Nos últimos tempos, li o livro A Prateleira do Amor: sobre mulheres, homens e relações, da psicóloga Valeska Zanello. E fiquei com a sensação de estar a ser desmontado por dentro por algo que eu já sabia, mas nunca tinha nomeado de forma tão clara. A metáfora da “prateleira” não é só uma imagem bonita; é um diagnóstico afetivo de como muitas relações são construídas, vividas e mantidas hoje, no contexto de uma sociedade que ainda fala de amor como se fosse uma utopia, mas se organiza como se o amor fosse sempre uma competição de quem está “desejável” o suficiente para permanecer na prateleira. Para Zanello, a “prateleira do amor” é a lista afetiva não escrita que muitas pessoas carregam: a ideia de que quem está nela é digno de escolha, de afeto, de validação, enquanto quem está fora é, por definição, um pouco mais descartável. Percebi, ao longo da leitura, como esta lógica atravessou a minha própria história, não como uma linha direta, mas como uma corrente subterrânea que influenciou escolhas, medos, silêncios e até formas de cuidar dos outros.
Uma das ideias mais fortes do livro é que, para muitos homens, o amor é vivido como um sistema de prestígio, mais do que como um projeto de cuidado. A escolha de quem está ao lado serve para reforçar identidade, status, aparência, capital social. Para muitas mulheres, em contrapartida, o amor é vivido como um sistema de sobrevivência psíquica: amar é, muitas vezes, a forma principal de provar que “vale a pena” existir. Quando li isso, pensei imediatamente em episódios da minha vida em que reproduzi o mesmo padrão: em que a minha autoestima ficava dependente de ser “escolhido”, de ser desejado, de permanecer na prateleira de alguém importante. Não era só sobre desejo, era sobre validação profunda. A psicologia social já mostra, aliás, que o investimento emocional nas relações românticas está sistematicamente ligado à autoestima e à pertença, sobretudo em contextos onde a identidade individual é frágil ou pouco reconhecida.
O livro também desmonta de forma magistral como a “prateleira do amor” é atravessada por outras desigualdades: de género, de classe, de raça, de idade, de aparência. Quem é mais jovem, mais “atraente”, mais magra, mais branca, mais bem-sucedida tende a ficar mais à frente da prateleira, enquanto outras pessoas são empurradas para o fundo, como se o amor fosse algo que só flui de forma natural para quem cumpre determinados critérios estéticos e sociais. A minha experiência, como pessoa neurodivergente e com um corpo que nem sempre se encaixa nos padrões de “normalidade” ou “atratividade”, fez-me muitas vezes sentir que não estava propriamente na prateleira, mas sim a olhar para ela de fora, como quem observa um leilão de afetos em que não sabe se é “peça” ou “plateia”. Psicologicamente, isso traduz-se em ansiedade de rejeição, hipervigilância afetiva e uma espécie de auto‑escrutínio constante: o olhar de quem está sempre a vigiar o que faz, o que diz e o que é, é suficiente para ser desejado.
Outra parte do livro que me tocou foi a discussão sobre como muitas mulheres aprendem a cuidar quase como um ato de renúncia emocional: cuidar do outro, antecipar as necessidades do parceiro, suportar inseguranças, conflitos e até abusos, tudo em troca da ilusão de que “se eu cuidar bastante, ele não vai sair”. Isso lembrou-me de episódios em que eu, como homem, assumi posições semelhantes, não pela “feminilidade”, mas pela aprendizagem de que o amor implicava sacrifício, contenção e submissão.
A literatura em psicologia dos relacionamentos mostra que os padrões de cuidado desproporcional e a submissão afetiva estão associados a um maior risco de sofrimento mental, burnout relacional e até depressão. O amor, quando se transforma em renúncia, deixa de ser um recurso de saúde e passa a ser um fator de stress crónico. É nesse ponto que a análise de Zanello aproxima-se de saberes que já existem em psicopatologia, em terapia de casal e em estudos de géneros: a ideia de que o que parece “bondade” pode esconder uma estrutura de dominação sutil, mas muito potente.
Ao refletir tudo isso à luz do que li, percebi que, em muitas fases da minha vida, a minha prateleira do amor estava desordenada. Havia personagens que eu mantinha na prateleira por nostalgia, por medo, por culpa, por obrigação social. Tinham pouco a ver com o desejo autêntico e muito a ver com tentativas de preencher vazios de validação, de identidade, de pertença. A psicologia do desenvolvimento afetivo mostra que, entre a adolescência e a idade adulta, muitas pessoas passam por uma fase de “autoconstrução relacional”: usam os parceiros para saber quem são, como se o amor fosse um espelho. Perceber isso hoje, com a clareza que só a distância e a leitura crítica dão, é libertador. Significa que posso começar a organizar a minha própria prateleira de forma mais consciente: não como um catálogo de quem me escolheu ou me descartou, mas como um mapa de relações que me fazem crescer, que me seguram, que me desafiam, sem precisar tratar cada escolha como prova de valor pessoal.
