Labirinto social 

Eu não penso. Eu sinto.

E se sinto, compreendo.

Quando fico no labirinto

Sigo, até ir aprendendo.

Muitas pessoas vejo lá

E eu sem saber ser

Nem uma me dá um Olá

Para eu saber entender.

Quero saber o que fazer

Para depois sobreviver

Não me deixam aprender

Muito menos saber viver.

Sem saber que hei-de fazer

Procuro tentar lá conhecer

Tantas inquietações tenho eu

por tão bem compreender

que ninguém me sabe entender.

Lembro-me nitidamente do dia em que percebi que algo estava diferente na forma como eu processava as interações sociais. Estava numa reunião informal com colegas de trabalho quando alguém disse, em tom de brincadeira: “O que fizeste ao rapaz?” referindo-se à forma como um colega parecia estar nervoso após a nossa discussão sobre um projeto. Todos riram, mas eu, confuso, comecei a explicar detalhadamente que não tinha feito absolutamente nada ao “rapaz” em questão. O silêncio que se seguiu e os olhares trocados entre os presentes confirmaram o que eu já suspeitava há anos: eu interpretava a linguagem de forma diferente dos outros.

Devo confessar que é extremamente difícil para mim escrever sobre estas experiências e contextualizar as nuances das interações sociais que me desafiam diariamente. Este texto só foi possível graças ao apoio contínuo da minha neuropsicóloga, que me ajudou a identificar e analisar estes padrões, e de amigos e colegas pacientes que, ao longo dos anos, têm-me ajudado a compreender o que se passa “entre as linhas” das conversas quotidianas.

A investigação no campo da neurociência cognitiva têm demonstrado que diferentes regiões do cérebro são ativadas durante o processamento de linguagem literal versus figurativa. De acordo com os estudos de Bohrn et al. (2012), o hemisfério direito do cérebro desempenha um papel crucial na interpretação de metáforas, ironias e outras formas de linguagem não-literal.

Quando alguém diz-me “o que fizeste ao rapaz?” num contexto claramente brincalhão, o meu cérebro processa primordialmente o significado literal das palavras e ignora ou processa com atraso os sinais contextuais, tonais e não-verbais que indicariam a verdadeira intenção comunicativa. Este fenómeno é consistente com o que os neurocientistas chamam de “déficit pragmático”, uma dificuldade específica em integrar informações contextuais ao processamento linguístico básico.

Um exemplo que posso demonstrar ocorreu durante uma viagem de negócios. Estávamos com quatro colegas num carro alugado que constantemente ia abaixo quando outros colegas dirigiam. Quando mencionei, inocentemente, que o carro nunca tinha apresentado problemas quando eu estava ao volante, a resposta imediata foi: “Então a culpa é dos outros, não é?”

Naquele momento, fiquei genuinamente confuso. Na minha mente, estava simplesmente a fazer uma observação factual: o carro sempre funcionou bem comigo mas com os outros não. A inferência social de que eu estaria a gabar-me ou a culpar os outros não cruzou na minha mente até que fosse explicitamente verbalizada. Para mim, era uma questão de mecânica do veículo, não de competência pessoal ou julgamento social.

O que não percebi na hora, e que Sperber e Wilson (1986) explicariam através da Teoria da Relevância, é que a comunicação humana opera no pressuposto de que qualquer enunciado vem carregado de intenção e relevância contextuais. Quando mencionei o funcionamento do carro, os meus colegas naturalmente inferiram que havia uma mensagem implícita sobre as competências de condução, não apenas uma observação técnica.

A pragmática linguística, área de estudo formalizada por linguistas como J.L. Austin e John Searle, investigam precisamente o gap entre o que dizemos (o significado literal) e o que queremos dizer (a intenção comunicativa). No famoso trabalho “How to Do Things with Words” (Austin, 1962), o autor introduz o conceito de atos de fala e explica que as nossas expressões verbais realizam ações além da mera transmissão de informações.

Esta dimensão de desempenho da linguagem é precisamente onde encontro os meus maiores desafios. Considere o seguinte diálogo que vivi:

Colega: “Esta apresentação está a demorar uma eternidade!”  

Eu: “Na verdade, só passaram 45 minutos dos 60 previstos.”

O que não captei neste intercâmbio foi que o meu colega não estava a fazer uma observação sobre o tempo cronológico, mas a expressar o tédio e talvez a sugerir que quem estava a apresentar deveria ser mais conciso. A minha resposta literal, embora factualmente correta, falhou em reconhecer o ato de fala subjacente.

