Qual é o teu superpoder?

Vivemos num mundo que, durante muito tempo, valorizou-se a normatividade e tentou enquadrar todas as diferenças dentro de padrões rígidos. No entanto, a neurodivergência (palavra que abrange condições como o autismo, PHDA, dislexia, altas capacidades, entre outros) convida-nos a reconhecer não apenas a existência de cérebros que funcionam de forma distinta, mas também a riqueza que esta pluralidade traz à experiência humana. O autismo, seja ele mais visível ou subtil, manifesta-se em múltiplas nuances e intensidades e permite que cada pessoa viva e sinta o mundo de maneira genuinamente única.


Cada variação neurodivergente pode criar desafios, mas também oferece perspetivas singulares, talentos e modos alternativos de compreender aquilo que rodeia-nos. Tanto no autismo quanto noutras manifestações da neurodivergência, há uma criatividade latente e uma forma própria de encontrar sentido no caos quotidiano, nas emoções ou nos padrões invisíveis para os outros. A neurodiversidade lembra-nos que, de alguma forma, todos carregamos características únicas e, um potencial, um superpoder muito pessoal.

Crescer à margem da norma social desafia-nos a descobrir recursos que, de outro modo, permaneceriam adormecidos. Para muitos neurodivergentes, aquilo que um dia foi visto como uma limitação, seja uma comunicação diferente, uma sensibilidade aumentada, ou a necessidade de rotinas, pode transformar-se num verdadeiro dom de adaptação. O superpoder não está em ser igual aos outros, mas em explorar ao máximo aquilo que nos distingue: a capacidade de ver padrões onde os outros só vêem ruído, a sensibilidade ímpar aos detalhes, a perseverança perante a adversidade, ou a profundidade emocional embrulhada num silêncio ou em lógica.

Sempre fui uma pessoa diferente, desde a minha infância. Questionava-me constantemente sobre por que reagia de forma tão intensa, por que era difícil comunicar as minhas emoções e por que o mundo parecia tão estranho para mim. A minha relação com as emoções nunca foi simples: muitas vezes sentia-me perdido, incapaz de nomear o que ia cá dentro, como se houvesse um bloqueio entre o sentir e o dizer.

Cresci num lar onde a expressão emocional era reprimida, marcada por críticas constantes e pouca demonstração de afeto. A minha mãe era agressiva nas palavras. O tom de voz alto, os olhos franzidos e uma postura tensa dizia-me frequentemente, “não sou capaz”, “não sei fazer nada”, e raramente validava aquilo que eu fazia de bom. No ambiente familiar, aprendi rapidamente que mostrar as minhas reações abertamente era motivo de repreensão e desconforto. Desde muito cedo, percebi que expressar vulnerabilidade era perigoso, pois era sempre recebido com julgamento e castigos.

Na escola, a situação não era diferente. Sofri bullying, sentia-me deslocado nos grupos, era difícil encontrar amigos com interesses semelhantes e, quando tentava comunicar, sentia que as palavras falhavam. Isso acentuava ainda mais a sensação de isolamento emocional. Rapidamente, adaptei-me, criei uma máscara e limitei-me a observar o mundo e a esconder o que sentia para evitar ser magoado ou excluído.

A dor da rejeição sempre esteve presente. A morte de uma pessoa próxima marcou profundamente a minha infância, bem como a distância emocional do meu irmão e a ausência emocional dos meu pais. Cresci rodeado de perdas, ausências e relações instáveis, sem o contexto seguro onde pudesse aprender a identificar e regular emoções de forma saudável.


Procurei sempre segurança em rotinas rígidas e previsibilidade, pois quanto mais imprevisível era o ambiente à minha volta, maior tornava-se o desconforto interno que eu não sabia nomear. A ansiedade era imensa, mas na ausência de validação externa, aprendi a desvalorizar o que sentia, a racionalizar tudo e a depender da lógica para sobreviver ao caos emocional. Passei a acreditar que, para ser aceite, precisava seguir regras e agradar aos outros, suprimindo a minha individualidade e as minhas necessidades emocionais.

Na adolescência e adultez, as tentativas de estabelecer relações amorosas e sexuais foram marcadas pelo mesmo padrão: dificuldade em identificar e comunicar desejos, insatisfação, e confusão entre atração, afeto e ansiedade. O diagnóstico de uma condição de saúde crónica trouxe ainda mais vulnerabilidade, e que levou-me novamente à autodefesa: distanciamento emocional, controlo excessivo, e a incapacidade de reconhecer tristeza, medo ou amor em mim próprio.

