
O autismo tem sido objeto de intensos debates e investigações, especialmente no contexto europeu e português, com diferentes perspetivas a marcar a compreensão pública e científica sobre o tema. Atualmente, emergem dois paradigmas principais: o modelo médico, que encara o autismo como uma condição do neurodesenvolvimento que traz desafios em áreas chave da vida, e o paradigma da neurodiversidade, que entende o autismo como uma diferença neurobiológica natural dentro da diversidade humana.
O paradigma médico predominou durante décadas e ainda influencia fortemente práticas clínicas, políticas públicas e o acesso a apoios. Segundo esta visão, o autismo é uma perturbação do neurodesenvolvimento, que manifesta-se desde a infância e mantém-se ao longo da vida. Este modelo centra-se na identificação e intervenção sobre défices em áreas como a comunicação, a interação social e os comportamentos repetitivos. A literatura científica revela alterações neurobiológicas, tais como diferenças na organização do córtex cerebral, padrões atípicos de conectividade entre regiões cerebrais e desequilíbrios de neurotransmissores. Investigações baseadas em neuroimagem, inclusive em Portugal, destacam diferenças estruturais no córtex pré-frontal e no sistema límbico de pessoas autistas, o que reforça a existência de bases biológicas e genéticas para a condição. Estes achados são corroborados por estudos de sequenciação genética, que identificam múltiplos genes associados ao autismo, embora não exista uma causa única que explique o espectro. Devido a estes fatores, o paradigma médico defende uma abordagem precoce e multidisciplinar que visa promover a autonomia e integração social, adaptando o apoio às necessidades de cada pessoa.
Por outro lado, o paradigma da neurodiversidade surge, entretanto, como uma resposta crítica ao modelo tradicional. Defende que o autismo não deve ser visto como um défice, mas sim como uma variação natural e legítima do funcionamento cerebral. Propõe que o autismo seja entendido como parte da identidade da pessoa que valoriza as competências únicas ao rejeitar abordagens centradas apenas na correção ou “cura” das diferenças. Este movimento, com raízes em ativismos sociais e também cada vez mais refletido na investigação científica, argumenta que as dificuldades enfrentadas pelas pessoas autistas resultam principalmente de barreiras sociais e de falta de adaptações. Assim, defende-se a importância de práticas inclusivas e do respeito pela autonomia, autodeterminação e reconhecimento pleno dos direitos das pessoas autistas. Em Portugal, o crescimento de produção de literatura, destaca a necessidade de incluir as vozes das próprias pessoas autistas na definição de políticas e práticas e promover um olhar desestigmatizante e centrado nas potencialidades do indivíduo.
Comparando ambos os paradigmas, verifica-se que o modelo médico tende a enfatizar os aspetos patológicos e deficitários e foca-se nas intervenções para minimizar sintomas e promover adaptação. Já o paradigma da neurodiversidade coloca em primeiro plano o respeito pela diferença, a aceitação das identidades neurodivergentes e a luta por uma sociedade mais acessível, sublinhando que é no contexto social (e não a condição em si) que muitas vezes cria barreiras à participação plena. Do ponto de vista científico, ambos os paradigmas reconhecem que o autismo envolve diferenças neurológicas reais e observáveis, mas divergem profundamente quanto à forma como estas diferenças devem ser entendidas, comunicadas e tratadas na sociedade.
A discussão entre estes dois paradigmas é importante para a definição de políticas, práticas clínicas e movimentos sociais em Portugal e no mundo. O diálogo entre ciência, clínica e ativismo autista está em desenvolvimento e é reconhecido como fundamental para promover uma sociedade verdadeiramente inclusiva e informada, contribuindo para a dignidade, autonomia e bem-estar das pessoas autistas
By Jonas Ferreira