É importante notar que as dificuldades na interpretação pragmática existem num espectro. O trabalho de Simon Baron-Cohen sobre a “teoria da mente” — a nossa capacidade de atribuir estados mentais a outros — sugere que diferentes pessoas têm diferentes limiares para inferir intenções e emoções alheias (Baron-Cohen, 1995).

Alguns autores, como Uta Frith (2003), associam desafios específicos na pragmática social com condições como a Perturbação do Espectro Autista. Embora seja fundamental enfatizar que as dificuldades pragmáticas podem ocorrer independentemente de qualquer diagnóstico, elas variam consideravelmente entre os indivíduos.

No meu caso, não se trata de uma incapacidade total de compreender nuances sociais, mas sim de um processamento que dá prioridade ao significado literal e requer esforço consciente adicional para acessar às camadas pragmáticas da comunicação.

Os desafios pragmáticos manifestam-se frequentemente em situações quotidianas. Tal como a minha neuropsicóloga, ela ajuda-me a identificar estes padrões, exponho alguns exemplos adicionais que presenciei:

Num jantar:  

   Amigo: “Podias passar o sal?”  

   Eu: “Sim, posso.” (Fico à espera que ele peça explicitamente que eu o passe, sem perceber que a pergunta já era em si um pedido)

Numa reunião de trabalho:

   Chefe: “Alguém sabe onde está o relatório do projeto X?”  

   Eu: “Sim, está na pasta partilhada.” (Sem perceber que a expectativa era que eu o recuperasse, não apenas informasse a sua localização)

Num café com amigos:

   Amiga: “Este café está muito quente!”  

   Eu: “Sim, acabou de ser feito.” (Sem perceber o pedido implícito para esperar um pouco ou para trazer algo para resfriar a bebida)

Numa conversa com um colega de trabalho:

   Colega: Podes-me ajudar com isto?”

   Eu: “Sim claro”

   Colega: “É que eu tinha quem fizesse isto por mim, tenho uma contabilista.”  

   Eu: “Tens uma contabilista?”  

   Colega: “É a minha mulher!”

Este último exemplo foi particularmente confuso para mim. De facto, as nuances sociais e humorísticas muitas vezes escapam-me. No momento, interpretei a resposta como uma informação literal e tentei processar como era possível ter uma contabilista para fazer uma tarefa tão simples. Só depois, pelo seu tom de voz, expressões faciais e a sua explicação, é que percebi que ele estava a fazer uma piada a sugerir que a sua mulher o ajudava informalmente com questões financeiras.

Ao longo dos anos, aprendi inconscientemente a fazer perguntas como mecanismo de adaptação. Este hábito ajuda-me a orientar nas situações sociais ambíguas, mesmo que por vezes seja exaustivo. Neste caso, a minha pergunta levou o colega a explicar-se melhor, o que foi útil para mim.

Não é por acaso que no meu grupo de trabalho chamam-me de “alien”, e sinceramente, gosto do apelido. Aprecio ser diferente e tenho uma afinidade com a ideia de aliens – seres que observam e tentam compreender um mundo cujas regras sociais implícitas nem sempre fazem sentido à primeira vista. Esta diferença na forma como processo as informações sociais tornou-se parte da minha identidade que abraço com carinho.​​​​​​​​​​​​​​​​

Em cada um destes casos, interpretei as expressões no seu sentido mais direto e literal. Perdia as intenções comunicativas subjacentes que eram evidentes para os outros participantes da conversa. A minha neuropsicóloga explicou-me que estas situações demonstram como processo a linguagem de forma diferente e foco-me no significado literal das palavras em vez das intenções comunicativas e contextos sociais.

A tendência para a interpretação literal pode ser desvantajosa em certos contextos sociais, mas também traz vantagens em áreas que requerem precisão, análise sistemática e atenção aos detalhes. Como argumenta Temple Grandin nos seus trabalhos, a neurodiversidade pode ser vista como uma vantagem evolutiva para a espécie humana como um todo.

Seria impossível para mim articular sozinho estratégias para compensar as minhas dificuldades pragmáticas. Foi através de sessões regulares com a minha neuropsicóloga e discussões francas com amigos próximos que consegui identificar e implementar algumas abordagens úteis. A minha neuropsicóloga apresentou-me o trabalho de Michelle Garcia Winner sobre “pensamento social” (Winner, 2000), e com a sua orientação, comecei a praticar as pausas mentais antes de responder e também tentar perguntar a mim próprio: “Qual poderia ser o propósito não-literal desta comunicação?”

