Sempre fui uma pessoa bastante introspectiva, com uma curiosidade profunda sobre como pensamos, sentimos e agimos. A origem dessa curiosidade encontra raízes na minha história familiar repleta de desafios e tensões. Na minha infância, não havia palavras para os sentimentos confusos e para o desconforto que sentia perante a minha estranheza no mundo social. Essa ausência de linguagem para nomear minhas experiências gerava um isolamento interno e uma intensa procura por significado e compreensão. Foi nesse vazio que encontrei um forte interesse nas ciências sociais e psicológicas, que me ofereceram ferramentas para olhar para dentro e explicar minhas vivências sob uma lente científica e factual.
Na infância, vivia sob a sombra do capacitismo familiar. Aquela crença silenciosa e, por vezes, explícita, de que pessoas com diferenças neurais ou corporais são de alguma forma inferiores. Lembro-me de frases que marcaram a minha autoimagem como fraco e dependente, como “não sabes fazer nada” ou “devias fazer assim” ou ainda “devias ser assim ou assado”. Expressões destas frustrações parentais ressoaram em mim durante muitos anos. Estudos recentes mostram que essa internalização do capacitismo pode levar a sérios impactos psicológicos, incluindo baixa autoestima, ansiedade e dificuldades emocionais persistentes.
No âmago, sempre soube que era inteligente e especial, e que a minha forma de ver o mundo era diferente, complexa e rara. Essa dualidade, o conhecimento interno da minha capacidade e a percepção externa de rejeição ou incompreensão, alimentou uma luta constante pela validação da minha identidade. A psicologia reconhece essa experiência em muitos adultos autistas diagnosticados tardiamente, que convivem com um sentido de identidade dual muitas vezes conflituosa, fruto de camuflagem social e do estigma internalizado. A camuflagem, embora possa trazer benefícios temporários, tem consequências negativas significativas para a saúde mental, incluindo exaustão emocional e sentimentos de inadequação.
Receber o diagnóstico de autismo na idade adulta finalmente deu nome à minha neurobiologia única e permitiu reinterpretar o meu passado. A ciência diz-nos que o autismo fundamenta-se em complexas alterações neurobiológicas: mutações genéticas, disfunções em circuitos neurais envolvidos na cognição social, e processos atípicos em áreas cerebrais como a amígdala e o córtex pré-frontal. Essas particularidades neurobiológicas não são indicativos de fraqueza ou incapacidade, mas sim diferenças fundamentais no processamento cerebral que explicam as minhas experiências sociais e sensoriais atípicas.
É importante desmistificar a ideia de que somos estáticos, pelo contrário. O diagnóstico tardio de autismo mostrou-me que o meu passado difícil, marcado por julgamentos familiares e sociais equivocados, não define quem eu sou. Sou o resultado do presente, da compreensão crescente da minha singularidade e das minhas potencialidades. Além disso, a ciência aponta que o atraso no diagnóstico pode causar um maior sofrimento emocional e problemas de saúde mental, pois a ausência de compreensão e apoio adequado agrava os sentimentos de inadequação e confusão.
Hoje escrevo para me validar e aceitar não só as minhas vulnerabilidades, mas também a minha sede insaciável de conhecimento e autenticidade. Escrevo para lembrar a mim mesmo, nos momentos mais difíceis, que a inteligência, o valor e a diferenciação não se medem pela conformidade social, mas sim pela coragem de ser e entender a si mesmo. A neurodiversidade não é um fardo, mas sim uma riqueza que merece reconhecimento e respeito.
By Jonas Ferreira