Sobreviver à validação externa

Tinha apenas oito anos quando subi ao palco pela primeira vez. Foi numa pequena peça escolar e a sensação de estar sob as luzes, a interpretar uma personagem, foi como descobrir um novo mundo. Naquele momento, soube que a minha vida seria também dedicar ao teatro, para além de gostar de psicologia. Contudo, o que não sabia era que o sonho de ser ator viria acompanhado de uma batalha constante: a luta contra a necessidade de validação dos outros e o desafio de gostar de mim próprio e do meu trabalho. Ser artista é muito mais do que representar; é uma prova de resistência emocional e de autenticidade.

No início, parecia que tudo girava à volta da validação externa. O aplauso do público, os elogios dos diretores, as críticas positivas – tudo isso era como combustível para a minha motivação. No entanto, percebi rapidamente que, por detrás dessa procura, havia uma sensação de vazio. Perguntava-me constantemente: “Sou suficientemente bom?” ou “Será que gostam de mim?”. Estas questões transformaram-se numa espécie de ruído mental que, a cada dia, afastava-me da verdadeira razão pela qual escolhi este caminho: a paixão pela arte.

A teoria da autodeterminação, desenvolvida por Deci e Ryan (1985), explica que todos nós temos três necessidades psicológicas fundamentais: autonomia, competência e relacionamento. No meu caso, a procura por aceitação social e profissional começou a sobrepor-se à autonomia, afastando-me da minha essência como artista.

Recordo-me de um episódio que marcou esta questão. Estava a interpretar Hamlet numa produção no Teatro Vilarinha. Durante um ensaio geral, um crítico de renome foi convidado a assistir. Após o ensaio, ele comentou com o meu mentor: “Há talento, mas falta profundidade”. Aquele comentário, aparentemente inocente, ressaltou na minha cabeça durante semanas. Comecei a questionar todas as minhas escolhas artísticas, como se o meu valor dependesse unicamente daquela opinião.

Esta dependência da validação externa não é incomum entre artistas. Estudos como o de Clance e Imes (1978) sobre o fenómeno do impostor mostram como pessoas criativas, especialmente em contextos de alta visibilidade, frequentemente sentem que não são merecedoras do sucesso, mesmo quando têm provas concretas do seu talento.

Foi durante um período particularmente difícil que um dos meus mentores disse-me algo que mudou a minha relação com o palco: “O teatro é um espelho. Se não acreditares no que estás a fazer, o público também não vai acreditar.” Na altura, confesso que não compreendi totalmente o que ele queria dizer, mas com o tempo percebi que aquela frase estava carregada de verdade.

Carl Rogers (1961), psicólogo humanista, fala sobre a importância da aceitação incondicional de nós mesmos para alcançarmos o nosso potencial pleno. No teatro, essa aceitação significa interpretar uma personagem sem medo do julgamento alheio, confiando que a verdade da performance virá da nossa ligação genuína com o papel.

Houve um momento em que essa ideia se tornou particularmente clara para mim. Era uma peça experimental, onde tínhamos liberdade criativa para desenvolver as personagens. Decidi criar uma personagem que fosse uma extensão das minhas próprias experiências de vida, sem tentar impressionar ou agradar a ninguém. A experiência foi transformadora. Pela primeira vez, senti que estava a criar algo que verdadeiramente me representava.

Elizabeth Gilbert, no seu livro Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo (2015), descreve como a autenticidade é o maior presente que um artista pode oferecer. Criar algo fiel a si mesmo, sem a obsessão pela aprovação externa, é um acto de coragem e de liberdade.

No teatro, como em muitas áreas artísticas, os egos são quase sempre maiores do que os palcos. Lidar com a competição, as hierarquias e as dinâmicas de poder tornou-se um dos maiores desafios da minha carreira. É um mundo onde os diretores são muitas vezes vistos como figuras intocáveis, onde produtores dão mais importância ao lucro em detrimento da arte e onde os próprios atores, frequentemente, caem na armadilha de competir entre si em vez de colaborarem.

Pierre Bourdieu (1993), no seu estudo sobre o campo cultural, descreve como o poder no mundo artístico é dividido entre o capital simbólico (a legitimidade criativa) e o capital económico. Para um jovem ator, a pressão para agradar a ambos os lados pode ser sufocante. Lembro-me de uma situação específica em que um diretor insistiu para que a minha interpretação fosse mais “comercial” porque, segundo ele, o público iria preferir. Recusei-me a ceder, sabendo que isso poderia prejudicar a minha relação profissional com ele. Contudo, saí daquela experiência com uma convicção renovada: nunca sacrificaria a minha integridade artística para me conformar.

A crítica, seja ela externa ou interna, é uma constante na vida de qualquer ator. No entanto, aprendi que o verdadeiro desafio não é evitar as críticas, mas saber como lidar com elas. Kristin Neff (2003), no seu trabalho sobre autocompaixão, argumenta que tratar-nos com a mesma gentileza com que trataríamos um amigo em dificuldades pode ser uma ferramenta poderosa para enfrentar o perfeccionismo e a autocrítica.

Adotei essa filosofia como parte do meu processo criativo. Comecei a manter um diário onde refletia sobre cada performance, não para apontar erros, mas para celebrar pequenos progressos e identificar áreas de melhoria sem me julgar demasiado. Além disso, práticas como mindfulness ajudaram-me a permanecer presente, reduzindo a tendência do ruminar sobre as falhas passadas ou temer o futuro.

Hoje, olho para o teatro de forma diferente. Já não vejo o palco apenas como um lugar de representação, mas como um espaço de verdade. Cada performance é uma oportunidade para descobrir-me e desafiar-me. Aprendi que sobreviver como artista não significa agradar a todos ou alcançar o topo das hierarquias do showbusiness. Significa, antes, manter-me fiel àquilo que me trouxe aqui: a paixão pela arte e a vontade de contar histórias autênticas.

O teatro é, para mim, um reflexo da vida. Há altos e baixos, aplausos e silêncios, críticas e elogios. Mas, no final, o que realmente importa é a capacidade de olhar para o espelho que o palco oferece-nos e gostar daquilo que vemos.

Referências

• Bourdieu, P. (1993). The Field of Cultural Production. Polity Press.

• Clance, P. R., & Imes, S. A. (1978). The Impostor Phenomenon in High Achieving Women: Dynamics and Therapeutic Intervention. Psychotherapy: Theory, Research & Practice.

• Deci, E. L., & Ryan, R. M. (1985). Intrinsic Motivation and Self-Determination in Human Behavior. Springer Science & Business Media.

• Gilbert, E. (2015). Grande Magia: Vida Criativa Sem Medo. Editora Objetiva.

• Neff, K. (2003). Self-Compassion: An Alternative Conceptualization of a Healthy Attitude Toward Oneself. Self and Identity.

• Rogers, C. (1961). On Becoming a Person. Houghton Mifflin Harcourt.

By Jonas Ferreira

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