Ao longo do meu desenvolvimento pessoal, percebi que a minha relação com a socialização e a procura por relacionamentos sofreu uma transformação profunda e significativa. Um processo contínuo e marcado por descobertas internas relativas às minhas verdadeiras necessidades emocionais e interpessoais. Não é fácil identificar e reconhecer os meus sentimentos e as minhas necessidades devido à alexitimia. No entanto através do meu comportamento, das minhas reações e das situações que me fazem querer continuar, consigo perceber quais as emoções e necessidades que necessito. Para isso, precisei de estudar e aprender desde as emoções primárias e as secundárias, até às experiências pessoais que amigos, colegas e desconhecidos proporcionaram-me. A partir daí, correlaciono com a minha experiência e chego a uma conclusão: como me sinto e o que necessito. A isto eu chamo: processos compensatórios cognitivos. A racionalização dos meus sentimentos e das minhas necessidades aliada ao estudo da inteligência emocional permitiu-me desenvolver um reportório capaz de saber realmente o que sinto e necessito. Claro que é um processo interno. Sou demasiado analítico, racional. Se antigamente eu escondia isso e camuflava-me através das expressões e micro expressões para que ninguém pudesse sequer perceber o quão estranho eu era, hoje em dia, estou num processo de descamuflagem. Não é fácil. Enfrento olhares de desdém, comentários depreciativos, perguntas indiscretas e também exclusão. No entanto, a descamuflagem permite-me sentir melhor, sem pressões, mais confortável e canso-me menos. Também permite-me estar rodeado de pessoas que não se importam com as minhas excentricidades e permitem que seja mais autênticos. E isso, eu valorizo mais do que os demais.
O maior desafio para muitas pessoas autistas incluindo eu próprio, é lidar com influências, expectativas e pressões sociais externas que tentam moldar a nossa identidade e o nosso comportamento. Reconhecer que somos diferentes, e que as opiniões dos outros refletem as suas próprias experiências e não a nossa essência, é o primeiro passo para convivermos autenticamente com as adversidades sociais (Bliacheris, 2021; Chammas, 2023).
Quando internalizamos que a opinião alheia não define o nosso valor, experimentamos um alívio significativo diante da pressão externa. Essa aceitação permite um filtro natural: observamos as atitudes e as reações das pessoas e compreendemos quem merece a nossa confiança e a nossa energia emocional (Xavier & Silva, 2022). Contudo, não precisamos de reafirmar-nos verbalmente de forma erudita. As nossas ações e a nossa autenticidade são percebidas e reconhecidas pelos demais.
No contexto do autismo, lidar constantemente com o julgamento social requer uma maior resiliência emocional. Os estigmas e o capacitismo social promovem isolamento, ansiedade e danos à autoestima (Araujo, 2023; Marques & Lima, 2025). Portanto, construir uma identidade sólida, que respeita a própria neurodivergência, é um fator protetor para a saúde mental (Autismo e Realidade, 2024; GenialCare, 2024).
Outra questão importante que quero salientar é reconhecer que o autista pode experimentar uma dissonância entre a sua identidade verdadeira e a persona que sente necessidade de se apresentar nos espaços socialmente hostis. Este fenómeno ligado à camuflagem social gera fadiga emocional e o risco de burnout e suicídio (Hull, Petrides, & Mandy, 2017; Cassidy et al., 2018). Desta forma, aprender a estabelecer limites e a valorizar a solidão escolhida emerge como uma estratégia protetora essêncial.
A sociedade e os diversos grupos e comunidades devem promover ambientes inclusivos que respeitem essas diferenças comunicacionais e culturais, para que as pessoas autistas não precisem ocultar a sua identidade para serem aceitas (Bliacheris, 2021; Kapp et al., 2013). A valorização da neurodiversidade implica mudar os paradigmas sociais para garantir autonomia e autenticidade, o que beneficia não apenas pessoas autistas, mas toda a diversidade humana (Chammas, 2023; Freire, 2021).
Com o processo de descamuflagem, comecei a notar que a socialização deixava-me cansado, inquieto. Gradualmente, deixei de procurar ativamente amigos ou grupos sociais, não por aversão às relações humanas, mas pela constatação honesta de que não preciso tanto de socializar para sentir-me pleno ou seguro. Esta escolha não representa isolamento ou solidão sofrida, mas uma escolha voluntária e intencional de solitude, cuja prática traz benefícios amplamente discutidos pela literatura científica (Long et al., 2020; Nguyen et al., 2023).
