Nunca tinha ouvido falar de sobredotação até deparar-me com esse termo e perceber o que ele realmente significa. Durante muito tempo, vivi a acreditar nos estereótipos que se ouviam por aí, a pensar que ser superdotado era algo fácil, uma espécie de talento natural que resolvia tudo sem grandes dificuldades. Mas a verdade é que ser sobredotado vai muito além disso; é carregar uma mente inquieta, uma curiosidade insaciável e uma intensidade emocional que nem sempre é compreendida ou aceite. Só mais tarde percebi que esse rótulo não era um privilégio sem desafios, mas sim uma condição que trazia comigo uma luta diária que muitos desconhecem. Dizer agora, que tenho um QI extremamente alto, que sou polímata, dotado de altas habilidades e uma mente hiperativa pode soar a privilégio, um bilhete dourado numa sociedade obcecada com o conceito de inteligência. Mas quem apenas vê a superfície não faz ideia das tempestades que habitam por baixo das águas calmas. Desde muito cedo senti as diferenças, não apenas nas minhas capacidades, mas na forma como reagia ao mundo, aos estímulos, às emoções. Vivia permanentemente entre extremos. A extasiante capacidade de compreender rapidamente, o entusiasmo por descobrir, o prazer intenso de explorar temas díspares ligar ideias improváveis. À custa disso, era interrompido por crises de ansiedade, por uma incapacidade dolorosa de regular as emoções que explodiam sem aviso. Crescia com a impressão de que havia qualquer coisa de intrinsecamente errado comigo, um desajuste permanente entre quem sou e o que o mundo espera.
A escola, esse espaço tão idealizado como lugar de crescimento e partilha, foi para mim uma fonte de angústia diária. Senti o isolamento logo nas primeiras interações. Para os professores era demasiado inquieto, questionador, estranho até. Para os colegas, estava à parte, alguém que sabia ser diferente mas não sabia bem o porquê. Olhavam-me de lado, sussurravam, hostilizavam numa mistura crua de inveja, desconfiança e puro desconhecimento. Os adultos pressionavam-me para que eu fosse mais “normal”, menos exuberante nas ideias, menos rápido a responder, menos insaciável na procura de saber sempre mais. Diziam, umas vezes sem maldade, outras para ferir-me, que ser assim era arrogância. Mas o meu único crime era não caber nos parâmetros habituais, não conformar-me ao molde imposto a todos.
A pior parte era sentir tudo de forma demasiado intensa. Uma vitória podia encher-me de alegria fulgurante, mas um fracasso, por pequeno que fosse, abatia-me com uma força desproporcionada. As emoções tinham vida própria. Essas dificuldades de auto-regulação tornavam-se uma batalha permanente, desgastante, da qual por vezes queria apenas fugir. Não bastava ser hiperativo, rápido e multifacetado. Era preciso lutar, constantemente, para não ser esmagado por uma tristeza surda que se ia instalando à medida que as incompreensões se avolumavam. A depressão apoderou-se de mim durante anos, um nevoeiro denso de dúvidas e dor, do qual ainda me estou a libertar, com enorme esforço e, acima de tudo, tempo.
Existe um lado obscuro em ser superdotado que raramente é falado. A maioria das pessoas limita-se a ver as vantagens, a ideia de que tudo é fácil, tudo é brilhante, tudo é um simples deslizar sobre o mundo do conhecimento e do êxito. Não podiam estar mais enganadas. O preconceito é insidioso. Contamina relações, corrói a autoconfiança e faz com que, cedo demais, queira-se abandonar aquilo que nos distingue só para pertencer. Quando era criança, doía-me a solidão como uma ferida aberta. As brincadeiras dos outros raramente interessavam-me ou faziam sentido para mim. O ritmo da sala parecia sempre lento. A espera constante entre os momentos de verdadeiro desafio era como uma tortura para a mente sempre alerta. Tornei-me reservado, fechei-me, aprendi a esconder talento para evitar mais julgamentos. Mas nem isso impediu os traumas.
Ainda hoje levo-os comigo. Não é fácil. Nunca foi, conciliar uma mente veloz e inquieta com um mundo que espera conformidade. Com uma sociedade que aprecia a diferença apenas quando pode ser perfeitamente compreendida ou enquadrada. O que ninguém entende é que uma inteligência invulgar não protege do sofrimento. Por vezes amplifica-o. As perguntas nunca cessam, as dúvidas multiplicam-se, a incompreensão dos outros é sentida como um peso esmagador. Não existe escudo possível, só a vulnerabilidade crua de existir nesta condição.
Só muito mais tarde, depois de ultrapassar processos duros, terapias, tentativas de encaixar-me à força, aceitei que sobreviver sendo assim não é privilégio tão pouco uma vantagem absoluta. É resistência diária. É confrontar a dor, os fracassos, os preconceitos dos outros, mas também o perigo de autossabotarmo-nos porque nunca nos sentimos suficientemente bons ou suficientemente compreendidos. Olho para o passado e vejo um campo de batalha onde tantas vezes perdi, mas também onde tive que aprender, à força, aquilo que é resiliência. Hoje, compreender isto não me conforta, mas dá-me alguma paz. O trauma não desaparece totalmente, as cicatrizes continuam presentes. No entanto existe uma nova camada de compreensão. Menos raiva e menos vergonha. Sinto que sobreviver ao lado sombrio da superdotação é, em si, um ato de coragem. Não é uma história de sucesso fácil, não é só brilho: é sobretudo persistência, aceitação e uma procura constante por um lugar onde possa ser inteiro, onde não precise esconder as luzes, nem as sombras
By Jonas Ferreira



