Sexualidade no espectrum

Falar sobre a minha sexualidade é, para mim, um exercício de vulnerabilidade e de honestidade. Durante anos, vivi num silêncio confuso, a tentar perceber porque não sentia o mesmo desejo sexual como os outros. Só mais tarde, ao descobrir o conceito de assexualidade, consegui dar um nome ao que sempre me acompanhou: nunca senti necessidade de envolvimento sexual mas sempre procurei envolvimento, afeto e proximidade. Lembro-me de crescer a pensar que havia algo de errado comigo, porque via os meus colegas a falar sobre paixões e desejos físicos, enquanto eu apenas sonhava com cumplicidade, conversas longas e uma presença segura ao meu lado.


A minha adolescência foi marcada por um episódio que nunca esqueci: interessei-me (fiquei quase obsecado) por uma rapariga e, quando finalmente tentei aproximar-me, fui rejeitado. Aquilo deixou-me ainda mais inseguro e, sem compreender e sem saber explicar o que sentia, fechei-me em mim próprio. Algum tempo depois, desenvolvi um afeto romântico por um rapaz que me despertou novamente interesse, mas voltei a tropeçar na mesma barreira: queria estar perto, mas não conseguia demonstrar. Ele por outro lado, demonstrava proximidade, interesse direto, a pronunciar frases que queria beijar-me e toques suaves. Mas para mim, era como se houvesse uma parede invisível entre o que sentia e o que conseguia exprimir. Queria dizer-lhe o quanto estava afim, mas não conseguia. Só anos mais tarde, com o diagnóstico de autismo, percebi que esta dificuldade em expressar emoções — a alexitimia — fazia parte de mim desde sempre. Não era desinteresse, era incapacidade de traduzir sentimentos em palavras ou gestos.

Com o tempo, fui reparando que me sentia mais confortável a criar laços com rapazes, e percebo que isso resulta não só da minha orientação, mas também do contexto cultural em que cresci. Na cultura de género ocidental, há uma predominância clara de normas que moldam a forma como os rapazes e as raparigas comunicam e se relacionam. Os rapazes, influenciados por modelos de masculinidade hegemónica, tendem a ser mais diretos, explícitos e frontais na expressão das suas intenções e emoções. Esta característica é reforçada por séculos de construção social, como analisam autores como Beauvoir e Butler, e pode ser observada em múltiplos exemplos da literatura, do cinema e até do quotidiano, onde o masculino é associado à assertividade e à objetividade.


Por outro lado, as raparigas, segundo estas mesmas normas culturais, são frequentemente incentivadas a comunicar de forma mais indireta, subtil e relacional, utilizando gestos, olhares, nuances e códigos sociais menos explícitos. Esta diferença é desempenhada e reforçada desde a infância, através da família, da escola, da TV e de todo o sistema simbólico que, como refere Bourdieu, legitima e reproduz a distinção entre os géneros e os seus papéis sociais. Para alguém como eu, que tem dificuldades em decifrar pistas sociais e sinais não-verbais, estas diferenças tornam-se determinantes: a comunicação direta dos homens é mais acessível e previsível, enquanto a comunicação indireta das raparigas deixa-me inseguro, com receio de falhar ou de ser mal interpretado.

Sempre me comportei de acordo com o que era esperado, seguindo as normas e os papéis que a sociedade impunha. Nunca questionei muito, simplesmente encaixava-me no que era suposto ser, dizer e sentir. Mas quando comecei a interessar-me pelo carinho e atenção do tal rapaz, tudo ficou confuso. Senti-me completamente perdido, sem saber o que fazer ou como interagir. Chorava por tudo e por nada, porque não sabia lidar com a intensidade daquele sentimento, nem com a dúvida constante sobre o que era “certo” ou “errado” sentir. Era como se estivesse a viver algo para o qual ninguém me tinha preparado, sem referências nem orientação, apenas com o peso das expectativas e o medo de falhar.


É importante sublinhar que esta norma não é universal. Cada sociedade tem a sua própria cultura de género, com expectativas, códigos e formas de comunicação distintas, que variam no tempo e no espaço. O que descrevo reflete a experiência predominante no contexto onde vivo, mas há culturas onde as dinâmicas de género manifestam-se de forma diferente, e onde outras formas de expressão e relação são valorizadas ou permitidas. Além disso, movimentos sociais contemporâneos e as vozes feministas têm vindo a questionar e desconstruir estes papéis tradicionais, propondo novas formas de ser e de comunicar que rompem com o conservadorismo e a heteronormatividade predominantes.


Assim, a minha experiência pessoal não pode ser dissociada deste contexto cultural. O facto de me sentir mais seguro nas relações com rapazes não resulta apenas de uma preferência individual, mas também de uma adaptação às normas e pistas sociais que me rodeiam. A neurodiversidade e a neurodivergencia de pensamento percepciona uma realidade diferente da predominância neurotipica. Não quero isto dizer que sou homo romântico ou bi romântico no espectro da minha orientação assexual. Apenas quero transmitir que reconhecer esta influência ajuda-me a perceber que a diversidade de género e de expressão é muito mais ampla do que aquilo que a norma dominante sugere, e que cada pessoa, em cada sociedade, constrói o seu caminho a partir das possibilidades e limites que a cultura lhe oferece.

Hoje, olho para trás e percebo que a minha sexualidade não é apenas ausência de desejo sexual, mas também o reflexo de uma vida marcada pelo autismo, pela alexitimia e pelas normas culturais que me rodeiam. O diagnóstico ajudou-me a entender porque tantas vezes senti-me desajustado, a comunicação emocional tão difícil e mesmo a desejar proximidade, acabava por me afastar. Ainda estou a aprender a aceitar-me, a dar valor às minhas formas de amar e de me envolver com os outros, mesmo que não correspondam ao que a sociedade espera. E, acima de tudo, continuo a procurar relações autênticas, onde possa ser eu próprio, sem máscaras e sem medo de não corresponder aos padrões.

By Jonas Ferreira


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