A solitude proporciona um ambiente singular para a introspecção, a criatividade e o autoconhecimento e contribui para a redução do stress e a melhoria da saúde mental, emocional e física. Segundo Long et al. (2020), “a experiência da solitude, quando voluntária, promove a autorregulação emocional e fortalece a resiliência psicológica que também está associada à melhoria da saúde mental e à criatividade” (p. 45).
O desgaste emocional nas pessoas autistas é amplamente reconhecido na literatura como uma consequência significativa das interações sociais, que exigem esforço intenso e provocam sobrecarga sensorial e cognitiva (Brede & Shadd, 2023; Kerns et al., 2020). Este desgaste está relacionado não apenas às dificuldades na interpretação e resposta a pistas sociais dos neurotipicos, mas também ao contínuo esforço necessário para se adaptar a normas sociais que não foram feitas para o funcionamento neurodivergente (Hull et al., 2017).
Contudo, em muitos contextos sociais e até grupos ligados à neurodiversidade, observa-se pressão para que a pessoa autista ajuste-se ao modelo neurotípico de socialização e relacionamento, pressuposto como condição indispensável para a realização afetiva (Müller et al., 2022; Cage et al., 2018). É fundamental compreender que essa não é uma regra universal, mas um padrão estatístico observado em médias populacionais, amplamente difundido em estudos sobre saúde mental (Umberson & Karas Montez, 2010; Cacioppo & Hawkley, 2009).
Embora os autores contemporâneos alertem que as pressões sociais do passado não se aplicam integralmente ao contexto atual, dado ao avanço tecnológico e às mudanças culturais profundas (Pinker, 2011; Schillings et al., 2021), do ponto de vista da psicologia evolucionista, a socialização é um mecanismo adaptativo desenvolvido para garantir sobrevivência nos ambientes hostis e que facilita a cooperação e a proteção coletiva (Hamilton, 1964; Dunbar, 2018).
Distinguir a comunicação da socialização é essencial: comunicar é transmitir emoções, ideias ou necessidades, enquanto socializar envolve criar e manter vínculos afetivos que variam de intensidade para diferentes indivíduos (Freire, 2021; Crompton et al., 2020). No autismo, a teoria da dupla empatia explica que as dificuldades surgem da incompatibilidade comunicacional entre neurótipos distintos, e não de um déficit individual unilateral (Milton, 2012; Crompton et al., 2020; Rochat et al., 2019). Ou seja, a comunicação entre pessoas autistas é eficaz e corresponde às formas naturais de interação, e as dificuldades emergem na comunicação cruzada entre autistas e neurotípicos.
No entanto a comunicação entre pessoas autistas pode ser influenciada por pressões culturais e sociais que impõem normas neurotípicas às interações sociais. Essas expectativas geram o esforço conhecido como camuflagem social ou masking, no qual a pessoa autista esconde comportamentos naturais, adapta a sua linguagem, gestos e interesses para se encaixar nos padrões sociais vigentes (Hull et al., 2017; Lai et al., 2016). Eata adaptação, embora muitas vezes necessária para evitar rejeição e estigma, pode originar vieses e más interpretações na comunicação porque a expressão autêntica fica ocultada o que dificulta a compreensão mútua entre as pessoas autistas (Wigham et al., 2019; Cage et al., 2018).
Além disso, as crenças culturais sobre o que é considerado comportamento social “adequado” influenciam a receção e interpretação das interações autistas e que leva a julgamentos errados sobre as suas intenções, emoções ou capacidades comunicativas (Milton, 2012). A camuflagem, por exigir este esforço cognitivo extenuante, o autista pode desenvolver exaustão, ansiedade e uma perda da identidade comunicativa verdadeira ao dificultar ainda mais o processo comunicativo entre pares autistas e também com neurotípicos (Hull et al., 2017). Assim, a comunicação entre autistas sofre não apenas por fatores internos decorrentes do esforço da camuflagem, mas também por barreiras externas justamente ligadas a concepções sociais e culturais restritivas.
Refutar a ideia genérica de que “todos precisam socializar” não ignora que o apoio social influencia positivamente a saúde e a longevidade (Umberson & Montez, 2010; Holt-Lunstad et al., 2015). No entanto, esses dados são estatísticos, e a qualidade das relações e desse apoio, a autonomia emocional e a satisfação pessoal são preditores mais fiéis do bem-estar (Rodrigues, 2009; Pietrukowicz, 2001; Feeney & Collins, 2015).
