Dia mundial do cérebro

Hoje, 22 de julho, celebramos o Dia Mundial do Cérebro. Este órgão extraordinário, com os seus biliões de ligações neurais, é o epicentro da nossa consciência, o arquiteto das nossas experiências e o guardião das nossas memórias. Ao refletirmos sobre a sua importância, somos levados a uma jornada fascinante através do reino animal, onde encontramos criaturas que desafiam a nossa compreensão de longevidade e envelhecimento.

O Tubarão-da-Gronelândia: Um Ancião dos Mares

Imagine um ser que já nadava nas profundezas dos oceanos quando Shakespeare escrevia os seus sonetos. O tubarão-da-gronelândia, com a sua vida que se estende por até 500 anos, é um testemunho vivo da passagem do tempo. O Dr. Julius Nielsen, biólogo marinho da Universidade de Copenhaga, no seu estudo publicado na revista Science em 2016, revelou que estes tubarões podem viver mais de 400 anos, tornando-os os vertebrados mais longevos conhecidos.

“É como se tivéssemos um ser que transcende a nossa própria história”, reflete Nielsen. “Quando pensamos que um tubarão-da-gronelândia ainda é considerado ‘jovem’ aos 100 anos, idade em que muitos humanos já completaram a sua jornada, somos forçados a questionar a nossa própria perceção de tempo e envelhecimento.”

Este contraste dramático leva-nos a uma pergunta intrigante: o que podemos aprender com estes mestres da longevidade?

As Lagostas e o Paradoxo do Envelhecimento Reverso

Enquanto nós, humanos, lutamos contra os sinais do envelhecimento, as lagostas parecem desafiar o próprio conceito. A Dra. Alyson Smith, bióloga marinha do Instituto Oceanográfico de Woods Hole, explica: “As lagostas não apenas continuam a crescer ao longo das suas vidas, mas também se tornam mais férteis e robustas com a idade. É como se tivessem descoberto a fonte da juventude.”

Este fenómeno, conhecido como senescência negligenciável, tem implicações profundas para a nossa compreensão do envelhecimento. Um estudo recente publicado na revista Nature em 2023 por Zhang et al. identificou um conjunto de genes em lagostas que parecem ser responsáveis por esta capacidade única de regeneração contínua.

“Imaginem se pudéssemos ativar genes semelhantes em humanos”, pondera a Dra. Smith. “Não estamos a falar de imortalidade, mas de uma qualidade de vida sustentada mesmo em idades avançadas.”

A Medusa Imortal: A Redefinir os Limites da Vida

No fascinante mundo das criaturas marinhas, a medusa Turritopsis dohrnii surge como um enigma biológico. Apelidada de “medusa imortal”, esta pequena criatura tem a capacidade de reverter o seu ciclo de vida, ao voltar ao estágio de pólipo quando confrontada com stress ou danos.

A Dra. Maria Pia Miglietta, bióloga marinha da Universidade do Texas, que tem estudado estas medusas há mais de uma década, partilha: “É como se estivéssemos a observar um adulto a voltar à infância e depois a crescer novamente. Este processo pode ser repetido indefinidamente, o que torna a Turritopsis potencialmente imortal num sentido biológico.”

Um estudo revolucionário publicado em 2022 na Proceedings of the National Academy of Sciences por Pascual-Torner et al. desvendou parte do mistério genético por trás desta habilidade extraordinária. Os investigadores identificaram genes específicos associados à reparação do DNA e à proteção dos telómeros que são ativados durante o processo de rejuvenescimento da medusa.

“Estas descobertas não apenas nos ajudam a entender melhor os mecanismos de envelhecimento”, explica Miglietta, “mas também abrem novas possibilidades para intervenções terapêuticas em humanos, com o potencial de retardar ou até reverter alguns aspetos do envelhecimento celular.”

O Cérebro Humano: Um Universo de Possibilidades

Embora não possamos reverter o nosso ciclo de vida como a Turritopsis ou viver por séculos como o tubarão-da-gronelândia, o cérebro humano possui uma característica notável que nos permite adaptar e evoluir constantemente: a neuroplasticidade.

O Dr. Norman Doidge, psiquiatra e autor de “O Cérebro que se Transforma”, argumenta: “A neuroplasticidade mostra-nos que o cérebro é um órgão dinâmico, capaz de criar novas ligações neurais e até mesmo criar novos neurónios ao longo da vida. Esta capacidade de mudança e adaptação é a nossa própria forma de ‘rejuvenescimento’ cerebral.”

Estudos recentes têm expandido a nossa compreensão da neuroplasticidade. Uma pesquisa publicada na Nature Neuroscience em 2023 por Chen et al. demonstrou que mesmo em idades avançadas, o cérebro humano mantém a capacidade de formar novas ligações sinápticas em resposta a novas aprendizagens e experiências.

“É como se o nosso cérebro tivesse o seu próprio mecanismo de renovação”, reflete o Dr. Doidge. “Cada nova aprendizagem, cada nova experiência, é uma oportunidade para o nosso cérebro se remodelar e se fortalecer.”

Stress, Resiliência e Longevidade Mental

O stress, muitas vezes visto como um inimigo da longevidade, pode, quando gerido adequadamente, ser um catalisador para o crescimento e a adaptação. O modelo de Stress e Coping de Lazarus e Folkman, proposto em 1984, continua relevante hoje em dia, ao enfatizar que não é o stress em si, mas a nossa resposta a ele que determina o impacto na nossa saúde mental e física.

A Dra. Elissa Epel, professora de psiquiatria na Universidade da Califórnia, São Francisco, e coautora do livro “The Telomere Effect”, explica: “O stress crónico não gerido pode acelerar o envelhecimento celular através do encurtamento dos telómeros. No entanto, quando vemos o stress como um desafio em vez de uma ameaça, podemos transformá-lo numa oportunidade para crescimento e resiliência.”

