A dualidade entre pensamentos

O funcionamento cognitivo humano apresenta diferentes padrões de processamento de informação, sendo o pensamento rígido e o flexível duas modalidades fundamentais que impactam significativamente a nossa forma de interagir com o mundo (Beck & Haigh, 2014).

O pensamento rígido caracteriza-se pela inflexibilidade cognitiva e resistência à mudança, manifestando-se em diversos aspectos da vida quotidiana. Como ilustração, podemos pensar na Maria, uma executiva que sempre seguiu o mesmo caminho para o trabalho durante 15 anos. Quando uma obra bloqueou a sua rota habitual, ela entrou num profundo stress por não conseguir adaptar-se a um caminho alternativo, mesmo havendo várias opções viáveis. Segundo Dennis e Vander Wal (2010), o pensamento rígido está associado à dificuldade em aceitar múltiplas perspectivas, resistência à mudança de rotinas, tendência a interpretar situações de forma dicotômica (tudo ou nada) e ao apego excessivo a regras e padrões estabelecidos.

Em contraste, o pensamento flexível representa a capacidade de adaptar-se a novas situações e considerar diferentes perspectivas. Kashdan e Rottenberg (2010) definem a flexibilidade psicológica como a habilidade de reconhecer e adaptar-se a vários contextos situacionais, mudar mindsets ou perspectivas, equilibrar desejos, necessidades e domínios da vida conflitantes, além de estar aberto a novas experiências. Para explicar, consideremos João, um professor que, durante a pandemia, precisou de se adaptar às aulas presenciais para o formato online. Enquanto alguns colegas resistiram à mudança (pensamento rígido), João viu uma oportunidade de aprender novas tecnologias e metodologias de ensino, transformando o desafio em crescimento profissional.

A pesquisa de Cheng et al. (2016) demonstrou que indivíduos com maior flexibilidade cognitiva apresentam melhor adaptação a mudanças, maior criatividade na resolução de problemas, níveis mais baixos de ansiedade e relacionamentos interpessoais mais saudáveis. Por exemplo, imagine duas pessoas enfrentando um cancelamento de voo: Ana, com pensamento rígido, insiste em manter o seu plano original, recusa-se a considerar alternativas e passa horas argumentando com funcionários da companhia aérea. Já Carlos, demonstrando pensamento flexível, avalia as suas opções, considera rotas alternativas, e transforma o contratempo numa oportunidade de explorar a cidade onde está.

Diamond (2013) sugere que a flexibilidade cognitiva pode ser desenvolvida através de exposição controlada a novos desafios, prática de mindfulness, envolvimento em atividades criativas e desenvolvimento de múltiplas perspectivas. Este desenvolvimento é importante, pois estudos conduzidos por Hayes et al. (2012) indicam que o pensamento rígido está fortemente associado a maior prevalência de perturbações de ansiedade, depressão, dificuldades de adaptação social e menor satisfação com a vida.

A compreensão da dinâmica entre o pensamento rígido e flexível é fundamental para o desenvolvimento pessoal e profissional. Como demonstrado por Kashdan e Rottenberg (2010), a flexibilidade cognitiva não apenas contribui para uma melhor adaptação às mudanças, mas também para uma maior satisfação com a vida e melhor saúde mental. Num mundo em constante transformação, desenvolver a capacidade de pensar de forma flexível torna-se cada vez mais essencial para navegar nos desafios quotidianos e manter um bem-estar psicológico adequado.

Referências:
Beck, A. T., & Haigh, E. A. P. (2014). Advances in cognitive theory and therapy: The generic cognitive model. Annual Review of Clinical Psychology, 10, 1-24.
Cheng, C., Lau, H. P. B., & Chan, M. P. S. (2016). Coping flexibility and psychological adjustment to stressful life changes: A meta-analytic review. Psychological Bulletin, 142(6), 1582-1607.
Dennis, J. P., & Vander Wal, J. S. (2010). The cognitive flexibility inventory: Instrument development and estimates of reliability and validity. Cognitive Therapy and Research, 34(3), 241-253.
Diamond, A. (2013). Executive functions. Annual Review of Psychology, 64, 135-168.
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and commitment therapy: The process and practice of mindful change (2nd ed.). Guilford Press.
Kashdan, T. B., & Rottenberg, J. (2010). Psychological flexibility as a fundamental aspect of health. Clinical Psychology Review, 30(7), 865-878.

By Jonas Ferreira

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