Alexitemia: um quebra cabeças

A experiência partilhada por um utilizador do Reddit num grupo sobre o autismo marcou-me profundamente. E relaciona-se bastante com aquilo que vivo e com as dinâmicas descritas em todo o meu percurso. Como ele refere, a alexitimia não é apenas uma característica isolada, mas sim uma resposta quase inevitável para muitas pessoas do espectro autista, especialmente quando há trauma envolvido. A ciência confirma que o trauma, seja ele pontual ou acumulado ao longo do tempo, pode levar à “congelação” das emoções, dificultando a sua identificação e expressão (Ahmadi & Khaledian, 2023; Sajid & Malik, 2025; Li et al., 2025).


O utilizador faz uma distinção fundamental: “experienciar” e “expressar” são dois processos distintos. Muitas vezes, as pessoas assumem que, porque não conseguimos mostrar emoções da forma esperada, somos incapazes de as sentir. Na verdade, continuamos a experienciar emoções, mas de forma mais interna, muitas vezes através de imitação e observação do que os outros fazem. Isto faz com que, por vezes, acabemos por ser ainda mais empáticos do que se pensa, porque aprendemos a ler o ambiente e a adaptar-nos, mesmo que à custa da nossa autenticidade.


O problema surge no “output”, isto é, na expressão das emoções. O trauma, seja ele um evento marcante ou uma acumulação de pequenas feridas, pode provocar um bloqueio emocional, impedindo-nos de aceder plenamente ao que sentimos. Nesses momentos, as emoções “congelam”, e só conseguimos reproduzir aquilo que já conhecemos, como se fossem cópias do que vimos ou experienciámos antes. É o que o utilizador chama de “imitação exata de sentimentos”: uma réplica do que já foi sentido, mas sem a genuinidade ou a capacidade de expressar novas emoções.


Com o tempo, este bloqueio emocional torna-se evidente. Continuamos a ter uma maturidade emocional próxima da idade em que o trauma aconteceu, porque não tivemos oportunidade de aprender ou experienciar novos sentimentos desde então. Por isso, as nossas tentativas de mostrar emoção nunca parecem “suficientes” para as pessoas neurotípicas, que nos veem como emocionalmente deficientes, quando, na verdade, a nossa dificuldade está na expressão e não na capacidade de sentir.


A diferença entre as pessoas neurotípicas e aquelas com alexitimia induzida pelo trauma é marcante. Os neurotípicos conseguem lidar com a maioria das situações através da emoção, porque nunca tiveram de enfrentar o “inferno” traumático que vivemos, nem desenvolveram a alexitimia como mecanismo de defesa. No meu caso, tal como o utilizador do Reddit, o trauma familiar, a falta de afeto e a necessidade constante de aprovação moldaram a minha forma de estar no mundo, levando-me a desenvolver alexitimia e a procurar a minha independência como forma de sobrevivência emocional.


Hoje, sei que a minha dificuldade em expressar emoções não é um defeito, mas sim uma resposta a um ambiente onde a expressão emocional não era valorizada ou sequer permitida. A ciência mostra que a alexitimia, nestes contextos, é uma adaptação ao sofrimento, uma forma de proteger o eu interior de mais dor (Ahmadi & Khaledian, 2023; Sajid & Malik, 2025; Li et al., 2025). O importante é reconhecer que continuamos a sentir, mesmo que de forma diferente, e que a nossa empatia e sensibilidade existem, ainda que não sejam facilmente visíveis para os outros

By Jonas Ferreira

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