Depois de partilhar algumas das minhas experiências mais vulneráveis sobre os desafios das pistas sociais no trabalho, sinto que há ainda uma dimensão importante que raramente é falada, mas que faz parte do meu dia-a-dia: a dificuldade em reconhecer e expressar emoções, tanto as minhas como as dos outros. Este fenómeno tem nome e é mais comum do que se imagina entre pessoas autistas – chama-se alexitimia. É sobre isto que quero agora reflectir, com a mesma honestidade e abertura.
Ser autista de baixo suporte, de acordo com os critérios definidos pela American Psychiatric Association (APA), significa que, apesar de conseguir funcionar de forma relativamente autónoma, existem desafios subtis, mas constantes, que afectam a minha vida social e emocional. Um dos mais marcantes é, sem dúvida, a alexitimia – a dificuldade em identificar, compreender e descrever emoções.
Muitas das vezes, não reconheço se as pessoas estão a brincar comigo ou de mim. O tom, as expressões faciais, os pequenos detalhes que para a maioria são óbvios, para mim são um enigma. Há situações em que um colega faz uma piada e todos à volta riem; eu rio também, não porque percebi a graça, mas porque aprendi que é isso que se espera. Outras vezes, fico sem reacção, a tentar descodificar se aquele comentário foi amigável ou se, na verdade, estou a ser alvo de gozo. E, para não criar desconforto, finjo que está tudo bem. Sorrio, aceno, mas por dentro fico com um nó, sem saber ao certo o que se passou.
Esta dificuldade não é falta de inteligência emocional, nem desinteresse pelos outros. É uma característica reconhecida e estudada, especialmente em pessoas autistas, como descreve a APA no seu Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). A alexitimia pode manifestar-se de várias formas: dificuldade em identificar o que estou a sentir, incapacidade de dar nome às emoções, ou mesmo uma certa confusão quando tento interpretar o que os outros transmitem.
Por vezes, sinto-me como um actor num palco, a seguir um guião que não compreendo totalmente. Aprendi, com o tempo, a observar as reacções dos outros e a adaptar-me, mas nem sempre consigo evitar a sensação de estar a fingir, de estar a desempenhar um papel que não é verdadeiramente meu. E, apesar de parecer que lido bem com estas situações, a verdade é que, muitas vezes, fico a pensar nelas durante horas, a tentar perceber o que me escapou.
Apesar de tudo isto, houve ferramentas e experiências que me ajudaram a orientar-me melhor neste universo emocional. A psicologia deu-me uma base teórica para compreender o que sentia e o que via nos outros. O teatro, por sua vez, foi um laboratório onde pude experimentar emoções, papéis e reacções e treinar a leitura de expressões, tons de voz e intenções — quase como um curso intensivo para o mundo real. As formações em comunicação assertiva e inteligência emocional deram-me estratégias práticas para reconhecer sinais, estruturar o meu discurso e adaptar a minha linguagem, mesmo quando não sinto de forma instintiva o que está a acontecer.
Estas aprendizagens não eliminaram a alexitimia, mas ajudaram-me a mascarar melhor as minhas dificuldades e, sobretudo, a reconhecer cognitivamente o que está em jogo nas interacções sociais. Aprendi a identificar emoções de forma racional, quase científica, mesmo quando não as sinto de imediato. Por exemplo, uso listas mentais de expressões faciais ou frases-tipo para tentar perceber se alguém está a brincar ou a ser sarcástico. Se não entendo, pergunto ou observo as reacções dos outros para me orientar.
No entanto, esta adaptação tem um custo. Por vezes, sinto que estou sempre em modo de “representação”, a desempenhar um papel para me integrar. Mas também reconheço que estas ferramentas me deram uma maior autonomia e confiança. Hoje, sei que não sou menos por precisar de estratégias — sou diferente, e isso faz parte do meu percurso. Acredito que esta vulnerabilidade possa ser também uma oportunidade de crescimento. Ao reconhecer as minhas limitações, consigo ser mais compreensivo comigo próprio e com os outros. Sei que não estou sozinho – a alexitimia afecta uma parte significativa da população autista, mesmo aqueles que, como eu, precisam de baixo suporte. E sei também que, ao falar sobre isto, posso ajudar a desmistificar o tema e a criar mais empatia no local de trabalho.
A minha esperança é que, ao partilhar estas experiências, outras pessoas – autistas ou não – possam sentir-se menos sozinhas nos seus próprios desafios emocionais. Afinal, todos temos as nossas dificuldades em interagir no mundo das emoções; a diferença é que, para alguns de nós, esse mundo é simplesmente mais complexo de decifrar.
By Jonas Ferreira