
Ao olhar para esta imagem, sinto-me desafiado a escrever e a encarar não só a linguagem que usamos para falar sobre o autismo, mas também as crenças enraizadas na nossa sociedade sobre identidade, diferença e empatia. Cada gota nesta imagem representa não apenas palavras, mas mundos inteiros de experiência, interpretação e possibilidades. E quantos autistas já conheci e sigo em tantas redes sociais e comunidades que pensam desta forma.
Quando leio “Suffers from Autism” em português traduz-se para “Sofre de Autismo”, percebo imediatamente o peso do estigma: é como se o autismo fosse uma tragédia, uma chama dolorosa que consome. Sinto, quase fisicamente, a urgência de proteger-me dessa narrativa que reduz a existência a sofrimento. Esta expressão carrega consigo uma carga de pena e exclusão e afasta-nos da verdadeira compreensão e empatia genuína.Sinto-me vulnerável ao admitir que, durante muito tempo, também usei (ou ouvi) essa linguagem sem perceber o mal-estar silencioso que causava.
A gota seguinte, “On the Spectrum” em português traduz-se para “No espectro”, soa-me um pouco mais neutra, mas ainda distante. Ela lembra-me da tentativa de classificar, de organizar uma experiência humana diversa num gradiente, como se pudéssemos mapear todas as nuances de sentir e estar numa escala. Esta expressão pode ajudar a criar compreensão, mas também pode nos prender a rótulos simplistas. Pergunto-me se estamos realmente a ver a pessoa por detrás da terminologia.
“With /has Autism” em português traduz se por “Com/tem Autismo” invoca em mim um sentimento de respeito. Esta linguagem centra-se na condição como uma parte, e não o todo, de alguém. Sinto que esta expressão recusa a vitimização, mas, ao mesmo tempo, separa o autismo da identidade da pessoa. É uma aproximação à aceitação, mas não necessariamente à celebração da diferença. Muitas vezes, sinto nesta expressão o esforço de equilibrar informação e sensibilidade, numa sociedade que ainda oscila entre o medo e a aceitação.
Finalmente, ao ver “Am/is Autistic” ao traduzir para português por”Sou/sou autista”, sinto uma onda de autenticidade e pertença. Esta gota, marcada por uma impressão digital, símbolo da individualidade faz-me refletir sobre o valor de reivindicar o que se é, por inteiro. Ressalta a dignidade de existir fora dos rótulos impostos, de ser simplesmente alguém com uma identidade única. Este é um apelo profundo à aceitação plena com o autismo como parte integrante de quem se é. Aqui, não há sofrimento ou distanciamento, mas sim orgulho e presença. Há vulnerabilidade, mas também força.
Enquanto sociedade, esta imagem desafia-nos a rever as nossas palavras e, mais profundamente, as nossas atitudes. Ela pede-nos para deixarmos cair a linguagem da pena e do distanciamento, para abraçarmos formas mais inclusivas e autênticas de referirmos uns aos outros e também a nós próprios, se esse for o caso. Quando mudamos a linguagem, mudamos também a forma como sentimos, compreendemos e acolhemos a diversidade. Esta imagem é um convite à empatia radical, a uma transformação coletiva que começa num gesto simples: a escolha cuidadosa das palavras. E é nessa escolha que reside o futuro de uma sociedade verdadeiramente plural e humana.
By Jonas Ferreira