Liberdade sem máscaras

Com o diagnóstico de autismo de baixo suporte, aprendi finalmente a aceitar que sou diferente das normas sociais e que isso não faz de mim menos válido ou menos capaz. Durante anos, sentia-me desconfortável por não conseguir olhar nos olhos das pessoas, fosse numa conversa casual ou, por exemplo, quando era atendido num café. Ficava sempre com a sensação de que estava a falhar, que era mal-educado ou que estava a desiludir o outro. Para tentar evitar julgamentos, esforcei-me para suportar o desconforto. Aprendi a conhecer os códigos sociais e a camuflar-me, a imitar comportamentos, a forçar o contacto ocular e a tentar encaixar-me no que era esperado. A verdade é que este esforço constante é exaustivo e deixa-me emocionalmente desgastado.


Hoje, percebo que não preciso de me preocupar com isso, nem de ficar chateado só porque o outro pode ficar incomodado. Se alguém não entende a minha forma de estar, isso já não é um problema meu — é uma questão de desconhecimento ou falta de empatia do outro. A ciência confirma que evitar o contacto ocular é uma característica comum em pessoas autistas, não por falta de interesse ou respeito, mas porque, para muitos de nós, olhar nos olhos pode ser desconfortável, invasivo ou até doloroso (Tanaka & Sung, 2016; Senju & Johnson, 2009). Estudos mostram que o contacto ocular não é a única forma de comunicar: o sorriso, o tom de voz, a postura corporal e até pequenas palavras de cortesia são estratégias igualmente válidas de interação social (Trevisan et al., 2017). Por exemplo, quando estou num café, posso não olhar diretamente para o empregado, mas respondo com um sorriso, agradeço com um “obrigado” sincero e uso um tom de voz amistoso. Aprendi que estas são formas autênticas de comunicar, mesmo que não sigam o guião social esperado.


Agora, sinto-me finalmente livre e confortável para me desmascarar. Já não sinto necessidade de camuflar quem sou ou de me forçar a seguir normas que não fazem sentido para mim. O importante é que eu me sinta confortável e fiel a quem sou, sabendo que há muitas formas de mostrar respeito, interesse e simpatia para além do contacto ocular. Se o outro não entende, não é sinal de que eu esteja errado — é sinal de que a sociedade ainda tem muito a aprender sobre diversidade de comunicação e estilos de comunicação.

É por falar em estilos de comunicação que faz todo o sentido abordar a teoria da dupla empatia. Esta teoria, proposta por Damian Milton, sugere que as dificuldades na comunicação entre pessoas autistas e não autistas não se devem apenas a uma “falta” do lado autista, mas sim a um desencontro mútuo de estilos de comunicação e de perceção social. Ou seja, tanto autistas como neurotípicos têm dificuldade em compreender-se mutuamente, porque partem de códigos, expectativas e formas de interpretar o mundo diferentes. Experiências recentes vieram validar esta teoria: nos estudos experimentais, grupos de pessoas autistas comunicaram entre si com grande eficácia, enquanto os mal-entendidos aumentavam nas interações mistas com pessoas não autistas. Isto mostra que o problema não está apenas em quem é diferente, mas sim na falta de reciprocidade e adaptação dos dois lados (Crompton et al., 2020).


A teoria da dupla empatia tem vindo a transformar a forma como olhamos para a comunicação no autismo, reforçando a importância de empatia, escuta ativa e respeito mútuo — não apenas do lado autista, mas de toda a sociedade. Só assim podemos construir relações mais autênticas, acolhedoras e livres de preconceitos, onde cada um possa comunicar segundo o seu próprio estilo e ser compreendido na sua diferença.

Esta aceitação permitiu-me finalmente respirar fundo e sentir-me livre para existir sem máscaras, ser genuíno em cada gesto e palavra. Agora, posso viver de acordo com aquilo que realmente sou, sem o peso constante de tentar corresponder às expectativas dos outros. Encontrar esta leveza é, para mim, um dos maiores sinais de liberdade e autenticidade.

By Jonas Ferreira


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