A atualidade, neste início de segunda metade da década de 2020, é marcada por uma espécie de contradição: por um lado, há mais discursos sobre autonomia, auto‑amor, amor-próprio e limites; por outro, as dinâmicas da prateleira persistem, só que agora são mediadas por redes sociais, apps de encontros e culturas de performance. A “lista” do que é ou não desejável passou a ser pública, polinizada, algorítmica. A ciência da comunicação e da psicologia digital já mostra que o uso intensivo das redes sociais está associado a uma maior objeticificação do corpo, a mais comparação social negativa e a mais sensação de inadequação afetiva. Ler “A Prateleira do Amor” em 2026, num contexto em que o amor é negociado através de perfis e filtros, é como pegar num manual de psicologia cultural e perceber que, por trás de cada “match”, há estruturas de género, de desejo e de poder profundamente enraizados.
O que mais ficou do livro não foi uma fórmula mágica para “nunca mais sofrer por amor”, mas uma espécie de revelação: ver com mais clareza que o que acontece nas relações íntimas não é apenas questão de “sorte” ou de “química”, mas de aprendizagem, de história, de contexto social e de desigualdades estruturais. Agora, a minha tarefa é traduzir essa clareza em práticas concretas: negociar melhores limites nos relacionamentos, questionar o que significa “ser amado” ou “ser escolhido”, e integrar neurodiversidade, masculinidade, feminilidade e amor numa narrativa que não se baseie apenas em prateleiras, mas em redes de cuidado mútuo, responsabilidade emocional e liberdade para não precisar ser “escolhido” para valer a pena.
Ao mergulhar em “The Biopolitics of Feeling: Race, Sex, and Science in the Nineteenth Century”, de Kyla Schuller, sinto que passo a ver o mundo com outros olhos. Olhos mais atentos às armadilhas históricas que ensinaram-nos a aceitar como “naturais” certas divisões. Schuller parte do século XIX, um período das invenções das categorias modernas de raça e género, para mostrar como a ciência e o próprio campo dos afetos foram usados na construção de desigualdades que ainda hoje condicionam-nos.
O que mais me marcou neste livro é a exposição meticulosa dos mecanismos através dos quais a diferença foi institucionalizada. Não foi apenas a biologia tradicional que cimentou a ilusão da existência de “duas raças humanas” (negra e branca) ou “dois sexos”. Foi uma conjugação de ciência, literatura, medicina, políticas públicas e até da produção cultural que investiu na ideia de que só quem corresponde ao padrão branco, masculino e burguês estaria “apto” para sentir de maneira civilizada e, por isso, apto para o poder e para o reconhecimento social.
Schuller recupera o conceito de “impressibilidade”, ou seja, a suposta capacidade dos corpos serem moldados pelos sentimentos, ambiente e experiências. Esse conceito foi largamente utilizado para dividir, por exemplo, os negros e os indígenas dos brancos e as mulheres dos homens, ao afirmar que uns eram demasiado impressionáveis (logo frágeis, vulneráveis) e outros pouco impressionáveis (insensíveis, menos humanos). E assim peepetuavam um ciclo de exclusão, dominação e violência. Eu fico a pensar quantas vidas e trajetórias foram marcadas negativamente por essas ideias ditas “científicas”.
O livro também alerta como o sentimentalismo, longe de ser um simples traço de época ou de literatura, foi incorporado à lógica do poder. Ou seja: sentir que determinado modo passou a ser algo vigiado, aplicado e até criminalizado para uns, enquanto era considerado natural e digno para outros. Isso tornou-se uma ferramenta de separação, aquilo que, em vez de unir, multiplica o abismo entre os “cidadãos” e os “outros”.
Para mim, este livro é uma chamada à responsabilidade: até que ponto ocupamos, reproduzimos ou questionamos esses velhos paradigmas? Estamos mesmo dispostos a criar outros modos de existência coletiva, mais justos, abertos e plurais? Ou vamos continuar, mesmo sem querer, a reforçar ideias ultrapassadas que só servem para desumanizar?
Schuller não dá só uma explicação académica; oferece uma ferramenta de desconstrução crítica. Mostra que a pluralidade corporal, vivencial e afetiva é uma riqueza, e não uma ameaça. Levar a sério este livro é comprometer-me com uma ética do cuidado e da escuta. É entender que a humanidade não se esgota num padrão e que a transformação social começa quando aceitamos, sem reservas, a diferença.
Recomendo-o vivamente, não só como um exercício intelectual, mas como um convite urgente: questionar as velhas certezas é, talvez, o caminho mais radical de liberdade e justiça que temos.
