neurobiológica. Os marcos iniciais ocorreram no prazo esperado, mas com explosões emocionais por falha na verbalização, substituída por agitação motora como poderão ver na imagem acima referida.
Os desafios sociais foram proeminentes: isolamento escolar, camuflagem forçada (imitação de pares), paralisia em interacções interpessoais. Comorbilidades (ansiedade generalizada, depressão reactiva, traços de PHDA) espelham o perfil deste subtipo. Nota de sobreposição com Broadly Affected: o impacto holístico persiste na adultez, sugerindo variantes genéticas sobrepostas.
Quais são as implicações para a ciência?
Esta decomposição fenotípica não é uma mera classificação; é um portal para a precisão terapêutica. O estudo correlaciona subtipos com programas genéticos (ex.: sinalização neuronal no Social & Behavioral), construindo terapias targeted (de farmacologia ao suporte ambiental). Para mim, valida, e muito bem, a necessidade de avaliação neuropsicológica especializada e adaptações low-sensory.
A ciência, não rotula: liberta. Revela que o “espectro” é um mosaico da biologia e que direciona caminhos mais informados. Prosseguirei com serenidade, ancorado nesta evidência.
Hoje voltei a pensar naquela discussão no estágio, a propósito de uma notícia que dizia que uma criança matou a mãe. Essa história ficou a presa em mim, não só pela violência em si, mas pela forma como, rapidamente, alguém disse: “existem pessoas maldosas”. Quando ouvi isso, algo em mim recusou-se a aceitar essa explicação simples demais para uma realidade que é tudo menos simples.
Eu respondi que não existem “pessoas más” como essência, como se alguém nascesse marcado por uma etiqueta definitiva. Existem pessoas com histórias, experiências, contextos, aprendizagens e sobretudo, feridas. E é a partir disso que vão construindo formas de sentir, interpretar o mundo e agir. Reduzir alguém a “mau” apaga todas essas camadas e, de certa forma, também desresponsabiliza-nos enquanto sociedade.
Uma colega ainda trouxe o argumento de que as famílias e os vizinhos relataram que “sempre tiveram uma vida pacífica” e que nunca houve nada de estranho. Mas como é que podemos falar com tanta certeza sobre o que se passa dentro de quatro paredes? O facto de não vermos conflitos não significa que não existam tensões silenciosas, violência psicológica, negligência emocional, ou simplesmente um vazio afetivo difícil de nomear. A ausência de ruído não é sinónimo de ausência de dor.
Outra colega tentou explicar o caso com a ideia da diminuição do controlo inibitório, como se fosse “só” um problema de travão interno que falhou. Recusei imediatamente essa explicação isolada. Não porque o controlo inibitório não seja relevante em Psicologia, mas porque o ser humano é muito mais complexo do que um único mecanismo cognitivo. Antes de chegar ao ato, existe um percurso: emoções, interpretações, avaliações e, só depois, a ação. Falar apenas de inibição é olhar para o fim do filme e ignorar toda a narrativa anterior.
O que sabemos, a partir da investigação em Psicologia do desenvolvimento, é que a compreensão emocional é uma competência construída desde muito cedo. Estudos sobre competência emocional mostram que ela envolve pelo menos três grandes dimensões: expressão, compreensão e regulação das emoções, e que estas desenvolvem-se gradualmente ao longo da infância, em interação com o meio social. Crianças pequenas começam por reconhecer expressões faciais e tons de voz e, pouco a pouco, aprendem a ligar essas pistas ao que sentem dentro de si e ao que os outros podem estar a sentir. Este processo não é automático nem igual para todas; depende da própria linguagem, das oportunidades de conversa sobre as emoções, de modelos adultos, de experiências de segurança ou insegurança.
Essa ideia relaciona-se diretamente numa convicção que tenho: as crianças, antes de “aprenderem regras morais abstratas”, aprendem a interpretar as próprias emoções. Mas essa interpretação não é neutra. Se uma criança vive repetidamente experiências negativas (humilhação, rejeição, medo, violência, desvalorização) o seu sistema emocional aprende a ler o mundo a partir desse código. Uma cara séria pode ser lida como ameaça; um “não” pode ser sentido como abandono; um conflito pode ser interpretado como prova de que o outro é inimigo. A emoção (por exemplo, raiva ou medo) é seguida de uma interpretação (“estão contra mim”, “ninguém se importa comigo”), que depois se transforma numa avaliação (“eu preciso defender-me”, “tenho de atacar antes que me ataquem”) e, finalmente, numa ação.
A investigação mostra também que a compreensão emocional está ligada ao ajustamento social: crianças que conseguem reconhecer e compreender melhor as emoções tendem a adaptar-se melhor nas relações com os outros, a gerir conflitos e a ter menos comportamentos agressivos. Quando existem défices emocionais, isto é, dificuldades a reconhecer o que sentem, a nomear emoções, a perceber o ponto de vista do outro ou a antecipar as consequências dos atos, abre-se espaço para interpretações distorcidas das situações. Não se trata de “malvadez”, mas de um conjunto de vulnerabilidades emocionais e cognitivas que podem aumentar o risco de comportamentos problemáticos, sobretudo quando se juntam a contextos familiares tensos, práticas parentais inconsistentes, ausência de apoio, dificuldades económicas, problemas de saúde mental nas figuras de referência, entre outros fatores.
Gosto de pensar que, ao dizer “não existem pessoas más”, não estou a desculpar comportamentos graves, mas a recusar explicações simplistas que não nos ajudam a prevenir nada. Se eu digo que alguém é simplesmente “mau”, fecho a porta à pergunta que mais interessa: “o que aconteceu para que esta pessoa chegasse aqui?”. Ao contrário, se vejo a pessoa em camadas: história de vida, experiências afetivas, aprendizagens (ou ausências de aprendizagem), défices emocionais, contexto social, condições biológicas, então começo a ver também onde poderia ter havido intervenção, cuidado, psicoeducação, suporte.
No fundo, o que me inquieta é a facilidade com que transformamos casos extremos em argumentos para reforçar crenças antigas: “é mau”, “sempre foi assim”, “um monstro”. Isso talvez alivie o medo que sentimos, porque coloca o perigo fora de nós, num “outro” distante. Mas a Psicologia e a investigação em desenvolvimento emocional reforça que ninguém surge no vazio. Toda a criança nasce num contexto concreto, com adultos concretos, e interpreta o mundo a partir das experiências que vive e das ferramentas emocionais que (não) recebe.
Talvez por isso eu insista tanto que, antes de rotular, precisamos de compreender. As emoções, a interpretação, a avaliação e a ação: quatro palavras que, juntas, contam uma história muito mais humana do que a dicotomia entre “bons” e “maus”. E, se quisermos realmente prevenir situações extremas, o caminho não passa por procurar “crianças más”, mas por olhar para as condições que estão a limitar o desenvolvimento da sua compreensão emocional, das suas competências sociais e da sua capacidade de pensar sobre o que sentem e fazem.
Hoje, fecho este dia com a sensação de que a Psicologia não existe para nos dar respostas fáceis, mas para fazer perguntas difíceis de um modo responsável. E, talvez, para lembrar que, por trás de cada ato que nos choca, há sempre uma história que merece ser compreendida em profundidade, mesmo quando não a conseguimos justificar.