Outras estratégias que trabalho com ajuda profissional e com o meu círculo de amigos incluem:

  1. Observação ativa: Com orientação, tento prestar atenção deliberadamente às respostas dos outros em situações sociais semelhantes para construir um “banco de dados” de respostas apropriadas, algo que não me ocorreria naturalmente.
  1. Verificação contextual: Amigos e colegas têm-me ensinado a analisar o ambiente, o histórico da conversa e a relação com o interlocutor antes de interpretar literalmente uma mensagem.
  1. Questoes clarificadoras: A minha neuropsicóloga sugeriu que, quando tivesse dúvidas, aprendesse a perguntar “O que queres dizer com isso?” de uma forma socialmente aceitável.
  1. Apoio contínuo: Reúno-me regularmente com um pequeno grupo de amigos que compreendem as minhas dificuldades e oferecem feedback honesto sobre situações sociais que acho confusas.

O conceito de neurodiversidade, popularizado por Judy Singer e amplamente discutido por autores como Steve Silberman na “NeuroTribes” (2015), oferecem uma perspectiva valiosa: diferentes estilos cognitivos e comunicativos não são necessariamente deficiências, mas sim, variações naturais do cérebro humano.

Jamais conseguiria articular sozinho esta conclusão sobre as minhas dificuldades pragmáticas. Confesso que escrever sobre estas experiências é tão desafiador quanto vivê-las. Foi apenas através das discussões com a minha neuropsicóloga que consegui começar a dar o nome e a estrutura a estes desafios que enfrento diariamente.

O meu caminho de compreensão das próprias dificuldades pragmáticas tem sido tanto desafiadora quanto dolorosa. De situações embaraçosas como responder literalmente ao “o que fizeste ao rapaz?” até mal-entendidos mais sérios em contextos profissionais experiência criou confusão e frequentemente isolamento. Só recentemente, com o apoio de um profissional e de amigos compreensivos, estas situações começaram a servir como oportunidades de aprendizagem.

Foi a minha neuropsicóloga quem me apresentou à investigação científica nas áreas da linguística pragmática e da neurociência social. Através das nossas sessões, comecei a compreender trabalhos como os de Grice (1975) sobre as máximas conversacionais. Estas perspectivas têm me oferecido algum consolo e estrutura para entender as minhas próprias experiências.

Alguns colegas de trabalho, que notam as minhas dificuldades, têm sido particularmente pacientes em explicar-me os contextos sociais onde me perco. Um deles sugeriu-me que diferentes estilos de processamento comunicativo não deveriam ser motivo de exclusão, mas de adaptação mútua. Esta ideia fez-me sentido pois foi exatamente o que aprendi sobre a neurodiversidade nas minhas consultas.

No final, a maior lição que estou a aprender, com ajuda, é que a comunicação efetiva requer esforço de todas as partes envolvidas: tanto daqueles que, como eu, tendem à interpretação literal, quanto daqueles mais naturalmente sintonizados com as nuances pragmáticas. Continuo a depender do apoio da minha rede mais próxima para me orientar neste complexo labirinto social, pois sozinho seria praticamente impossível articular e compreender estas nuances que, para os outros parecem tão intuitivas.

By Jonas Ferreira 

Referências

Austin, J.L. (1962). *How to Do Things with Words*. Oxford University Press.

Baron-Cohen, S. (1995). *Mindblindness: An Essay on Autism and Theory of Mind*. MIT Press.

Bohrn, I.C., Altmann, U., & Jacobs, A.M. (2012). Looking at the brains behind figurative language—A quantitative meta-analysis of neuroimaging studies on metaphor, idiom, and irony processing. *Neuropsychologia, 50*(11), 2669-2683.

Frith, U. (2003). *Autism: Explaining the Enigma* (2nd ed.). Blackwell Publishing.

Grice, H.P. (1975). Logic and conversation. In P. Cole & J. Morgan (Eds.), *Syntax and Semantics, Vol. 3: Speech Acts* (pp. 41-58). Academic Press.

Silberman, S. (2015). *NeuroTribes: The Legacy of Autism and the Future of Neurodiversity*. Avery.

Sperber, D., & Wilson, D. (1986). *Relevance: Communication and Cognition*. Harvard University Press.

Winner, M.G. (2000). *Inside Out: What Makes a Person with Social Cognitive Deficits Tick?* Think Social Publishing.


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