Viver com alexitimia, para mim, é como caminhar diariamente num território desconhecido, onde cada interação social exige esforço, atenção e constante adaptação. Desde muito novo percebi que o mundo à minha volta era feito de regras implícitas, olhares subtis e emoções que me escapavam. Senti necessidade de aprender, quase de forma académica, como funcionam as relações humanas. O conhecimento tornou-se a minha principal ferramenta de sobrevivência num ambiente social que considero, por vezes, difícil e ambíguo (Bird & Cook, 2013).
A alexitimia faz com que tenha dificuldade em identificar e dar nome às minhas próprias emoções. Muitas vezes, sinto algo a crescer dentro de mim, mas não consigo perceber se é tristeza, ansiedade, alegria ou apenas cansaço. É como se as emoções fossem uma língua estrangeira que preciso de traduzir palavra a palavra. Esta barreira interna impede-me de reagir de forma espontânea e adequada às situações do dia a dia (Kinnaird, Stewart, & Tchanturia, 2019).
A minha empatia é sobretudo cognitiva, mas, mais do que isso, é uma empatia cognitiva explícita e não implícita. Ou seja, não é uma compreensão automática ou intuitiva do que o outro sente, mas sim um processo consciente, deliberado e racional. Preciso de recorrer à lógica, ao conhecimento adquirido e à observação detalhada de comportamentos e atitudes para tentar perceber o estado emocional dos outros. Por exemplo, se vejo alguém com os braços cruzados, olhar distante e respostas monossilábicas, deduzo que possa estar desconfortável ou irritado. Se noto que alguém sorri com naturalidade, mantém contacto visual e fala de forma leve, interpreto como sinal de bem-estar. No entanto, este processo é sempre racional, nunca instintivo ou automático. É uma análise que faço de forma consciente, quase como resolver um problema matemático, e não uma leitura emocional imediata (Baron-Cohen & Wheelwright, 2004).
A empatia cognitiva implícita seria aquela que surge de forma natural, sem esforço, em que se “sente” logo o que o outro está a passar. No meu caso, isso não acontece. A minha compreensão é sempre explícita: preciso de observar, analisar, comparar com o que aprendi e, muitas vezes, só consigo compreender verdadeiramente o estado emocional do outro se lhe perguntar diretamente: “Estás bem?”, “Como te sentes?”, “Queres conversar sobre isso?”. Às vezes ouço: “Não vês como me sinto?”. E a verdade é que não vejo, a menos que me digam.
No ambiente de trabalho, sou frequentemente alvo de provocações e piadas devido à minha forma literal de comunicar. Entro facilmente no registo de brincadeira, mas raramente percebo se estão a brincar comigo ou de mim. Para me proteger, prefiro assumir que as intenções são positivas, mas isso não elimina a confusão interna. Muitas vezes, não consigo distinguir se o que sinto é desconforto, tristeza ou apenas perplexidade. Quando estou cansado ou sobrecarregado, tudo se torna ainda mais difícil. A minha capacidade de interpretar as intenções dos outros diminui drasticamente, como a literatura científica descreve para autistas com alexitimia (Bird & Cook, 2013).
Os convívios familiares são outro grande desafio. O ritmo acelerado das conversas, os gestos constantes, as mudanças de tom de voz, tudo isto me obriga a um esforço de análise quase exaustivo. Sinto-me muitas vezes esgotado. Lembro-me de um episódio, que já retratei aqui, em que a minha cunhada disse: “Eu não convido o meu irmão e convido-te a ti”. Naquele momento, estava cansado e não consegui perceber a intenção dela. Fui literal na resposta, sem conseguir aceder ao lado emocional da situação. Fiquei a pensar se queria incluir-me, provocar-me ou simplesmente expressar frustração. Só mais tarde, ao refletir, considerei outras possibilidades, mas a dúvida permaneceu.
Já vivi situações verdadeiramente inusitadas. Uma vez, um desconhecido cruzou-se comigo na rua, olhou-me nos olhos de forma intensa e mordeu o lábio. No momento, não percebi o significado daquele gesto. Só depois, ao recordar o episódio, pensei que talvez estivesse a tentar flertar comigo, pois morder os lábios pode ser um sinal disso. No entanto, a incerteza ficou, porque a minha leitura dos sinais sociais é sempre feita a posteriori, nunca no momento.
A adaptação social exige de mim um custo elevado. Cada interação é um exercício de atenção, análise e, muitas vezes, aceitação da minha própria limitação em sentir e interpretar emoções. Precisei de me adaptar com muito custo, investindo em conhecimento, observação e questões diretas. Sinto que, para mim, a empatia é um processo de investigação, quase científico, e não uma reação espontânea. Mesmo assim, nem sempre encontro as respostas certas (Baron-Cohen & Wheelwright, 2004).
A literatura científica confirma que autistas com alexitimia dependem mais do conhecimento explícito e da análise racional para compreender emoções e intenções dos outros. E tendem a ter uma maior dificuldade em aceder à empatia emocional espontânea. O esforço para decifrar as intenções dos outros é constante e, muitas vezes, só é possível através de perguntas diretas. Além disso, a sobrecarga sensorial e emocional pode agravar ainda mais estas dificuldades, tornando o quotidiano social um verdadeiro desafio (Kinnaird et al., 2019).
Em suma, um autista que vive com alexitimia é, para mim, um exercício diário de adaptação, aprendizagem e aceitação da incerteza. O conhecimento é a minha principal ferramenta para sobreviver num mundo socialmente complexo. Exige um esforço constante e não elimina a sensação de distância em relação às emoções dos outros. A empatia, no meu caso, é mais um processo de investigação do que uma reação espontânea. E, mesmo assim, nem sempre consigo encontrar as respostas certas.
No meio de tudo isto, sinto que a minha família exige de mim uma adaptação constante, como se fosse da minha responsabilidade encaixar-me em todas as situações. Muitas vezes, não sei o que fazer, nem como corresponder a essas expectativas. Sinto-me pressionado a mudar, mesmo sem saber como. Sofro bastante com o capacitismo oculto, aquela discriminação subtil que não se vê mas se sente todos os dias. Mas isso, será outra história.
By Jonas Ferreira
Referências
Baron-Cohen, S., & Wheelwright, S. (2004). The Empathy Quotient: An investigation of adults with Asperger Syndrome or High Functioning Autism, and normal sex differences. Journal of Autism and Developmental Disorders, 34(2), 163-175. https://doi.org/10.1023/B:JADD.0000022607.19833.00
Bird, G., & Cook, R. (2013). Mixed emotions: The contribution of alexithymia to the emotional symptoms of autism. Translational Psychiatry, 3(7), e285. https://doi.org/10.1038/tp.2013.61
Kinnaird, E., Stewart, C., & Tchanturia, K. (2019). Investigating alexithymia in autism: A systematic review and meta-analysis. European Psychiatry, 55, 80-89. https://doi.org/10.1016/j.eurpsy.2018.09.004