Adoro o Michel Foucault, não só pelo rigor intelectual das suas obras, mas, sobretudo, pela forma única como observa a sociedade e revela as estruturas de poder, exclusão e normalização. Há algo de estimulante e quase libertador na maneira como Foucault olha para além das aparências. Desconstroi aquilo que tomamos como garantido no quotidiano, especialmente quando se trata de temas como a loucura e a saúde mental. Ler Foucault é, para mim, pensar no mundo de outro ângulo, a desconfiar dos consensos e a ouvir o que costuma ser silenciado.
Ler o “Madness and Civilization” do Foucault mudou para sempre a forma como percebo tudo o que envolve saúde mental, exclusão e o tal “confinamento” do que é diferente. Sempre tive dificuldade em encaixar-me no que a sociedade espera e, talvez por isso, certas páginas do livro tocaram-me com uma força quase física. As imagens que Foucault cria (como a nave dos loucos a ser enviada rio abaixo, afastando aqueles que não cabem nos padrões) não me parecem algo longínquo ou apenas histórico. Eu próprio já senti esse distanciamento, esse silêncio social, não só pelas minhas diferenças, mas também pelo estigma que ainda rodeia tudo o que é saúde mental.
Reconheço em mim e nos outros uma certa herança desse passado: continua a existir um medo enorme de falar abertamente sobre depressão, ansiedade, autismo, ou qualquer estado mental que fuja à norma. Vejo familiares a sussurrar quando alguém “anda a tomar medicamentos” ou colegas de trabalho a evitar o tema, como se ainda houvesse uma fronteira invisível a separar os “sãos” dos “loucos”. Às vezes, sinto que mudaram as paredes, mas não mudaram os limites. O “confinamento” já não é só físico. Tornou-se cultural, digital e até social nas pequenas coisas do dia-a-dia: convites que não chegam, olhares de lado, ou a pressa em diagnósticos e receitas rápidas.
Também sinto, paradoxalmente, que vivemos numa época de maior visibilidade, em que se fala muito de saúde mental nas redes sociais. Mas há outra espécie de silêncio: discursos prontos, frases-feitas e pouca abertura ao desconforto real, que continua a ser atirado para as margens. Experimentei isto desde o momento em que comecei a partilhar, por exemplo, sobre o meu diagnóstico de autismo tardio. Ha quem ouça e apoie, mas também há muita gente que fecha a conversa com um “vais ver que és capaz como qualquer um”. E eu penso: e se for precisamente a diferença de que falta para que haja melhor compreensão?
O que mais me inquieta e motiva a continuar a questionar (muito também por causa do que Foucault esmiuça) é esta urgência de normalizar, controlar e, no fundo, silenciar tudo o que não se explica de forma fácil. Na prática, vejo isso nas escolas que rapidamente remetem alunos com dificuldades para “salas especiais”; em adultos que nunca mais falam de episódios delicados de saúde mental; em pessoas que se perdem entre consultas, diagnósticos e medicamentos mas continuam órfãs de compreensão verdadeira ou de pertença.
A minha vontade é criar mais espaços onde se possa conversar sobre o incómodo, sobre a diferença e sobre a estranheza sem que haja logo um impulso de remediar, corrigir ou, simplesmente, afastar. O que Foucault trouxe para mim, e para muitos outros, acredito, foi este abrir de olhos: o problema não é só dos hospitais, nem apenas dos médicos; é da sociedade que não sabe dialogar com aquilo que foge à razão. Com a fragilidade e com a diversidade humanas. No fundo, continuo a questionar-me: o que é que ganhamos em silenciar a loucura? E o que ainda temos a perder enquanto não ouvirmos quem foge às nossas caixas, mesmo quando esta pessoa sou eu?
Os relacionamentos gay, como qualquer outra forma de envolvimento humano, são atravessados por dinâmicas sociais, culturais e emocionais complexas. No entanto, eles também carregam desafios únicos, influenciados por estruturas históricas de opressão, expectativas internas da comunidade LGBTQIA+ e fenómenos contemporâneos como o elitismo paradoxal. Este conceito reflete a tensão entre a procura por inclusão e a reprodução de hierarquias dentro do próprio grupo marginalizado. Para compreender essas dinâmicas, podemos recorrer tanto à literatura quanto à ciência.
Desde O Retrato de Dorian Gray (1890), de Oscar Wilde, até Call Me by Your Name (2007), de André Aciman, a literatura tem sido um espaço onde o amor entre pessoas do mesmo sexo é explorado de forma íntima e profunda. No entanto, muitas dessas obras revelam um padrão: a representação do relacionamento gay quase sempre passa por um filtro de exclusividade intelectual ou económica.
No século XX, James Baldwin, em O Quarto de Giovanni (1956), trouxe um retrato cru e melancólico da homossexualidade numa Paris que oscilava entre a boemia artística e a marginalização social. O protagonista, David, um americano branco e privilegiado, luta contra os seus sentimentos por Giovanni, um jovem italiano sem perspectivas financeiras. A relação entre os dois é marcada por uma disparidade de classes que reflete uma questão latente dentro da comunidade LGBTQIA+: a forma como o elitismo pode determinar quem tem direito a viver o amor de forma plena e legítima.
