“Isso é tão cringe”

Às vezes dou por mim a reflectir sobre o futuro dos jovens e, por consequência, da sociedade em que vivemos. Não por falta de confiança no seu potencial. Na verdade, talvez nunca tenhamos tido uma geração tão informada, tão ligada, tão cheia de ideias. Mas ao mesmo tempo noto que é também uma geração dominada pelo medo. Medo de errar, medo de se expor, medo da vergonha. Ou, como se diz agora, medo do cringe.

Esta palavra tão presente no vocabulário dos jovens tornou-se quase um sistema de alarme. Basta alguém comentar “cringe” num grupo ou, pior, transformá-lo num vídeo viral para que se deitem abaixo sonhos, se fechem portas ou se ridicularize quem simplesmente tentou ser autêntico. Vivemos numa era em que tudo é registado, partilhado, analisado e exposto. As câmaras dos telemóveis estão sempre a postos e as redes sociais são vitrinas onde só entra o que é considerado ideal. É uma era de hiper-vigilância onde tudo pode ser usado contra nós.

E é neste contexto que estamos, consciente ou inconscientemente, a ensinar os jovens a não exporem-se, a não arriscarem, a não falarem com sinceridade. O medo de serem julgados, gravados ou envergonhados está a silenciar vontades e a moldar comportamentos. Estamos a formar uma geração que teme parecer ridícula ao declarar o que sente, ao seguir um caminho diferente, ao amar fora do que se espera. Já não se trata apenas de errar, mas de errar em público, perante uma audiência implacável e quase sempre anónima.

As redes sociais, esses palcos montados onde todos mostram o melhor de si, tornaram-se tribunais. A espontaneidade foi substituída por cautela. A verdade por performance. A autenticidade por versões editadas de quem somos. No meio de tanta expectativa social, os jovens vivem presos entre o desejo de ser verdadeiro e a necessidade de ser aceite. E para serem aceites aprendem a controlar a voz, o riso, os impulsos. Aprendem a ser apenas a sombra do que poderiam ser.

Fico a pensar quantas ideias brilhantes nunca foram ditas, quantas palavras bonitas ficaram por escrever, quantos amores não aconteceram só porque alguém teve medo de parecer tolo. Eu próprio sinto esse peso. Já me calei quando devia ter falado, já fingi estar bem quando não estava, já suavizei o que sentia para não passar por fraco. Houve momentos em que revi uma conversa inteira na mente apenas porque disse algo que pareceu-me fora do lugar. Foi só uma frase. Mas no julgamento silencioso de um mundo online, até isso pode parecer demasiado.

O problema não está na vergonha em si. A vergonha é humana e pode ensinar-nos muito. O que está a destruir-nos é o modo como a vergonha foi transformada numa arma. Tornámo-la espectáculo, castigo, motivo de escárnio. E nesse processo temos perdido o espaço para o erro, para a aprendizagem, para o crescimento honesto. Estamos a sufocar a criatividade, a tirar coragem, a matar a liberdade de ser quem se é sem medo constante do olhar do outro.

Se queremos um futuro mais saudável, mais humano, precisamos de recuperar o valor da vulnerabilidade. Precisamos de permitir que os jovens errem, arrisquem, amem, digam disparates, riam alto e até se envergonhem. Porque são esses momentos, os mais reais, os mais frágeis, que aproximar-nos.

Talvez o futuro não passe pela perfeição que tanto tentamos alcançar mas, sim, pela coragem de viver com autenticidade mesmo quando isso implica parecer ridículo. Talvez o caminho seja aceitarmos o cringe como parte natural da vida. Porque ninguém cresce sem tropeçar. E ninguém se encontra sem primeiro correr o risco de se perder um pouco.

By Jonas Ferreira


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