Desafios e mais desafios

Há dias em que a consciência de ser autista pesa mais do que noutras alturas. Não é só o desafio de interpretar o que os outros dizem ou fazem – é saber, de forma clara e constante, que simplesmente não compreendo como a maior parte das pessoas funciona nestas pequenas coisas do dia-a-dia.


Hoje, por exemplo, os meus colegas começaram a brincar comigo. Distorceram o que eu disse, fizeram piadas, e eu fiquei sem perceber se era sobre mim ou estavam a brincar comigo para me integrar. Tento analisar cada palavra, cada expressão, mas as pistas escapam-me. E o mais frustrante é que eu sei que não compreendo. Tenho perfeita noção de que me falta essa intuição social que parece natural para os outros.


É nestes momentos que a alexitimia pesa ainda mais. Não consigo perceber exatamente o que sinto, quanto mais adivinhar o que os outros sentem ou pensam. As pistas sociais, esses pequenos sinais que para muitos são óbvios, para mim são como enigmas. Um sorriso pode ser gentileza ou gozo. Uma gargalhada pode ser amizade ou piada. Como posso distinguir? Parece me tudo tão igual. E no meio da azáfama toda, é difícil analisar cada detalhe.


Hoje tentei alinhar na brincadeira. Imitei-os, fiz um beicinho exagerado e disse, a brincar, que eram maus e que ia chamar o superior. Achei que estava a entrar no espírito, a mostrar que também sei brincar. Mas depois reparei que ficaram diferentes – incomodados, talvez? Ou será que continuavam a brincar? Não sei. O que é certo é que pararam de brincar. E o aborrecimento é precisamente este: saber que não sei.

O mais curioso (e confuso) é que, depois desse momento, alguns deles ainda me perguntaram se eu estava bem. Fiquei sem saber se estavam preocupados comigo, se tinham percebido que fiquei desconfortável, ou se era apenas mais uma parte da brincadeira. Fico sempre a tentar decifrar se o que dizem é genuíno ou apenas mais um jogo social que não consigo acompanhar.

Ser autista é isto. É ter plena consciência de que o meu cérebro processa o mundo de outra forma. É viver com a constante sensação de estar a tentar decifrar um código que nunca me foi ensinado. E é cansativo. Não é só a confusão, é o desgaste de estar sempre alerta, sempre a tentar perceber o que se passa à minha volta, sempre a duvidar das minhas próprias interpretações.


O mais difícil é gerir este saber. Saber que não entendo, saber que provavelmente nunca vou entender como os outros entendem. Tento aceitar, tento não me deixar aborrecer, mas há dias em que só queria desligar esta consciência, só por um momento, e simplesmente ser, sem pensar tanto.


Escrevo isto não para me queixar, mas para partilhar a realidade de um autista. Não é falta de vontade de socializar, nem desinteresse pelos outros. É simplesmente um cérebro que processa as pistas sociais de forma diferente. E, às vezes, só queria que as pessoas percebessem o quanto pode ser cansativo e confuso tentar adaptar num mundo onde as regras não são claras para todos.


Se te identificas, não estás sozinho. Se não te identificas, talvez este texto ajude a compreender melhor quem, como eu, vive a tentar descodificar o enigma das relações humanas, todos os dias.

By Jonas Ferreira

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