Desde a minha infância, sempre procurei me identificar com os meus pares, em grupos sociais e tentar encontrar um senso de comunidade, de propósito e pertença. No entanto, essa procura foi frequentemente marcada por um sentimento constante de inadaptação. Cresci em Portugal, mas por alguma razão, não me identifico plenamente com a cultura portuguesa nem com a religião predominante. Essa falta de identificação criou uma sensação de estar à margem, de não pertencer verdadeiramente a lugar nenhum.
A minha sensibilidade exacerbava ainda mais essa sensação de alienação. Era uma criança que sentia profundamente, reagia intensamente às experiências ao meu redor e, muitas vezes, encontrava incompreensão nas pessoas com quem tentava expor os meus sentimentos. Lembro-me de vezes em que, ao contar uma experiência pessoal, recebia olhares vazios ou comentários que evidenciavam a falta de entendimento. Essa falta de ligação emocional era dolorosa e reforçava a sensação de isolamento.
A minha procura por pertencer a algo era evidente onde participei em várias comunidades religiosas. Frequentei a Igreja Católica, onde as cerimónias e os rituais eram aborrecidos e pesados e não conseguia encontrar um sentido de pertença real. A pressão para se conformar a certas crenças e comportamentos fazia-me sentir ainda mais deslocado. Além disso, a minha sensibilidade e minhas questões pessoais pareciam não encontrar espaço de acolhimento e compreensão nestes ambientes e por isso não me sentia verdadeiramente genuino.
Explorei outras vertentes religiosas, como o espiritismo e grupos evangélicos. Cada uma dessas experiências foi uma tentativa de encontrar um lugar onde pudesse sentir aceito e compreendido. No entanto, em cada uma delas, a sensação de solidão persistia. Em alguns casos, sentia-me ainda mais pressionado a mudar quem eu era para me adequar às expectativas da comunidade, o que apenas intensificava meu sentimento de alienação. E não era bem isto que procurava.
Foi apenas mais tarde na vida que descobri a comunidade LGBTQIA+. Inicialmente, pensei que poderia encontrar o meu lugar na sigla “G” de Gay. As siglas LGBTQIA+ representam uma diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero: Lésbica, Gay, Bissexual, Transgênero, Queer, Intersexo, Assexual, e outras identidades. Cada uma dessas siglas representa uma comunidade com suas próprias experiências e desafios, mas todas partilham a luta por aceitação e visibilidade.
Participar na comunidade gay ofereceu-me uma nova perspectiva de pertença. Havia finalmente um espaço onde minha atração romântica por pessoas do mesmo género não era apenas aceita, mas compreendida e celebrada. Quando criança, apaixonei-me por um rapaz e isso fez com que eu achasse que era gay, rejeitando qualquer outra atração por raparigas. Na época, não compreendia que a minha atração era puramente romântica e não sexual. Essa experiência inicial e a subsequente identificação como gay me proporcionaram um senso de comunidade e aceitação que tanto procurava. No entanto, mesmo dentro dessa comunidade, comecei a perceber que algo ainda estava a faltar. A ênfase na sexualidade e a suposição de que todos experimentam atração sexual não correspondiam totalmente à minha experiência.
Foi apenas através da psicoterapia e da autodescoberta que finalmente compreendi a minha orientação como assexual. Descobri que sou panromântico, ou seja, sinto atração romântica por pessoas independentemente do género. Essa compreensão trouxe uma clareza enorme para minha vida. A assexualidade é uma orientação sexual caracterizada pela ausência ou muito pouca atração sexual por qualquer género. Por outro lado, o panromantismo refere-se à capacidade de sentir atração romântica por pessoas de todos os gêneros. Compreender e aceitar esses aspectos da minha identidade permitiu-me perceber que o meu interesse pelas pessoas está muito mais relacionado com quem elas são internamente do que com qualquer característica de género.
Esta descoberta fez com que muitas peças do meu quebra-cabeça pessoal se encaixassem. Percebi que a sensação de algo estar a faltar na comunidade gay derivava da minha verdadeira orientação sexual e romântica não estar completamente alinhada com as expectativas e normas dessa comunidade. Agora, ao identificar-me como assexual e panromântico, encontrei um espaço onde a minha experiência não é apenas compreendida, mas também celebrada, proporcionando-me finalmente um verdadeiro sentimento de pertencimento.
A minha identidade como assexual e panromântico – alguém que pode sentir atração romântica por pessoas de qualquer gênero – trouxe uma nova dimensão à minha compreensão de mim mesmo. Ao contrário das minhas experiências anteriores, essa descoberta não veio com uma sensação de deslocamento, mas sim de alinhamento. Foi como se finalmente tivesse encontrado uma chave para um enigma que me havia confundido por anos.
Compreender a minha assexualidade e encontrar a comunidade assexual dentro do espectro LGBTQIA+ foi transformador. Finalmente, senti que a minha experiência era válida e que havia outras pessoas que partilhavam as mesmas vivências. Pessoas de orientações e géneros diferentes, validavam as minhas experiências e eu pude relacionar-me e identificar-me com as experiências delas também. A aceitação e a compreensão que encontrei na comunidade assexual foi algo que nunca tinha experimentado antes.
Dentro dessa comunidade, pude conversar abertamente sobre minhas experiências sem medo de incompreensão. A pressão para se conformar a expectativas sexuais desapareceu, e no seu lugar surgiu um espaço onde outras formas de intimidade e envolvimento eram valorizadas. Descobri que o senso de comunidade não vem apenas de partilhar experiências semelhantes, mas também de sentir-se aceito e compreendido na sua autenticidade.
O meu próprio caminho de autodescoberta ilustra a importância da visibilidade e educação sobre a assexualidade e outras orientações sexuais. A falta de informação e representação sobre a assexualidade prolongou o meu percurso de autocompreensão, mas também me fez valorizar profundamente a aceitação e o senso de pertença que eventualmente encontrei.
Ao compartilhar minha história, quero contribuir para uma maior compreensão da assexualidade e ajudar outras pessoas que possam estar num caminho similar. A visibilidade e o reconhecimento são fundamentais para criar uma sociedade onde todas as orientações sexuais são compreendidas e aceitas. O meu percurso pessoal de autodescoberta e aceitação continua, mas a cada passo me aproximo mais de uma vida plena e autêntica, livre das correntes compulsivas e da necessidade de conformar-me às expectativas externas, inclusive da própria família e colegas.
Compreender e aceitar minha identidade como assexual e panromântico teve um impacto profundo na minha autoestima e bem-estar. Encontrar um verdadeiro senso de pertença na comunidade LGBTQIA+, onde a minha experiência é plenamente compreendida e valorizada, contribuiu significativamente para uma sensação de segurança e autenticidade na minha vida. Este sentimento de aceitação não apenas eliminou a pressão de tentar me conformar às expectativas externas, mas também permitiu-me abraçar e celebrar quem eu realmente sou. O apoio e a compreensão que recebo agora fortalecem a minha confiança e proporcionam um bem-estar emocional que antes parecia inatingível. Saber que pertenço a uma comunidade que me acolhe incondicionalmente elevou a minha autoestima e capacitou-me a viver de maneira mais plena e autêntica.
Agora percebo que a verdadeira comunidade é aquela onde podemos ser nós mesmos, com todas as nossas complexidades e singularidades, e ainda assim sentir que pertencemos. É um lugar onde a aceitação e a compreensão mútua criam laços profundos e significativos, permitindo-nos florescer em nossa autenticidade.
By Jonas