O conceito de elitismo paradoxal refere-se a uma contradição dentro dos grupos historicamente marginalizados: embora procurem inclusão e igualdade, estes mesmos grupos podem, nalguns momentos, reproduzir hierarquias internas baseadas na classe, raça, estética e noutros fatores. Dentro da comunidade gay, isso manifesta-se de diversas maneiras, desde a aplicações de namoro que favorecem certos perfis até à valorização de determinados corpos e estilos de vida em detrimento de outros.
Um estudo de 2018 publicado no Journal of Social Issues mostrou que a comunidade gay, apesar de sofrer discriminação externa, pode reforçar as normas supressoras internamente. O estudo analisou as interações nas redes sociais e aplicações de namoro e concluiu que os homens gays classificam os seus pares com base em atributos como, o nível educacional, o poder aquisitivo e a aparência. Isto permitiu criar uma subcultura que, em muitos aspectos, imita os padrões de exclusividade heteronormativos que historicamente os excluíram.
Além disso, outros estudos sobre interseccionalidade, como as de Kimberlé Crenshaw (1989), demonstram que os homens gays negros ou de origem latina enfrentam desafios adicionais, em que são fetichizados ou excluídos das narrativas centrais sobre o amor gay. De tal maneira que evidencia como o elitismo paradoxal não manifesta-se apenas em questões económicas, mas também na valorização de certas identidades dentro da própria comunidade.
Se a literatura reflete e a ciência confirma essa realidade, a questão central é: como transformar os relacionamentos gay em espaços mais inclusivos e autênticos? Algumas abordagens podem ajudar:
1. Consciência Crítica – Reconhecer que os padrões de exclusão existem dentro da comunidade gay é o primeiro passo para combatê-los. Isso significa questionar preferências internalizadas e compreender que muitas delas foram moldadas por valores supressivos.
2. Diversificação das Narrativas – A representatividade importa. Apoiar autores, criadores e influenciadores que abordam experiências diversas dentro da comunidade LGBTQIA+ pode ajudar a construir um imaginário mais inclusivo.
3. Redefinição de Valores – Em vez de dar prioridade ao status social, aparência ou capital cultural nos relacionamentos, procure envolvimento baseado na vulnerabilidade, afinidade emocional e no crescimento mútuo. Pois esses fatores podem levar a experiências mais autênticas e menos regidas por hierarquias veladas.
Os relacionamentos gay sempre foram politizados, quer queiramos ou não. Desde os tempos em que o simples ato de amar era um crime, até hoje, quando novas formas de exclusão surgem dentro da própria comunidade. A procura por relações saudáveis e verdadeiras exige reflexão e ação. O elitismo paradoxal lembra-nos que a luta por inclusão não pode limitar-se a ser aceito pela sociedade heteronormativa — ela deve começar dentro da própria comunidade e garantir que ninguém seja excluído por não se encaixar num padrão idealizado.
Ao lermos Baldwin, Wilde ou Aciman, e ao analisarmos estudos sobre o comportamento e o preconceito interno, podemos perceber que a literatura e a ciência oferecem-nos ferramentas para construir um futuro onde o amor entre pessoas do mesmo sexo não precise de ser filtrado pelas camadas de elitismo, mas sim vivido de forma plena e igualitária.
Outro aspecto do elitismo paradoxal dentro dos relacionamentos gay é a perpetuação de hierarquias herdadas da heteronormatividade, como a categorização entre ativo e passivo. Embora essa nomenclatura tenha raízes na prática sexual, ela frequentemente expande-se para além da intimidade e influencia percepções sobre masculinidade, poder e status dentro da comunidade LGBTQIA+. Estudos como as de Jonathan Ned Katz (The Invention of Heterosexuality, 1995) indicam que essas classificações carregam resquícios de uma visão patriarcal que associa a atividade sexual ao domínio e a passividade à submissão — uma lógica que, ironicamente, muitas vezes reproduz-se dentro das relações entre homens gays.
Essa categorização influencia a forma como os indivíduos são percebidos e valorizados dentro da comunidade. Estudos como o de Silva e Perucchi (2017) apontam que homens gays que identificam-se como “passivos” podem sofrer estigmatização, pois a passividade ainda é erroneamente associada a fragilidade ou feminilidade, enquanto o papel “ativo” é frequentemente vinculado à masculinidade hegemônica. Este fenómeno reforça as barreiras internas e cria uma divisão artificial dentro da própria comunidade afastando indivíduos de uma vivência mais autêntica da sexualidade.
Além da questão do papel sexual, o corpo também tornou-se um fator determinante para a aceitação dentro da cultura gay contemporânea. A valorização excessiva de corpos musculosos e atléticos, amplificada pelas redes sociais e aplicações de namoro, estabelece um padrão estético excludente. A investigação de Mark Brewster (2019) sobre a imagem corporal nos homens gays postula que a insatisfação com o próprio corpo é significativamente maior nesse grupo do que entre os homens heterossexuais levando a perturbações alimentares, uso excessivo de anabolizantes e impactos na autoestima. E cria um ciclo em que a aceitação dentro da comunidade parece depender mais da aderência a um ideal estético do que da individualidade e do afeto genuíno.