A valorização da experiência individual é imprescindível, pois muitos autistas sentem tristeza ao tentar forçar relações que não atendem às suas verdadeiras necessidades e que criam frustrações e comparações prejudiciais (Freire, 2021; Cage et al., 2018). É importante defender a autonomia e respeitar as diferenças, sem generalizações desumanizadoras (Rodrigues, 2009).
Neste contexto, o movimento da neurodiversidade convida-nos a abandonar a perspectiva centrada num padrão homogéneo de socialização e a reconhecer a inteligência emocional presente na aceitação das diferenças e do acolhimento sem julgamentos (Kapp et al., 2013; Crompton et al., 2020).
Quando a minha experiência pessoal é contrariada por terceiros que alegam entendê-la melhor do que eu mesmo, mesmo pessoas autistas, reafirmo que falar de mim é um gesto de autenticidade e não de generalização. Escrevo este texto com base na minha experiência pessoal sobre o fenómeno aliada a literatura científica e não a toda a comunidade neurodivergente. Podes identificar-te com a minha experiência e isso pode ajudar a compreender a ti e ao outro. Dar a conhecer a minha prepsetiva pode de facto enriquecer a diversidade neurodivergente e a complexidade da vida humana. Cada pessoa conhece melhor as suas necessidades do que qualquer observador externo. Como já referi e reforço, para muitas pessoas autistas, a solitude é um fator protetor que fortalece a saúde mental, a criatividade, a autonomia e a autorregulação emocional (Long et al., 2020; Nguyen et al., 2023; Feeney & Collins, 2015).
Por que um leitor incomodaria com tal observação?
A defesa dos próprios limites ao reconhecer a solitude como uma escolha legítima e saudável que rejeita a pressão para conformar-se a modelos sociais neurotípicos, pode causar desconforto em terceiros por:
- Visão médica tradicional: Persiste a crença generalizada de que socializar é uma necessidade universal e que o isolamento é sempre visto como negativo. Desta forma as experiências pessoais dissonantes são vistas com resistência. Uma reação comum à desconstrução de crenças enraizadas (Pinker, 2011; Hamilton, 1964).
- Invisibilidade da camuflagem social: A camuflagem social é uma estratégia oculta em pessoas neurodivergentes que permite uma aparência de adaptação e que pode levar observadores a interpretar uma escolha voluntária de solitude como evitamento anormal ou resistência social e a deslegitimidade da escolha pessoal (Hull et al., 2017; Crompton et al., 2020).
- Compreensão limitada da diversidade comunicacional: A teoria da dupla empatia mostra que as dificuldades de comunicação não são equivocadamente atribuídas apenas ao autista, mas à interação entre diferentes neurotipos. Ao ignorar isso é interpretar erradamente o isolamento como falta de interesse ou incapacidade social (Milton, 2012; Crompton et al., 2020).
- Pressão social normativa: A cultura neurotípica impõe expectativas rígidas de sociabilidade que desconsideram a autonomia emocional do indivíduo autista. Defender os limites e expressar dificuldades são interpretados como rejeições ou críticas às normas o que poderá causar desconforto em quem se sente desafiado (Freire, 2021; Reis, 2016).
Estudos confirmam que a camuflagem social está associada a consequências prejudiciais para a saúde mental, incluindo burnout, ansiedade e um maior risco de suicídio (Hull et al., 2017; Raymaker et al., 2020; Cassidy et al., 2018). Em contrapartida, a solitude voluntária favorece bem-estar psicológico e regulação emocional (Long et al., 2020; Nguyen et al., 2023).
A teoria da dupla empatia é importante para apreciar a diversidade comunicacional e reconhecer o direito à autenticidade, e à saúde emocional em diferentes formas de interação (Milton, 2012; Crompton et al., 2020). A neurodiversidade exige respeito às diferenças sem imposições e valoriza as múltiplas formas legítimas de ser e socializar (Kapp et al., 2013; Feeney & Collins, 2015).
O incómodo que muitas pessoas manifestam ao defender limites emocionais e experimentar autenticidade, reflete uma resistência cultural enraizada à diversidade legítima dos modos de socialização e comunicação. A literatura científica revela que a camuflagem social exaustiva e a negação da autenticidade são prejudiciais à saúde mental, enquanto a solitude escolhida e o respeito à neurodiversidade promovem o bem-estar. Assim, defender limites não é apenas autocuidado, mas um ato fundamentado na ciência para a promoção da dignidade e da saúde mental.
Referências
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