Rotinas e rituais

A neurodiversidade é um conceito cada vez mais reconhecido na comunidade científica, que compreende as diferenças neurológicas como variações naturais da experiência humana. Como pessoa no espetro do autismo Asperger, o meu percurso tem sido marcado por desafios únicos e estratégias de adaptação que transformaram obstáculos em oportunidades de crescimento pessoal e profissional.

A autorregulação emocional tem sido um componente fundamental da minha estratégia de desenvolvimento pessoal. De acordo com Baron-Cohen et al. (2009), indivíduos no espetro do autismo frequentemente enfrentam desafios significativos na autorregulação emocional. Tal como falo nas minhas publicações anteriores, a minha decisão de deixar de fumar e controlar a compulsão alimentar representou um marco importante neste processo.

A investigação de Lever & Geurts (2016) destaca que pessoas com Síndrome de Asperger desenvolvem mecanismos de confronto únicos para lidar com stressores ambientais. No meu caso, transformei comportamentos compulsivos em estratégias conscientes de regulação:

  1. Paragem Tabágica: Desenvolvi um método sistemático de substituição de hábitos, utilizando técnicas de condicionamento comportamental.
  2. Controlo Alimentar: Implementei rotinas estruturadas de alimentação, com planeamento nutricional detalhado e consciência plena durante as refeições.

Os meus rituais compulsivos são muito mais do que simples hábitos – são verdadeiras estratégias de sobrevivência neurológica. Cada movimento, cada passo, cada momento de alimentação representa um mecanismo complexo de autorregulação emocional e sensorial.

Caminhar 20 quilómetros por dia não é apenas exercício físico, mas um ritual profundamente estruturado de processamento sensorial e emocional. De acordo com Zink et al. (2014), indivíduos no espetro do autismo frequentemente utilizam movimentos repetitivos e exercícios físicos como uma forma de:

  • Autorregulação sensorial
  • Redução da ansiedade
  • Processamento de estímulos ambientais
  • Criação de previsibilidade e controlo

A minha caminhada diária funciona como um mecanismo de “reset” neurológico. Cada passo é uma oportunidade de:

  • Organizar pensamentos dispersos
  • Equilibrar a sobrecarga sensorial
  • Criar uma estrutura temporal previsível no meu dia

As minhas refeições são verdadeiras performances de precisão e rituais sensoriais. Cada alimento, cada movimento à mesa segue um padrão meticulosamente desenvolvido que vai além de uma simples preferência.

Segundo Caria & de Falco (2015), estes comportamentos repetitivos na alimentação são estratégias de:

  • Controlo sensorial
  • Redução da imprevisibilidade
  • Gestão da ansiedade relacionada com estímulos sensoriais

Os meus rituais alimentares incluem:

  • Sequências específicas de consumo dos alimentos
  • Formas precisas de cortar e dispor os alimentos no prato
  • Padrões de mastigação e ingestão
  • Utilização específica de talheres e utensílios

A investigação de Uzefovsky et al. (2019) no Molecular Autism sugere que estes comportamentos repetitivos não são meras idiossincrasias, mas mecanismos adaptativos profundamente enraizados em diferenças neurobiológicas.

Para mim, estes rituais são:

  • Instrumentos de comunicação com o ambiente
  • Estratégias de processamento sensorial
  • Mecanismos de criação de previsibilidade
  • Formas de gerir a sobrecarga de estímulos externos

Os meus rituais compulsivos são a minha linguagem única de interação com o mundo. Não são limitações, mas adaptações sofisticadas que me permitem navegar num ambiente frequentemente caótico e imprevisível.

O meu percurso como pessoa no espetro Asperger é uma narrativa de adaptação, resiliência e celebração da neurodiversidade. Por isso mesmo tomei a iniciativa, de escrever para vocês, caros leitores, mesmo antes de “ter um diagnóstico”. Cada desafio superado representa não apenas um crescimento pessoal, mas uma contribuição para a compreensão mais alargada das diversas formas de experiência humana.

By Jonas Ferreira

Referências

Attwood, T. (2007). Guia completo da Síndrome de Asperger. Porto Editora.

Baron-Cohen, S., Wheelwright, S., Lawson, J., Griffin, R., Ashwin, C., Billington, J., & Chakrabarti, B. (2009). Quociente de Empatia (QE): Uma investigação sobre adultos com Síndrome de Asperger ou autismo de alto funcionamento, e diferenças normais entre sexos. Jornal de Estudos do Autismo e Perturbações do Desenvolvimento, 39(11), 1509-1521.

Caria, V., & de Falco, S. (2015). Autism spectrum disorders: Interaction and relationship patterns in children with autism. Neuropsychiatric Disease and Treatment, 11, 1967-1977.

Entman, D., Kennedy, J., & Camposano, A. (2012). Neurodiversidade no local de trabalho: Um guia para compreender e empregar indivíduos neurodivergentes. Porto Editora.

Lever, A. G., & Geurts, H. M. (2016). Sintomas psiquiátricos comórbidos e problemas psicossociais em adultos com perturbação do espetro do autismo. Jornal de Estudos do Autismo e Perturbações do Desenvolvimento, 46(2), 604-615.

Uzefovsky, F., Allison, C., & Baron-Cohen, S. (2019). Variability in the autism spectrum disorder phenotype: Findings from large-scale molecular genetic studies. Molecular Autism, 10(1), 1-11.

Zink, M., Schröder, P., Retz, W., Reif, A., & Thome, J. (2014). Comorbidity of ADHD and autism spectrum disorder in adults with Tourette syndrome. Journal of Attention Disorders, 18(5), 427-435.

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