Portanto, se o elitismo paradoxal dentro da comunidade gay manifesta-se através de barreiras de classe, estética e performance de género, é importante questionar esses padrões para promover relações mais saudáveis e equitativas. A desconstrução da nomenclatura ativo-passivo, a ampliação da diversidade de corpos representados e o incentivo à autoaceitação são passos fundamentais para que o amor e o envolvimento sejam vividos com mais autenticidade. Afinal, a liberdade sexual e afetiva, tão arduamente conquistada, não pode tornar-se apenas mais uma forma de exclusão dentro da própria comunidade.
Em pleno auge do verão, neste mês de julho tão carregado de significado, encontro-me a refletir sobre um tema de profunda importância pessoal e social: a auto-afirmação do meu querido amigo Alex. O calor do verão parece espelhar a intensidade das emoções e transformações que testemunhei ao longo deste processo.
Recordo-me como se fosse hoje, aquela tarde de julho, há exatamente três anos. O sol se punha e coloria o céu com tons de laranja e rosa, quando o conheci. Estávamos em pelo Pride. Sentados no banco do parque, envoltos pelo aroma doce das tílias em flor. Reuniu-se de coragem para desabafar as suas dúvidas sobre identidade de género. A voz tremia levemente, mas os olhos brilhavam com uma mistura de medo e esperança.
Aquele momento de vulnerabilidade marcou o início de uma transformação profunda, não apenas para Alex, mas para todos ao seu redor. Foi como se uma porta se abrisse e permitisse que uma luz há muito tempo contida finalmente se espalhasse. A partir dali, testemunhei a coragem de Alex a explorar a sua verdadeira essência, a desafiar as normas sociais e a enfrentar os seus próprios medos.
O caminho não foi fácil. Houve momentos de dúvida, de tristeza e de frustração. Mas também houve momentos de alegria pura, de descobertas reveladoras e de ligações mais profundas com aqueles que verdadeiramente o amavam. Cada passo dado nesse caminho de autoconhecimento parecia fortalecer a sua determinação e ampliar a compreensão de si mesmo.
Agora, três anos depois, observo Alex com admiração. A sua transformação vai muito além da aparência física. Há uma nova confiança no seu andar, uma paz no seu sorriso que antes não existia. O percurso de Alex ensinou-me sobre a importância da autenticidade, da coragem de ser quem realmente somos, e do poder transformador do amor e da aceitação.
Neste julho, enquanto celebramos o orgulho e a diversidade, a história de Alex serve como uma poderosa mensagem da importância de criarmos um mundo onde cada pessoa possa viver a sua verdade livremente. É uma história de coragem, de amor próprio e da beleza que surge quando permitimos que a nossa luz interior brilhe em toda a sua planitude.
Quando o conheci, Alex sempre teve uma sensação persistente de desconforto com o género que lhe foi atribuído à nascença. Durante muito tempo, não soube dar nome a esse sentimento. Confidenciou-me que foi a história de Laverne Cox, a atriz trans de “Orange is the New Black”, que despertou-lhe a curiosidade. A forma como Laverne descreveu a sua experiência de infância ecoou profundamente em Alex.
À medida que começou a explorar mais sobre identidade de género, Alex deparou-se com uma tempestade de emoções. Passou noites a fio a pesquisar na Internet, a ler testemunhos de pessoas trans e a questionar-se sobre a sua própria identidade. Cada nova descoberta parecia encaixar-se como uma peça de puzzle há muito perdida.
Alex contou-me que se lembrava de, em criança, sentir-se deslocado quando brincava com os outros miúdos. Nunca se identificou completamente com os papéis de género que lhe eram impostos. Agora, ao olhar para trás, percebia que esses sentimentos não eram apenas uma fase, mas sim pistas sobre a sua verdadeira identidade.
Era fascinante ver como cada nova informação parecia iluminar um aspecto diferente das suas experiências passadas. Depois de Alex começar a partilhar comigo, as memórias de infância e adolescência, uma nova perspectiva surgiu-me. O desconforto com certos aspectos do seu próprio corpo, a identificação mais forte com pessoas do género oposto ao que lhe foi designado, a sensação de inadequação nos papéis de género esperados pela sociedade – tudo isso começou a encaixar como peças de um quebra-cabeça e a entender ainda mais a vida de um trans.
Enquanto pessoa não trans, estou a aprender muito sobre as experiências das pessoas transgénero, como a de Alex. Embora nunca possa verdadeiramente sentir na pele o que significa ser trans, tenho-me esforçado por desenvolver uma compreensão profunda e uma empatia genuína.
