E3 – O refúgio

Pedro chegou a casa depois das aulas e, como sempre, dirigiu-se ao quarto para desenhar monstros e criaturas mágicas. Desenhar era a sua paixão e ele tinha um talento nato para isso. A escola ficava perto da sua casa, por isso Pedro vinha a pé, a ouvir música melancólica nos seus fones de ouvido. Enquanto caminhava, os olhos castanhos refletiam uma mistura de serenidade e introspecção. A sua expressão era suave, com uma leve tristeza que parecia acompanhar cada nota da música que ouvia. Havia um ar de nostalgia no seu rosto, como se ele estivesse constantemente perdido nos pensamentos profundos.

Ao chegar a casa, cumprimentava a mãe com um breve “Olá” e seguia diretamente para o quarto. A mãe, já habituada à rotina do filho, sorria-lhe e respondia com carinho. Ela sabia que aquele era o momento em que o Pedro precisava de se refugiar no seu mundo.

No quarto, as paredes estavam decoradas com desenhos. Criaturas fantásticas, dragões, fadas e monstros habitavam aquele espaço, cada um mais detalhado que o outro. Pedro sentava-se à mesa de trabalho, cheia de lápis de cor, canetas e cadernos de esboços. Ali, ele perdia a noção do tempo. Cada traço no papel era uma forma de expressar o que ele sentia e o que não conseguia dizer em palavras. Desenhar era a maneira de comunicar com o mundo, de mostrar as suas emoções e pensamentos mais profundos.

Quando não estava a desenhar, Pedro gostava de ver televisão. Tinha uma pequena televisão no quarto, onde assistia a séries e filmes de fantasia e ficção científica. Ele deixava-se envolver pelas histórias e encontrava conforto nas aventuras e nos mundos imaginários que tanto adorava.

Outras vezes, Pedro ligava o computador e jogava. Gostava especialmente de jogos que envolvessem construção de mundos e criação de personagens. Eram momentos onde podia aplicar a sua criatividade. Perdia-se nas horas a construir cidades, a enfrentar monstros virtuais e a explorar novos territórios.

Embora gostasse de desenhar, ver televisão e jogar no computador, Pedro sabia que estas atividades eram mais do que simples passatempos. Eram uma forma de fugir da realidade e encontrar um lugar onde se sentia compreendido e seguro. No quarto, rodeado pelos seus desenhos e pelos mundos que criava. Pedro encontrava a paz que tantas vezes lhe faltava na escola.

Cada desenho, cada cena de um filme ou série, cada desafio num jogo, era um pedaço de si que ele partilhava, mesmo que de forma silenciosa. E, ao final de cada dia, ao desligar o computador ou guardar os lápis de cor, Pedro sentia-se um pouco mais forte. Ele sabia que tinha um refúgio onde podia ser ele mesmo, sem medo de ser incompreendido.

Durante o jantar, Pedro sentia uma vontade intensa de partilhar as suas conquistas do dia. Adorava falar sobre os monstros e criaturas mágicas que desenhava, as histórias incríveis que via na televisão, e as construções épicas que criava nos jogos. A sua voz enchia-se de entusiasmo enquanto descrevia cada detalhe com paixão, os olhos a brilhar de excitação.

— Hoje desenhei um dragão incrível! — começava ele. — Tem escamas douradas e asas enormes que parecem feitas de fogo. E no jogo, construí uma fortaleza no topo de uma montanha…

Mas a sua mãe, com uma expressão de cansaço e impaciência, interrompia-o. Os seus olhos, outrora carinhosos, agora mostravam uma certa exasperação, e a boca contraía-se num sorriso forçado.

— Pedro, estás sempre a falar das mesmas coisas — dizia ela a suspirar. — Não tens outro assunto? Já sabemos que gostas de desenhar e jogar, mas tenta variar um pouco.

Pedro sentia um aperto no peito cada vez que a mãe o interrompia. A excitação esvaía-se, transformava-se em frustração e tristeza. Olhava para o pai a procura de apoio, mas ele permanecia em silêncio. Acenava levemente a cabeça a concordar com o que a mãe dizia. O pai raramente falava durante o jantar, limitava-se a observar e acenar, como se não tivesse uma opinião própria ou, talvez, simplesmente quisesse evitar conflitos.

A mãe de Pedro não percebia o quanto aquelas atividades significavam para ele. Para ela, eram apenas hobbies repetitivos e insignificantes. Não entendia que, para Pedro, cada desenho, cada história e cada construção eram um pedaço do seu mundo interior, uma forma de se expressar e encontrar um sentido para os seus sentimentos.

A sentir-se incompreendido e desvalorizado, Pedro começou a encontrar conforto na comida do seu prato. O jantar, antes um momento de silêncio desconfortável, tornou-se gradualmente um refúgio solitário mas reconfortante. O olhar, antes desviado para evitar o contato visual com os pais, agora fixava-se nas texturas e cores dos alimentos à sua frente.

Lentamente, Pedro descobriu que cada garfada oferecia uma breve, mas bem-vinda, distração das emoções dolorosas. O sabor dos alimentos, a sensação de saciedade, tudo isto começou a preencher o vazio que sentia. Ele passou a ansiar por momentos à mesa, onde podia perder-se nas nuances dos sabores e texturas para suprimir temporariamente a sensação de invisibilidade e inadequação.

Pedro começou a comer mais, a saborear cada bocado como se fosse uma pequena vitória sobre a tristeza. A comida tornou-se o aliado silencioso, uma fonte de prazer que ninguém podia tirar dele. Embora não resolvesse os problemas, Este novo hábito oferecia-lhe uma escapatória temporária, um momento de paz no meio do frenesim emocional que enfrentava.No final do jantar, Pedro agradecia educadamente e retirava-se para o seu quarto. Lá, encontrava o consolo que procurava, imerso nas suas criações. Cada traço no papel, cada cena na televisão e cada desafio no jogo era uma lembrança de que, mesmo que não fosse compreendido à mesa de jantar, ele tinha um lugar onde podia ser verdadeiramente ele mesmo.

A noite avançava e, no silêncio do seu quarto, Pedro refletia sobre a sua relação com os pais. Queria tanto que eles entendessem o quanto aquelas atividades significavam para ele, mas sabia que essa compreensão talvez nunca chegasse. Mesmo assim, prometeu a si mesmo que não desistiria daquilo que amava. Afinal, era nas suas criações que encontrava a sua verdadeira voz e identidade, um lugar onde, mesmo incompreendido, podia ser livre.

Caro leitor, obrigado por continuar a ler os meus contos

Todas as sextas-feiras irei publicar um pequeno excerto do conto aqui no meu blog.

By Jonas Ferreira


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