Neurodiversidade: perspetivas e ciência

Durante muitos anos, a discussão em torno do autismo tem sido marcada por uma perspetiva quase exclusivamente clínica que vê o autismo como uma perturbação do neurodesenvolvimento situada num espectro de patologias. No entanto importa refletir sobre a real natureza desta condição e o impacto de a enquadrar apenas como uma patologia.

A ciência contemporânea começa finalmente a reconhecer a enorme diversidade biológica e comportamental entre os seres humanos incluindo diferenças naturais no modo como o cérebro processa a informação. Estas variações neurológicas que manifestam-se de maneiras diferentes em cada pessoa, apenas revelam a complexidade do cérebro humano e mostram que não existe apenas um modelo válido para ser humano ou para uma vida plena e feliz.

O conceito de neurodiversidade partilha desta visão e destaca que o autismo assim como outras formas de funcionamento cerebral fora do eixo dito normal fazem simplesmente parte da vasta tapeçaria da biodiversidade humana. Quando optamos por ver o autismo unicamente sob a lente da patologia acabamos muitas vezes por reforçar preconceitos e exclusão. Isto porque tratar as diferenças como falhas intrínsecas fomenta a ideia de que aqueles que fogem ao padrão necessitam obrigatoriamente de ser corrigidos, adaptados ou mesmo “curados”.

Ora esta mentalidade só contribui para uma sociedade menos inclusiva e mais desigual onde as pessoas autistas enfrentam obstáculos acrescidos ao nível do acesso à educação, ao emprego, à saúde e a uma participação plena na comunidade. Ser autista não é sinónimo de doença. Embora muitas pessoas necessitem de apoios especializados ou adaptação nos contextos em que vivem o autismo em si, não coloca a vida da pessoa em risco ao contrário do que acontece por exemplo nas patologias cardíacas, renais ou hepáticas. As perturbações cardíacas não tratadas podem levar à morte e exigem respostas médicas urgentes. No caso do autismo estamos maioritariamente a lidar com diferenças funcionais e não com falhas estruturais ou orgânicas fatais.

Isto não significa que devemos ignorar ou minimizar as dificuldades associadas ao autismo. Muitas pessoas no espectro enfrentam desafios significativos tais como dificuldades de comunicação, interação social, questões sensoriais ou barreiras à autonomia. O papel da sociedade e dos profissionais de saúde deve ser o de proporcionar as ferramentas, o apoio e as adaptações necessárias para que cada pessoa floresça à sua maneira e que respeite a sua identidade bem como as suas escolhas pessoais. A aceitação da comunicação não verbal por exemplo é um passo fundamental rumo a uma abordagem mais equitativa. Se uma pessoa comunica de forma não verbal, seja por gestos, utilização de tecnologias ou outras formas alternativas, por que motivo deveria a sociedade forçá-la a ser verbal apenas porque essa é a norma? O objectivo não deve ser uniformizar mas sim criar condições para que todos possam comunicar segundo as suas capacidades e preferências. Propor terapias ou intervenções, deve ser sempre um ato centrado na pessoa e nunca fruto de uma imposição social que valoriza apenas o que é considerado típico. Impor uma visão patológica do autismo perpetua o estigma, reduz a autoestima, e limita a participação dos autistas na vida em sociedade.

Ao invés disso é urgente promover uma mudança cultural que abrace verdadeiramente a diversidade neurológica e compreenda que estas diferenças podem ser fontes valiosas de criatividade, inovação, empatia e novas perspetivas. O mundo precisa de acordar para esta realidade. Só assim conseguiremos construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva que valorize todas as pessoas independentemente das diferenças no funcionamento do seu cérebro.

Celebrar a neurodiversidade não implica negar os desafios mas sim recusar o discurso que vê tudo o que é diferente como um problema. Ao reconhecer que ninguém é igual e que a diversidade está inscrita na própria natureza humana abrimos espaço para uma convivência mais respeitosa, livre de preconceitos e centrada na dignidade de cada um.

Adicionalmente é fundamental reconhecer o papel esmagador que a pressão social exerce sobre as pessoas neurodivergentes de forma semelhante ao que acontece com outras minorias como as pessoas transgénero. Muitas vezes não é a diferença em si que causa sofrimento mas sim as expectativas sociais rígidas e os padrões normativos impostos pela maioria. Tal como no caso das pessoas trans onde a decisão de realizar cirurgias de afirmação de género deve ser sempre um direito pessoal e nunca uma exigência do exterior, o mesmo se aplica às pessoas autistas que desejam mudar algum aspeto do seu funcionamento como por exemplo, optar por terapias para desenvolver capacidades verbais.

O que está verdadeiramente em causa não é se alguém escolhe ou não determinada terapia ou intervenção mas sim garantir que essa decisão parte do próprio e não de uma pressão social para se conformar ao que é considerado normal. O essencial é assegurar a liberdade de escolha e o respeito pela autonomia de cada um para que todos possam viver e expressar-se de acordo com quem realmente são sem medo de discriminação ou rejeição. Esta abordagem promove uma sociedade mais justa, compassiva e verdadeiramente inclusiva onde cada pessoa é valorizada na sua individualidade com o direito ao seu próprio percurso de vida.

By Jonas Ferreira


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