A influência da nossa percepção

O cérebro humano processa informações de forma extraordinária, mas cria atalhos e padrões que resultam em interpretações distorcidas da realidade. Uma análise profunda de experiências pessoais combinada com evidências científicas revela como os vieses cognitivos transformam a nossa percepção do mundo.

“Vejo grávidas em todos os lugares! Parece que a cidade inteira está grávida comigo!”, relatou Maria durante a sua gestação. Este relato ilustra um fenómeno conhecido na psicologia cognitiva como viés da frequência ilusória, ou fenómeno Baader-Meinhof.

A explicação de Zwicky (2006) no seu artigo “Just Because You’re Selective, Doesn’t Mean You’re Wrong” esclarece que a nossa atenção ajusta-se a elementos específicos, o que aumenta a nossa percepção da sua ocorrência no ambiente. A quantidade de grávidas permanece a mesma. A nossa atenção seletiva apenas as destaca no nosso campo perceptivo.

O neurocientista Robert Sapolsky apresenta em “Behave: The Biology of Humans at Our Best and Worst” (2017) um sistema reticular ativador ascendente (SRAA) que funciona tal qual um filtro: evidencia informações relevantes e suprime as consideradas não prioritárias no momento.

“Só atraio pessoas tóxicas. É como se eu tivesse um íman para relacionamentos problemáticos.” Este desabafo da Ana exemplifica o viés de confirmação. Um conceito aprofundado por Raymond Nickerson em “Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises” (1998).

O viés de confirmação conduz-nos a três comportamentos principais:

  1. A procura por informações que confirmem as nossas crenças existentes
  2. A interpretação de ambiguidades como reforço aos nossos pressupostos
  3. Desvalorizar ou ignorar evidências contrárias

No contexto da Ana, a baixa autoestima atua como um filtro que:

  • Evidencia comportamentos negativos em potenciais parceiros
  • Reduz a percepção de características positivas
  • Fortalece a crença de que não merece relacionamentos saudáveis

Estudos da psicóloga Jennifer Crocker sobre a autoestima e sobre relacionamentos comprovam o impacto direto da nossa autoimagem nas escolhas e nas interpretações sociais (Crocker & Park, 2004).

Daniel Kahneman explica em “Thinking, Fast and Slow” (2011) a existência de dois sistemas de pensamento:

  • Sistema 1: Automático, intuitivo e emocional
  • Sistema 2: Analítico, deliberativo e lógico

Os vieses cognitivos emergem principalmente do Sistema 1, responsável pela identificação de padrões e associações rápidas, muitas vezes em detrimento da precisão.

A investigadora Carol Dweck propõe quatro abordagens fundamentais:

  1. O desenvolvimento da autoconsciência
  2. O questionamento ativo das interpretações pessoais
  3. A análise de evidências contrárias às crenças estabelecidas
  4. A adoção de um mindset voltado ao crescimento

Os vieses cognitivos integram no nosso processo de interpretação do mundo. O seu reconhecimento não implica a eliminação total, mas permite uma relação mais consciente com as nossas percepções e julgamentos.

Para finalizar o psicólogo Daniel Gilbert sintetiza com humor: “O cérebro humano é um órgão incrível. Ele funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana, desde o momento do nascimento até a entrada numa reunião.”

Referências

  1. Crocker, J., & Park, L. E. (2004). The costly pursuit of self-esteem. Psychological Bulletin, 130(3), 392-414.
  2. Kahneman, D. (2011). Thinking, Fast and Slow. Farrar, Straus and Giroux.
  3. Nickerson, R. S. (1998). Confirmation Bias: A Ubiquitous Phenomenon in Many Guises. Review of General Psychology, 2(2), 175-220.
  4. Sapolsky, R. M. (2017). Behave: The Biology of Humans at Our Best and Worst. Penguin Press.
  5. Zwicky, A. M. (2006). Just Because You’re Selective, Doesn’t Mean You’re Wrong. Syntax and Semantics, 35, 255-271.

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