Mutismo situacional

Desde jovem, sempre existiram momentos em que, depois de um longo dia na escola ou durante atividades sociais exigentes, sentia o corpo e a mente simplesmente “desligarem”. Nessas ocasiões, notava que a minha voz ficava cada vez mais baixa, quase sumida, não por vergonha, mas porque literalmente não tinha energia física ou mental para projetá-la.

Recordo-me de situações em sala de aula ou no contexto familiar em que, ao tentar responder a perguntas básicas, apenas sussurrava. Os outros reagiam com impaciência; ouvias repetidamente frases como “Fala mais alto” ou “Não te ouço, podes falar direito?”. Muitas vezes sentia-me ainda mais bloqueado por essa pressão, pois sabia que falar mais alto naquele momento simplesmente não era possível. Eu bem que queria, porque adoro falar daquilo que gosto ou daquilo que me interessava naquele momento.

Na adolescência e início da vida adulta, não compreendia esta limitação física. Para não parecer estranho ou “preguiçoso”, dizia frases como “não gosto de falar alto, incomoda-me”, ou “sons altos fazem-me confusão”. Estas justificações eram parcialmente verdadeiras. Havia um real desconforto sensorial, mas não explicava totalmente a experiência interna de impotência diante do próprio silêncio.

Com o avanço do meu autoconhecimento e da compreensão sobre o autismo, percebi que o mutismo situacional é uma manifestação legítima de exaustão neurofisiológica. O sistema nervoso autónomo pode entrar em modos de “poupança de energia” após muita estimulação, e a voz é um dos recursos que o corpo reduz em prioridade para auto-proteção.

A literatura científica confirma que o mutismo autista é uma das formas de “shutdown” frequentes no estado de overload ou burnout. E são, de facto, respostas adaptativas do organismo. O aumento das exigências sociais, cognitivas e sensoriais pode culminar na incapacidade temporária de produzir fala audível, mesmo com a intenção consciente de colaborar ou responder.

Hoje já consigo reconhecer estes sinais internos e compreendo que não se trata de uma questão de vontade ou educação, mas de uma limitação energética e proteção neurológica. Estou mais apto a comunicar esta necessidade às pessoas de confiança e que posso pedir compreensão ou posso sugerir, se necessário, uma comunicação por escrito, seja email ou mensagem. No entanto, apesar de reconhecer e até partilhar esta necessidade com pessoas de confiança, noto que em grande parte, necessito de suporte constante para saber distinguir o que realmente sinto, para diferenciar se estou ou não sobrecarregado, e assim conseguir gerir melhor estas situações.

Agora, ao olhar para trás, consigo, aos poucos, perdoar-me pelo que outrora julguei como “falha”. O mutismo situacional era, e é, uma linguagem do meu corpo a pedir pausas, para que me cuidasse e respeitasse pelos meus limites biológicos.

By Jonas Ferreira


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