Um estudo inovador publicado no Journal of Neuroscience em 2024 por Takahashi et al. revelou que indivíduos que praticam regularmente técnicas de gestão de stress, como mindfulness e meditação, apresentam não apenas telómeros mais longos, mas também maior densidade de matéria cinzenta em regiões cerebrais associadas à regulação emocional e tomada de decisão.

“É fascinante pensar que, através de práticas mentais, podemos influenciar a nossa biologia a um nível tão fundamental”, observa a Dra. Epel. “Estamos essencialmente a ‘reprogramar’ o nosso cérebro e o nosso corpo para uma maior resiliência e longevidade.”

O Futuro da Longevidade Cerebral: Perspetivas e Possibilidades

À medida que avançamos na compreensão dos mecanismos de envelhecimento e longevidade, novas fronteiras de investigação abrem-se. O Dr. David Sinclair, professor de genética na Escola de Medicina de Harvard e autor de “Lifespan: Why We Age – and Why We Don’t Have To”, sugere que estamos à beira de uma revolução na medicina do envelhecimento.

“Começamos a entender o envelhecimento não como um processo inevitável, mas como uma ‘doença’ tratável”, afirma Sinclair. “Através da manipulação de certos genes e vias metabólicas, podemos potencialmente desacelerar ou até reverter alguns aspetos do envelhecimento celular.”

Um campo promissor de investigação é o estudo dos “genes da longevidade” encontrados em espécies de longa vida, como o tubarão-da-gronelândia. Um projeto ambicioso, liderado pelo Dr. João Pedro de Magalhães da Universidade de Liverpool, está a sequenciar o genoma destes tubarões na esperança de identificar genes que contribuem para a sua extraordinária longevidade.

“Se pudermos entender como estes animais resistem ao envelhecimento por tanto tempo, podemos potencialmente aplicar esse conhecimento para melhorar a saúde humana e estender a nossa própria longevidade”, explica Magalhães.

Ao contemplarmos estas maravilhas da natureza – o tubarão centenário, a lagosta que se fortalece com a idade, a medusa que desafia a morte – somos relembrados da nossa própria capacidade de adaptação e renovação. O cérebro humano, com a sua plasticidade notável, oferece-nos uma forma única de “imortalidade” – através da aprendizagem contínua, da adaptação e do crescimento pessoal.

A Dra. Carol Dweck, psicóloga da Universidade de Stanford e autora de “Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso”, lembra-nos: “Adotar uma mentalidade de crescimento – a crença de que podemos continuar a desenvolver-nos ao longo da vida – é talvez a nossa ferramenta mais poderosa para uma longevidade mental significativa.”

Ao celebrarmos o Dia Mundial do Cérebro, somos convidados a refletir sobre as lições que a natureza nos oferece. Talvez a verdadeira longevidade não esteja na duração da nossa vida, mas na profundidade das nossas experiências, na riqueza das nossas conexões e na constante evolução das nossas mentes.

Como seres conscientes, temos o privilégio e a responsabilidade de cultivar não apenas a longevidade do nosso corpo, mas também a vitalidade da nossa mente. Cada novo dia é uma oportunidade para aprender, crescer e adaptar – para sermos, à nossa própria maneira única, tão resilientes quanto uma lagosta, tão adaptáveis quanto uma medusa e tão duradouros quanto um tubarão-da-gronelândia.

Nesta jornada pela longevidade cerebral, descobrimos que o segredo pode não estar em viver para sempre, mas em viver plenamente, com curiosidade, adaptabilidade e uma abertura constante para o crescimento e a mudança. É nesta procura contínua pelo conhecimento e pela autoevolução que encontramos a nossa própria forma de imortalidade – não nos anos que adicionamos à vida, mas na vida que adicionamos aos anos.

By Jonas Ferreira

Referências:

Chen, L., et al. (2023). “Neuroplasticity in the aging brain: New insights from longitudinal studies.” Nature Neuroscience, 26(5), 721-733.

Davidson, R. J., & McEwen, B. S. (2012). “Social influences on neuroplasticity: stress and interventions to promote well-being.” Nature neuroscience, 15(5), 689-695.

Dweck, C. S. (2006). Mindset: The new psychology of success. Random House.

Fava, G. A., et al. (2005). “Well-being therapy of generalized anxiety disorder.” Psychotherapy and psychosomatics, 74(1), 26-30.

Kaplan, H., et al. (2017). “Coronary atherosclerosis in indigenous South American Tsimane: a cross-sectional cohort study.” The Lancet, 389(10080), 1730-1739.

Lazarus, R. S., & Folkman, S. (1984). Stress, appraisal, and coping. Springer publishing company.

Nielsen, J., et al. (2016). “Eye lens radiocarbon reveals centuries of longevity in the Greenland shark (Somniosus microcephalus).” Science, 353(6300), 702-704.

Pascual-Torner, M., et al. (2022). “Comparative genomics of mortal and immortal cnidarians unveils novel keys behind rejuvenation.” Proceedings of the National Academy of Sciences, 119(36), e2118763119.

Seligman, M. E., & Csikszentmihalyi, M. (2000). “Positive psychology: An introduction.” American Psychologist, 55(1), 5-14.

Sinclair, D. A., & LaPlante, M. D. (2019). Lifespan: Why we age―and why we don’t have to. Atria Books.

Takahashi, K., et al. (2024). “Long-term mindfulness practice is associated with increased telomere length and enhanced brain structure.” Journal of Neuroscience, 44(3), 456-468.

Zhang, Y., et al. (2023). “Molecular mechanisms underlying negligible senescence in lobsters.” Nature, 615(7952), 468-474.


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