“Pessoas más” não existem

Hoje voltei a pensar naquela discussão no estágio, a propósito de uma notícia que dizia que uma criança matou a mãe. Essa história ficou a presa em mim, não só pela violência em si, mas pela forma como, rapidamente, alguém disse: “existem pessoas maldosas”. Quando ouvi isso, algo em mim recusou-se a aceitar essa explicação simples demais para uma realidade que é tudo menos simples.

Eu respondi que não existem “pessoas más” como essência, como se alguém nascesse marcado por uma etiqueta definitiva. Existem pessoas com histórias, experiências, contextos, aprendizagens e sobretudo, feridas. E é a partir disso que vão construindo formas de sentir, interpretar o mundo e agir. Reduzir alguém a “mau” apaga todas essas camadas e, de certa forma, também desresponsabiliza-nos enquanto sociedade.

Uma colega ainda trouxe o argumento de que as famílias e os vizinhos relataram que “sempre tiveram uma vida pacífica” e que nunca houve nada de estranho. Mas como é que podemos falar com tanta certeza sobre o que se passa dentro de quatro paredes? O facto de não vermos conflitos não significa que não existam tensões silenciosas, violência psicológica, negligência emocional, ou simplesmente um vazio afetivo difícil de nomear. A ausência de ruído não é sinónimo de ausência de dor.

Outra colega tentou explicar o caso com a ideia da diminuição do controlo inibitório, como se fosse “só” um problema de travão interno que falhou. Recusei imediatamente essa explicação isolada. Não porque o controlo inibitório não seja relevante em Psicologia, mas porque o ser humano é muito mais complexo do que um único mecanismo cognitivo. Antes de chegar ao ato, existe um percurso: emoções, interpretações, avaliações e, só depois, a ação. Falar apenas de inibição é olhar para o fim do filme e ignorar toda a narrativa anterior.

O que sabemos, a partir da investigação em Psicologia do desenvolvimento, é que a compreensão emocional é uma competência construída desde muito cedo. Estudos sobre competência emocional mostram que ela envolve pelo menos três grandes dimensões: expressão, compreensão e regulação das emoções, e que estas desenvolvem-se gradualmente ao longo da infância, em interação com o meio social. Crianças pequenas começam por reconhecer expressões faciais e tons de voz e, pouco a pouco, aprendem a ligar essas pistas ao que sentem dentro de si e ao que os outros podem estar a sentir. Este processo não é automático nem igual para todas; depende da própria linguagem, das oportunidades de conversa sobre as emoções, de modelos adultos, de experiências de segurança ou insegurança.

Essa ideia relaciona-se diretamente numa convicção que tenho: as crianças, antes de “aprenderem regras morais abstratas”, aprendem a interpretar as próprias emoções. Mas essa interpretação não é neutra. Se uma criança vive repetidamente experiências negativas (humilhação, rejeição, medo, violência, desvalorização) o seu sistema emocional aprende a ler o mundo a partir desse código. Uma cara séria pode ser lida como ameaça; um “não” pode ser sentido como abandono; um conflito pode ser interpretado como prova de que o outro é inimigo. A emoção (por exemplo, raiva ou medo) é seguida de uma interpretação (“estão contra mim”, “ninguém se importa comigo”), que depois se transforma numa avaliação (“eu preciso defender-me”, “tenho de atacar antes que me ataquem”) e, finalmente, numa ação.

A investigação mostra também que a compreensão emocional está ligada ao ajustamento social: crianças que conseguem reconhecer e compreender melhor as emoções tendem a adaptar-se melhor nas relações com os outros, a gerir conflitos e a ter menos comportamentos agressivos. Quando existem défices emocionais, isto é, dificuldades a reconhecer o que sentem, a nomear emoções, a perceber o ponto de vista do outro ou a antecipar as consequências dos atos, abre-se espaço para interpretações distorcidas das situações. Não se trata de “malvadez”, mas de um conjunto de vulnerabilidades emocionais e cognitivas que podem aumentar o risco de comportamentos problemáticos, sobretudo quando se juntam a contextos familiares tensos, práticas parentais inconsistentes, ausência de apoio, dificuldades económicas, problemas de saúde mental nas figuras de referência, entre outros fatores.

Gosto de pensar que, ao dizer “não existem pessoas más”, não estou a desculpar comportamentos graves, mas a recusar explicações simplistas que não nos ajudam a prevenir nada. Se eu digo que alguém é simplesmente “mau”, fecho a porta à pergunta que mais interessa: “o que aconteceu para que esta pessoa chegasse aqui?”. Ao contrário, se vejo a pessoa em camadas: história de vida, experiências afetivas, aprendizagens (ou ausências de aprendizagem), défices emocionais, contexto social, condições biológicas, então começo a ver também onde poderia ter havido intervenção, cuidado, psicoeducação, suporte.

No fundo, o que me inquieta é a facilidade com que transformamos casos extremos em argumentos para reforçar crenças antigas: “é mau”, “sempre foi assim”, “um monstro”. Isso talvez alivie o medo que sentimos, porque coloca o perigo fora de nós, num “outro” distante. Mas a Psicologia e a investigação em desenvolvimento emocional reforça que ninguém surge no vazio. Toda a criança nasce num contexto concreto, com adultos concretos, e interpreta o mundo a partir das experiências que vive e das ferramentas emocionais que (não) recebe.

Talvez por isso eu insista tanto que, antes de rotular, precisamos de compreender. As emoções, a interpretação, a avaliação e a ação: quatro palavras que, juntas, contam uma história muito mais humana do que a dicotomia entre “bons” e “maus”. E, se quisermos realmente prevenir situações extremas, o caminho não passa por procurar “crianças más”, mas por olhar para as condições que estão a limitar o desenvolvimento da sua compreensão emocional, das suas competências sociais e da sua capacidade de pensar sobre o que sentem e fazem.

Hoje, fecho este dia com a sensação de que a Psicologia não existe para nos dar respostas fáceis, mas para fazer perguntas difíceis de um modo responsável. E, talvez, para lembrar que, por trás de cada ato que nos choca, há sempre uma história que merece ser compreendida em profundidade, mesmo quando não a conseguimos justificar.

Jonas Ferreira

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