Vivemos numa época curiosa. Nunca falou-se tanto de saúde mental, diversidade e empatia e, paralelamente, nunca foi tão visível a banalização da violência, da desinformação e da desumanização.
Quando pensamos em “barbaridades”, o imaginário coletivo tenta apontar para o “outro”: o criminoso, o extremista, o “louco”. Há uma necessidade quase instintiva de associar o mal à diferença. Como se fosse mais confortável acreditar que aquilo que fere, exclui ou destrói vem sempre de fora daquilo que consideramos “normal”.
Mas a realidade insiste em contrariar essa narrativa.
Grande parte das decisões que criam sofrimento em larga escala, isto é, as guerras, as políticas discriminatórias, a exploração económica, a negligência social, são tomadas, apoiadas ou toleradas por pessoas perfeitamente integradas nas normas sociais. Pessoas com rotinas, famílias, carreiras. Pessoas que votam, comentam nas redes sociais, trabalham em instituições respeitadas.
Pessoas “normais”.
Nos últimos anos, assistimos a fenómenos que ilustram bem este paralelismo. A disseminação de discursos de ódio não é feita apenas por grupos marginais, mas amplificada por cidadãos comuns, muitas vezes convencidos de que estão apenas “a dizer verdades”. A indiferença perante as crises humanitárias cresce à medida que habituamo-nos a ver o sofrimento como pano de fundo mediático. A polarização transforma os adversários em inimigos, e os inimigos em alvos legítimos de desumanização.
Nada disto exige uma psicopatologia. Exige, muitas vezes, apenas conformismo, medo, ignorância ou simplesmente a incapacidade de questionar normas sociais e narrativas dominantes.
Do ponto de vista psicológico, isto não é surpreendente. Sabemos, desde os estudos clássicos de Milgram (1963) e Zimbardo (2007), que o contexto social pode levar os indivíduos comuns a comportamentos extraordinariamente cruéis. A obediência à autoridade, a pressão do grupo e a desresponsabilização moral são forças poderosas. O problema não está apenas nos indivíduos “anormais”, mas nos sistemas que normalizam o inaceitável.
E talvez seja aqui que o conceito de “normalidade” revela-se mais perigoso.
Ser “normal” implica, muitas vezes, adaptar-se ao contexto, mesmo quando esse contexto está eticamente comprometido. Implica não questionar demasiado, não sair da linha, não criar desconforto. Mas a história mostra-nos repetidamente que o progresso moral depende precisamente de quem desafia essa normalidade.
Curiosamente, muitas das pessoas rotuladas como “diferentes” que incluem os indivíduos neurodivergentes, tendem a questionar normas sociais de forma mais direta. Não por superioridade moral, mas por uma relação distinta com as convenções implícitas. E isso pode ser profundamente desconcertante para uma sociedade que valoriza a conformidade.
Talvez devêssemos, então, inverter a pergunta.
Em vez de “o que há de errado com quem é diferente?”, talvez devêssemos perguntar: o que há de perigoso naquilo que aceitamos como normal?
Porque quando a normalidade deixa de ser questionada, torna-se terreno fértil para a normalização do inaceitável. E quando ninguém estranha, ninguém resiste.
No fim, a verdadeira linha divisória pode não estar entre “normais” e “anormais”, mas entre aqueles que questionam e aqueles que simplesmente seguem.
E a história, esta, já mostrou-nos várias vezes de que lado costumam surgir as maiores barbaridades.
By Jonas Ferreira