Quero também transmitir que não se trata apenas de simpatizar ou de sentir pena, mas sim de tentar realmente compreender e sentir o que o outro está a passar. Para mim, isto começou com a escuta ativa. Ouvir as histórias de Alex e de outras pessoas trans, sem julgamento e com uma mente aberta, permitiu-me vislumbrar um pouco do seu mundo.
Contudo, o processo de aceitação não foi fácil para Alex. Lutou contra medos internos e preocupações sobre como a família e os amigos reagiriam. Mas a cada passo que dava em direção à sua verdade, sentia-se mais leve e mais autêntico.
Foi com uma mistura de nervosismo e alívio que Alex finalmente decidiu partilhar os seus sentimentos comigo naquela tarde de verão. Lembro-me de ver nos seus olhos uma combinação de vulnerabilidade e esperança. Esse momento marcou o início de uma nova fase na vida de Alex. Uma em que finalmente podia começar a viver de forma autêntica.
Observei como ele mergulhou em estudos sobre identidade de género e transgeneridade. Alex devorou livros como “Gender Outlaw” de Kate Bornstein, que questionam as normas de género da sociedade.
“O Meu Nome É Amanda”, de Amanda Lorence, uma autora portuguesa do Brasil e transgénero. Foi um dos primeiros livros que Alex leu. Esta obra autobiográfica ofereceu-lhe uma perspetiva próxima e culturalmente relevante sobre a experiência trans no Brasil.
“Transgender History”, de Susan Stryker, proporcionou a Alex uma compreensão mais ampla do contexto histórico e social do movimento transgénero. Este livro ajudou-o a situar a sua própria experiência dentro de um panorama mais vasto de luta e progresso.
“Trans Like Me”, de CN Lester, foi particularmente útil para Alex na exploração de questões de identidade não-binária e na compreensão do espectro de experiências trans.
Para uma perspetiva mais técnica sobre o processo médico de transição, Alex recorreu a “Transgender Medicine: A Multidisciplinary Approach”, editado por Leonid Poretsky e Wylie C. Hembree. Embora este livro seja direcionado principalmente para profissionais de saúde, Alex encontrou nele informações valiosas e seguras sobre os aspetos médicos da transição.
Mas Alex ainda tinha muitas dúvidas. Lembro-me de quando ele descobriu o Modelo de Identidade Trans de Arlene Istar Lev. Alex identificou-se imediatamente com o estágio de exploração da identidade. Foi inspirador ver como ele começou a experimentar diferentes expressões de género e a usar roupas e acessórios que faziam sentir-se mais autêntico.
Ainda me lembro, numa tarde de chuva. Fomos lanchar ao café habitual e Alex pediu-me para o tratar com diferentes pronomes quando estivéssemos sozinhos. Uma forma de experimentar e testar para “ver” como se fazia sentir. A alegria nos olhos, quando eu lhe chamava com os novos pronomes era magnífico. Era como se uma parte dele finalmente, fosse reconhecida.
Acompanhei Alex nos estudos sobre a disforia de género. Ele explicou-me como muitos dos sintomas descritos no DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais) se aplicavam – a angústia em relação a certas características sexuais, o desejo de modificar o corpo. Mas Alex também descobriu o conceito de euforia de género, e isso pareceu repercutir ainda mais com as suas experiências.
Foi emocionante ver Alex reunir coragem para consultar uma médica de medicina geral especializada em sexologia. Partilhou comigo a consulta inicial , o encaminhamento aos serviços especializados para a mudança de género e todo o processo subsequente.
Alex contou-me que, inicialmente, sentiu-se bastante nervoso ao marcar a consulta. Contudo, a abordagem profissional e empática da médica ajudou-lhe a sentir-se à vontade para discutir questões que, até então, lhe pareciam demasiado íntimas ou confusas para partilhar.
Durante a consulta, a médica utilizou o Inventário de Identidade de Género, uma ferramenta de avaliação psicológica concebida para ajudar as pessoas a explorar e articular as suas experiências relacionadas com a identidade de género. Alex explicou-me como este inventário ajudou-lhe a dar voz a sentimentos que antes lhe pareciam nebulosos e difíceis de expressar.
As perguntas do inventário abordaram vários aspectos da sua experiência: o seu sentido interno de género, o desconforto com características sexuais primárias e secundárias, e as suas preferências em termos de expressão de género. Alex referiu ainda que, ao responder a estas questões, começou a ganhar uma compreensão mais clara e estruturada da sua identidade.
A médica, com a sua experiência em sexologia, foi capaz de interpretar os resultados do inventário e discuti-los com Alex de forma sensível e informada. Esta conversa permitiu-lhe não só validar os sentimentos do Alex, mas também fornecer-lhe informações sobre os próximos passos no processo de transição.
