Enquanto fazia scrolling pelo Instagram, deparei-me com um vídeo sobre o filósofo Byung-Chul Han que imediatamente captou a minha atenção. Abordava a dificuldade que temos de esperar. Uma inquietação que ultimamente sinto em quase todos os aspetos da minha vida, tanto a nível pessoal como profissional. Achei aquilo tão interessante que decidi investigar mais sobre o assunto.
O pensamento de Byung-Chul Han reflecte exatamente aquilo que observo nos dias de hoje. Vivemos numa sociedade marcada pela obsessão do agora, da resposta imediata, do desempenho sem pausas. Han descreve este momento como uma época de exaustão e pressa, em que o esperar deixou praticamente de ter lugar. Qualquer atraso transforma-se facilmente em desconforto, em ansiedade, em impaciência. Deixámos de tolerar o vazio ou o compasso de espera. Como se o tempo de amadurecimento fosse um desperdício ou, pior, um sinal de ineficácia.
Apercebi-me de que esta lógica não acontece apenas nas redes sociais. Claro que noto isso, por exemplo, quando deslizo pelos conteúdos online e rapidamente passo de um vídeo para outro. Isto porque poucos segundos já me parecem demorados demais. Mas o que realmente fez-me pensar foi como este imediatismo também entrou no meu quotidiano profissional. No meu trabalho com clientes, é cada vez mais frequente sentir uma exigência de urgência constante. Muitas vezes, mal termina uma reunião, já tenho um email à espera, um pedido, uma mensagem ansiosa a perguntar se já há novidades ou se posso tratar de determinada questão naquele mesmo momento. Parece que há uma corrida permanente contra o tempo, como se tudo tivesse de ser instantâneo e qualquer espera fosse um problema quase intolerável.
Esta cultura do imediato tem custos, tanto para quem pede como para quem entrega. Byung-Chul Han diz, e eu concordo, que a criatividade, a empatia e o verdadeiro valor das coisas não nascem da pressa. São necessárias pausas, tempo para pensar, maturar ideias, discutir alternativas e, acima de tudo, para aceitar que nem tudo pode ser resolvido rapidamente. Se cedo demasiadas vezes à pressão do imediato, sinto que perco a capacidade de refletir com profundidade, de dar atenção aos detalhes e de construir soluções mais sólidas ou inovadoras. Fica sempre a sensação de que o ritmo acelerado empobrece os resultados e esvazia as relações de confiança com quem trabalho.
Reparei também que este fenómeno influencia a forma como uso as próprias redes sociais para partilhar conteúdos sobre temas como a neurodivergência, o autismo e o autocuidado. As plataformas digitais estão desenhadas para promover o consumo rápido e obriga-me a pensar em formas cada vez mais sintéticas e aceleradas de comunicar. Isto tudo para satisfazer as expectativas de quem espera informação em segundos. No entanto, o essencial da vida, do autoconhecimento e das relações profundas não cabe nesse registo imediato. Exigem tempo, requerem espera e espaço para o inesperado.
Sinto vivamente esta contradição. Tenho vontade de criar conteúdos e projetos que promovam uma maior calma, reflexão e compreensão. No entanto, percebo como é difícil ir contra esta corrente de impaciência que atravessa tudo e todos. A pressão pelo rápido não é fácil de contrariar, especialmente quando os próprios clientes esperam que tudo aconteça num piscar de olhos. Tento explicar, sempre com respeito, que alguns processos simplesmente precisam de tempo e que a espera faz parte de qualquer percurso significativo. Quando consigo espaço para esclarecer isto, acredito que contribuo para relações de trabalho mais humanas e gratificantes.
Também na minha vida pessoal notei a importância de recuperar momentos de espera. Recordo-me de um final de tarde na Foz, sentado a olhar o movimento das ondas. Sem pressa e sem o telemóvel, absorvido apenas pela mudança lenta das cores no horizonte. Foi nesses intervalos de tempo, aparentemente vazios, que senti a surgir ideias, respostas e até tranquilidade. É nessas pausas, disse Han, que pode existir criatividade e auto-descoberta.
A minha experiência confirma que vivemos um conflito entre o desejo de sermos produtivos e a necessidade de respeitar o tempo das coisas. Tento, sempre que possível, sensibilizar os outros e a mim próprio para a importância da espera e do amadurecimento. Acredito que é aí que podemos redescobrir o que a vida pode ter de melhor: relações mais autênticas, projetos com significado e uma sensação de maior plenitude.
No fundo, aquele simples vídeo no Instagram serviu de ponto de partida para uma reflexão que vai muito além do ecrã do telemóvel. Mostrou-me que o medo de esperar, não é só sinal dos tempos, mas também um convite para recuperarmos o valor do tempo e da pausa em todas as áreas da nossa vida. Só assim, com paciência e abertura, podemos voltar a criar e a viver com intensidade e verdade.
By Jonas Ferreira
Uma resposta a “Vamos esperar juntos?”
Olá,
Cada vez mais tento mudar, abrandar o meu ritmo, apreciar e sentir tudo à minha volta com essa calma que aqui fala… Faz-me um bem incrível, são pequenos momentos no meu dia ou semana importantíssimos para o meu equilíbrio mas de certa forma sou “arrastada” pela pressa do imediato dos que me rodeiam.
Obrigada por esta partilha de conhecimento e pensamentos, adoro ler tudo que escreve ❤️
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