A prateleira do amor

Nos últimos tempos, li o livro A Prateleira do Amor: sobre mulheres, homens e relações, da psicóloga Valeska Zanello. E fiquei com a sensação de estar a ser desmontado por dentro por algo que eu já sabia, mas nunca tinha nomeado de forma tão clara. A metáfora da “prateleira” não é só uma imagem bonita; é um diagnóstico afetivo de como muitas relações são construídas, vividas e mantidas hoje, no contexto de uma sociedade que ainda fala de amor como se fosse uma utopia, mas se organiza como se o amor fosse sempre uma competição de quem está “desejável” o suficiente para permanecer na prateleira.
Para Zanello, a “prateleira do amor” é a lista afetiva não escrita que muitas pessoas carregam: a ideia de que quem está nela é digno de escolha, de afeto, de validação, enquanto quem está fora é, por definição, um pouco mais descartável. Percebi, ao longo da leitura, como esta lógica atravessou a minha própria história, não como uma linha direta, mas como uma corrente subterrânea que influenciou escolhas, medos, silêncios e até formas de cuidar dos outros.

Uma das ideias mais fortes do livro é que, para muitos homens, o amor é vivido como um sistema de prestígio, mais do que como um projeto de cuidado. A escolha de quem está ao lado serve para reforçar identidade, status, aparência, capital social. Para muitas mulheres, em contrapartida, o amor é vivido como um sistema de sobrevivência psíquica: amar é, muitas vezes, a forma principal de provar que “vale a pena” existir.
Quando li isso, pensei imediatamente em episódios da minha vida em que reproduzi o mesmo padrão: em que a minha autoestima ficava dependente de ser “escolhido”, de ser desejado, de permanecer na prateleira de alguém importante. Não era só sobre desejo, era sobre validação profunda. A psicologia social já mostra, aliás, que o investimento emocional nas relações românticas está sistematicamente ligado à autoestima e à pertença, sobretudo em contextos onde a identidade individual é frágil ou pouco reconhecida.

O livro também desmonta de forma magistral como a “prateleira do amor” é atravessada por outras desigualdades: de género, de classe, de raça, de idade, de aparência. Quem é mais jovem, mais “atraente”, mais magra, mais branca, mais bem-sucedida tende a ficar mais à frente da prateleira, enquanto outras pessoas são empurradas para o fundo, como se o amor fosse algo que só flui de forma natural para quem cumpre determinados critérios estéticos e sociais.
A minha experiência, como pessoa neurodivergente e com um corpo que nem sempre se encaixa nos padrões de “normalidade” ou “atratividade”, fez-me muitas vezes sentir que não estava propriamente na prateleira, mas sim a olhar para ela de fora, como quem observa um leilão de afetos em que não sabe se é “peça” ou “plateia”. Psicologicamente, isso traduz-se em ansiedade de rejeição, hipervigilância afetiva e uma espécie de auto‑escrutínio constante: o olhar de quem está sempre a vigiar o que faz, o que diz e o que é, é suficiente para ser desejado.

Outra parte do livro que me tocou foi a discussão sobre como muitas mulheres aprendem a cuidar quase como um ato de renúncia emocional: cuidar do outro, antecipar as necessidades do parceiro, suportar inseguranças, conflitos e até abusos, tudo em troca da ilusão de que “se eu cuidar bastante, ele não vai sair”. Isso lembrou-me de episódios em que eu, como homem, assumi posições semelhantes, não pela “feminilidade”, mas pela aprendizagem de que o amor implicava sacrifício, contenção e submissão.

A literatura em psicologia dos relacionamentos mostra que os padrões de cuidado desproporcional e a submissão afetiva estão associados a um maior risco de sofrimento mental, burnout relacional e até depressão. O amor, quando se transforma em renúncia, deixa de ser um recurso de saúde e passa a ser um fator de stress crónico. É nesse ponto que a análise de Zanello aproxima-se de saberes que já existem em psicopatologia, em terapia de casal e em estudos de géneros: a ideia de que o que parece “bondade” pode esconder uma estrutura de dominação sutil, mas muito potente.

Ao refletir tudo isso à luz do que li, percebi que, em muitas fases da minha vida, a minha prateleira do amor estava desordenada. Havia personagens que eu mantinha na prateleira por nostalgia, por medo, por culpa, por obrigação social. Tinham pouco a ver com o desejo autêntico e muito a ver com tentativas de preencher vazios de validação, de identidade, de pertença. A psicologia do desenvolvimento afetivo mostra que, entre a adolescência e a idade adulta, muitas pessoas passam por uma fase de “autoconstrução relacional”: usam os parceiros para saber quem são, como se o amor fosse um espelho.
Perceber isso hoje, com a clareza que só a distância e a leitura crítica dão, é libertador. Significa que posso começar a organizar a minha própria prateleira de forma mais consciente: não como um catálogo de quem me escolheu ou me descartou, mas como um mapa de relações que me fazem crescer, que me seguram, que me desafiam, sem precisar tratar cada escolha como prova de valor pessoal.

A atualidade, neste início de segunda metade da década de 2020, é marcada por uma espécie de contradição: por um lado, há mais discursos sobre autonomia, auto‑amor, amor-próprio e limites; por outro, as dinâmicas da prateleira persistem, só que agora são mediadas por redes sociais, apps de encontros e culturas de performance. A “lista” do que é ou não desejável passou a ser pública, polinizada, algorítmica.
A ciência da comunicação e da psicologia digital já mostra que o uso intensivo das redes sociais está associado a uma maior objeticificação do corpo, a mais comparação social negativa e a mais sensação de inadequação afetiva. Ler “A Prateleira do Amor” em 2026, num contexto em que o amor é negociado através de perfis e filtros, é como pegar num manual de psicologia cultural e perceber que, por trás de cada “match”, há estruturas de género, de desejo e de poder profundamente enraizados.

O que mais ficou do livro não foi uma fórmula mágica para “nunca mais sofrer por amor”, mas uma espécie de revelação: ver com mais clareza que o que acontece nas relações íntimas não é apenas questão de “sorte” ou de “química”, mas de aprendizagem, de história, de contexto social e de desigualdades estruturais.
Agora, a minha tarefa é traduzir essa clareza em práticas concretas: negociar melhores limites nos relacionamentos, questionar o que significa “ser amado” ou “ser escolhido”, e integrar neurodiversidade, masculinidade, feminilidade e amor numa narrativa que não se baseie apenas em prateleiras, mas em redes de cuidado mútuo, responsabilidade emocional e liberdade para não precisar ser “escolhido” para valer a pena.

By Jonas Ferreira


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