Com base nesta avaliação inicial, a médica encaminhou Alex para os serviços especializados em saúde trans no (SNS) Serviço Nacional de Saúde. Explicou-lhe o processo normal para a mudança de género, as consultas com endocrinologistas, psicólogos e, eventualmente, cirurgiões conforme os desejos e necessidades específicos de Alex.
Além disso, teve de realizar uma série de exames médicos, incluindo mamografias e análises ao sangue, para garantir que estava em condições de saúde adequadas para a cirurgia. A burocracia envolvida foi extenuante. Alex teve de navegar por um labirinto de formulários, autorizações e pareceres médicos. Cada etapa requeria paciência e perseverança, mas a sua determinação nunca vacilou. Finalmente, após quase dois anos de consultas, exames e espera, Alex recebeu a aprovação para a mastectomia bilateral subcutânea para homens transgêneros.
Descreveu-me a mistura de emoções – alívio, ansiedade e, acima de tudo, esperança – que sentiu ao receber a notícia. A cirurgia em si foi um sucesso. Ele falou-me da sensação libertadora de olhar para o espelho e ver um reflexo que finalmente correspondia à sua identidade de género. Ao ouvir Alex relatar estas experiências, fiquei impressionado com a sua resiliência e coragem. Apesar dos obstáculos burocráticos e da discriminação de alguns médicos, a sua determinação permitiu-lhe alcançar o que tanto desejava: viver autenticamente como ele próprio
Alex começou por falar da terapia hormonal de afirmação de género. Um passo fundamental na sua transição física. Explicou-me também que iniciou a toma de testosterona sob a forma de injeções intramusculares, um processo supervisionado por um endocrinologista especializado na saúde trans. Este tratamento visa induzir mudanças físicas para alinhar o seu corpo com a sua identidade de género: o aprofundamento da voz, o aumento da massa muscular e a redistribuição da gordura corporal. Paralelamente ao processo hormonal, Alex embarcou na complexa e burocrática mudança legal de nome e género em Portugal. Explicou-me que, desde a Lei n.º 38/2018, o processo ficou mais acessível, mas ainda assim exigente. Alex teve de obter um relatório de um psicólogo ou psiquiatra que atestasse a sua identidade de género. Um documento para iniciar o processo. Com este relatório em mãos, Alex dirigiu-se à Conservatória do Registo Civil para solicitar a mudança de nome e género nos seus documentos oficiais. Descreveu-me o alívio que sentiu ao ver finalmente o seu verdadeiro nome e género refletidos no Cartão de Cidadão, um marco significativo na sua auto-afirmação.
Alex expressou-me o quão validante foi esta experiência. Pela primeira vez, sentia que uma profissional de saúde compreendia verdadeiramente a sua situação e estava empenhada em ajudar-lhe a navegar pelo complexo sistema de saúde para receber os cuidados de que necessitava.
A experiência do Alex põe em evidência a importância de uma comunicação eficaz e de uma assistência empática no atendimento a pessoas trans. A forma como a médica de medicina geral abordou a situação do Alex, com sensibilidade e compreensão, foi determinante para o seu bem-estar e para o sucesso do início do seu processo de transição.
Esta abordagem empática não só ajudou o Alex a sentir-se mais confortável e validado, mas também permitiu que ele partilhasse informações importantes sobre a sua experiência de forma mais aberta e honesta. Isto, por sua vez, possibilitou um diagnóstico mais preciso e um plano de cuidados mais adequado às suas necessidades específicas.
Contudo, é importante salientar que a experiência positiva do Alex não é universal. Muitas pessoas trans ainda enfrentam barreiras significativas no acesso a cuidados de saúde adequados e respeitosos. Isto sublinha a necessidade premente de mais investigação na área da saúde trans, particularmente no que diz respeito à determinação e regulação dos cuidados primários para esta população.
A investigação contínua é essencial para compreender melhor as necessidades de saúde específicas das pessoas trans, desenvolver protocolos de cuidados baseados em evidências e identificar as melhores práticas para o atendimento a esta comunidade. Além disso, a investigação pode ajudar a informar políticas de saúde mais inclusivas e a melhorar a formação dos profissionais de saúde.
E por falar em formação, é fundamental destacar a importância da formação contínua dos profissionais de saúde em questões relacionadas com a saúde trans. A médica que atendeu o Alex estava bem preparada para lidar com questões de identidade de género, mas infelizmente, nem todos os profissionais de saúde têm este nível de preparação.
A formação contínua deve abranger não apenas os aspectos médicos da transição de género, mas também questões de sensibilidade cultural, uso adequado de pronomes e nomes, e compreensão das barreiras sociais e legais que as pessoas trans frequentemente enfrentam. Esta formação deve ser regular e atualizada e refletir as mais recentes investigações e melhores práticas no campo da saúde trans.
É importante destacar também que esta formação não se limite apenas aos especialistas em saúde trans, mas a todos os profissionais de saúde, incluindo médicos de família, enfermeiros, técnicos de saúde e pessoal administrativo. Isto ajudará a garantir que as pessoas trans recebam cuidados respeitosos e adequados em todos os níveis do sistema de saúde.