Os poucos laços afetivos que consegui criar eram sustentados à custa da camuflagem, da imitação e de muita observação dos outros. Senti durante anos uma necessidade extrema de ser compreendido, de encontrar pertença (fosse na comunidade LGBTQIA+, nas amizades ou na família) mas o padrão de silêncio e a negação emocional persistia.

A descoberta recente da neurodivergência trouxe finalmente sentido a tantos anos de confusão interna. Compreendi que muito da minha dificuldade em sentir e exprimir emoções vinha de um funcionamento neurológico diferente associado ao autismo e a altas capacidades Só então comecei a ver com clareza quanto a minha história foi marcada não só por fatores biológicos, mas pela interação com ambientes hostis à diferença. Contextos onde nunca fui estimulado ou validado para sentir, nomear ou partilhar o que se passava dentro de mim.


A alexitimia tornou-se, assim, uma resposta adaptativa: fruto de uma infância marcada por rejeição, negligência, incompreensão e traumas, mas também da necessidade biológica de autorregulação num mundo demasiado intenso e caótico. A rigidez cognitiva, a camuflagem social e a aversão à imprevisibilidade são hoje reflexos desse percurso.

Hoje, percebo com clareza que a alexitimia e a camuflagem social, vistas por tanto tempo como limitações, tornaram-se os meus novos poderes. Já não olho para a minha dificuldade em identificar e expressar emoções como uma falha, mas sim como um mecanismo sofisticado de adaptação. Uma força silenciosa que permite-me navegar nos ambientes complexos e transformar conflitos em oportunidades de crescimento.

A alexitimia faz com que eu processe o mundo de forma lógica, com uma distância emocional que serve como filtro contra a sobrecarga afetiva. Isso, aliado à camuflagem social tornou-se um verdadeiro recurso estratégico. A minha história é marcada pela necessidade de adaptação: ao assumir que nem sempre compreendo as regras implícitas ou as emoções alheias, desenvolvi um radar apurado para captar padrões, antecipar conflitos e procurar previsibilidade no caos.

No meu ambiente profissional, a alexitimia e a camuflagem são instrumentos que uso para transformar momentos de tensão em experiências construtivas. Cito, por exemplo, uma situação em que um colega pediu-me ajuda a carregar pontos no sistema, e que me disse “a minha contabilista fazia-me isso”. Sem captar de imediato a ironia (“contabilista” era apenas a sua esposa), respondi de modo literal e neutro, o que gerou riso à volta. Em vez de sentir vergonha ou de me retraírem com o equívoco, observei e registei como todos se divertiram e, silenciosamente, absorvi as regras daquele humor tácito. Nos dias seguintes, fui ajustando pequenas respostas e praticava silenciosamente a escuta ativa. O meu estilo literal, antes visto como estranho, acabou por ser apreciado como autêntico e honesto.


Noutra ocasião, quando presenciei uma colega em crise após ser alvo de críticas severas do supervisor, usei a minha “frieza emocional” para criar um espaço seguro: mantive a voz baixa, tranquilizei com palavras simples, e fui apenas uma presença. Sem consolar de modo convencional nem interferir com conselhos emocionais. Mais tarde, ela revelou que se sentiu acolhida exatamente por essa serenidade, por não ser pressionada a verbalizar aquilo que não conseguia.


No passado, os conflitos internos eram sufocantes, pois não conseguia nomear o que sentia. Agora, encaro essas rupturas como oportunidade de crescimento e autodefesa criativa. Quando um atrito surge com alguém que interpreto mal, recorro à lógica e à observação: paro, abstraio-me e questiono-me sobre hipóteses em vez de respostas definitivas. Este processo de aprendizagem transformou-se numa arte de neutralizar tensões. Seja a respirar fundo numa reunião, seja a reagir com calma às provocações de colegas que não compreendem o meu “jeito estranho”.


A minha adaptação é agora minha amiga: utilizo a previsibilidade das rotinas para proteger-me do imprevisível. Desenvolvo estratégias para antecipar sobrecargas sensoriais (como retirar-me para espaços calmos) e, nas interações, cultivo o silêncio reflexivo como uma forma de dar espaço ao outro e a mim mesmo. O que era camuflagem de sobrevivência tornou-se uma performance consciente, que permite-me existir com menor sofrimento e até protagonizar mudanças no ambiente.

By Jonas Ferreira


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