A história de Alex serve como um exemplo positivo do que pode acontecer quando os profissionais de saúde estão bem preparados e são empáticos. No entanto, também relembra-nos que ainda há muito trabalho a ser feito para garantir que todas as pessoas trans tenham acesso a cuidados de saúde de alta qualidade, centrados no paciente e culturalmente competentes.
À medida que avançamos, continuemos a investir em investigação, formação e políticas de saúde que promovam a equidade e a inclusão para a comunidade trans. Só assim poderemos criar um sistema de saúde verdadeiramente inclusivo, onde todas as pessoas, independentemente da sua identidade de género, possam receber os cuidados de que necessitam com dignidade e respeito.
Ao longo deste processo, vi Alex a abraçar a ideia de que não existe uma única forma de ser trans. E isto parte dos livros que ele devorou. Ele confidenciou-me: “Cada caminho é único. Algumas pessoas sabem desde cedo, outras descobrem mais tarde. Algumas fazem transição médica, outras não. O importante é ser autêntico contigo mesmo.”
Alex passou por um período intenso de auto-reflexão. Ele questionava-se constantemente:
“Como me sinto em relação ao género designado ao nascer? Como gostaria que as pessoas me vissem? Como me imagino no futuro? Que mudanças gostaria de fazer em relação à minha expressão de género?”
Foi um privilégio acompanhar Alex de perto. Vi-o a experimentar diferentes expressões de género em ambientes seguros, usar variadissimas roupas, experimentar novos nomes e pronomes. Não havia pressa ou um guião a seguir – era um processo natural de auto-afirmação.
Hoje, vejo como essa todo esse caminho transformou Alex. Aceitar-se como pessoa trans foi profundamente libertador para ele. É como se uma névoa dissipasse e que olhasse o mundo e a si mesmo com mais clareza.
Alex agora usa a sua experiência para apoiar outras pessoas que estão a questionar a sua identidade de género. Alex sempre enfatiza que não há teste definitivo para saber se alguém é trans – é um caminho pessoal de auto-conhecimento que pode levar tempo.
Ver a transformação de Alex ensinou-me muito sobre coragem, autenticidade e a importância de viver a nossa verdade. A auto-afirmação de Alex lembrou me que, independentemente do resultado, o processo de auto-descoberta e procura pela autenticidade é valioso por si só.
A história de Alex não só ilumina os desafios enfrentados pela comunidade trans em Portugal, mas também destaca a importância de sistemas de saúde acessíveis e inclusivos. É um testemunho poderoso da necessidade contínua de educação, compreensão e apoio para indivíduos trans na sua caminhada de auto-descoberta e afirmação.
Através destas conversas e da minha própria pesquisa, comecei a entender os desafios únicos que as pessoas trans enfrentam. A disforia de género, por exemplo, não é algo que eu possa experienciar diretamente, mas ao ouvir o Alex descrever a angústia de se sentir desligado do seu próprio corpo, pude começar a imaginar quão profundamente perturbadora essa experiência deve ser.
O conhecimento tem sido uma ferramenta poderosa no meu percurso de compreensão. Li livros, artigos e estudos sobre identidade de género, o processo da transição médica e os desafios sociais enfrentados pela comunidade trans. Este conhecimento ajudou-me a contextualizar as experiências individuais que ouvi e a compreender as questões mais amplas que afetam a comunidade trans.
Quero que esta e tantas histórias sirvam para que as pessoas cisgénero (pessoas que se identificam com o sexo à nascença) que nunca tiveram de questionar a sua identidade de género ou lutar para que ela fosse reconhecida, compreendam este privilégio de poder ajudar a ser mais sensível e consciente nas interações com pessoas trans.
Aprender a importância da linguagem inclusiva e respeitosa. Usar os pronomes corretos, por exemplo, pode parecer um pequeno gesto, mas sei agora o quanto isso pode significar para uma pessoa trans. É uma forma de validar a sua identidade e mostrar respeito.
Embora possamos não “sentir na pele” o que significa ser trans, podemos usar o conhecimento e a empatia para sermos um melhor aliado. Isto significa não só oferecer apoio emocional, mas também defender ativamente os direitos das pessoas trans, educar outros e desafiar a transfobia.
De facto, a minha amizade com o Alex ensinou-me que, embora possa nunca compreender completamente a sua experiência, posso esforçar-me continuamente para ser compreensivo, solidário e respeitoso. A empatia, afinal, não se trata de experimentar exatamente o que o outro experimenta, mas sim de estar disposto a abrir o coração e a mente para tentar compreender.
No final, percebi que ser um bom aliado não requer que eu tenha a mesma experiência, mas sim que eu esteja disposto a aprender, a ouvir e a apoiar. É um processo contínuo de educação e autorreflexão e acredito que é necessário para criar uma sociedade mais inclusiva e compreensiva para todes.